RECORTES BIOGRÁFICOS DE ANA CRISTINA DE MORAES: MEMÓRIAS DA TRAJETÓRIA FORMATIVA

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Abstract
RECORTES BIOGRÁFICOS DE ANA CRISTINA DE MORAES: MEMÓRIAS DA TRAJETÓRIA FORMATIVA INTRODUÇÃO A pesquisa se insere no campo da História da Educação, com ênfase, na biografia de mulheres educadoras, práticas educativas e sua formação docente e discute os imperativos formativos da estética docente, por meio do percurso biográfico da professora Ana Cristina de Moraes, doravante somente Ana Cristina. Nesse bojo, a educação estética como movimento dialético, situa-se como ciência no ensino das artes envolvendo a percepção, a imaginação e a sensibilidade para o belo, o expressivo e o simbólico no mundo, e modo que a “[...] dialogação implica a responsabilidade social e política do ser humano” (Freire, 1980, p. 69). Considerando a importância das biografias para a História da Educação, esta pesquisa elegeu a história de vida da professora Ana Cristina, como objeto de estudo. Atualmente, a biografada é professora adjunta da Universidade Estadual do Ceará, está vinculada aos Programas de Pós-Graduação - PPGE e Mestrado em Educação e Ensino- MAIE/UECE. Ela é coordenadora do grupo de Pesquisa Investigação em Arte, Ensino e História (IARTEH) da mesma instituição. Ana Cristina iniciou o oficio de docência no ensino superior em 2001 como professora substituta na UECE em Fortaleza, em 2003 passou na seleção para professora substituta na UECE de Itapiopoca, e em 2005 tornou-se professora efetiva da mesma instituição, permanecendo até o ano de 2023, quando participou da seleção interna de transferência para o Centro de Educação – CED, no curso de pedagogia da UECE do Campus do Itaperi em Fortaleza. Iniciou trabalho com a disciplina arte-educação e formação estética no ensino superior em 2011. Atualmente, Ana Cristina vem elaborando projetos sobre formação docente e inovação pedagógica, tomando como referencial a abordagem das aulas-oficinas nos cursos de Pedagogia, sobretudo, na UECE e em países diversos, a exemplo, Portugal, México. Questionou-se como uma mulher pernambucana, advinda de uma educação básica deficiente e inconstante, conseguiu ingressar no ensino superior público e galgar uma carreira sólida na UECE, contribuindo de forma significativa para a formação de docentes e pesquisadores, em específico, na área de Educação e Artes nos programas de Graduação e Pós-Graduação da UECE. A fim de responder aos questionamentos, objetivou-se biografar a professora Ana Cristina com ênfase em seu percurso formativo que possibilitou uma carreira de destaque em saberes estético-artísticos mobilizados em processos de formação docente na dita instituição de ensino superior. A relevância em biografar a professora Ana Cristina consiste na importância e na possibilidade do trabalho com memórias e narrativas de pessoas comuns que vivenciaram acontecimentos importantes na história da educação, além de trazer à baila as trajetórias de mulheres educadoras em diferentes contextos. Para além disso, busca romper o silêncio e a invisibilidade na qual as mulheres eram mantidas anteriormente (Perrot, 2007). METODOLOGIA Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, do tipo biográfico, amparado na História Oral a partir de entrevista livre com a biografada como instrumento de coleta de fontes (Nogueira; Cunha; Fialho, 2023). Partindo dessa base, a pesquisa qualitativa se configura em diversos tipos de abordagens e métodos, como nas análises de diversas perspectivas das esferas da vida (Flick, 2009). Ante ao exposto, o estudo é amparado teoricamente nos pressupostos teóricos da História Cultural, a partir da terceira geração de Annales (Burke, 2021), a qual possibilitou o alargamento da compreensão de fontes historiográficas, estendendo sua reflexão para novos problemas, novas abordagens e novos objetos de estudos. Especialmente, em pesquisas do tempo presente (Fiorucci, 2011), que nos permitiu considerar a oralidade da biografada como fonte principal. Sobretudo, valorizou-se as contribuições educacionais de Ana Cristina, considerando sua oralidade acerca de seu percurso formativo e atuação profissional no ensino de artes na educação superior. Desta feita, desenvolveu-se um estudo do tipo biográfico (Dosse, 2022), no qual, mediante a trajetória formativa da biografada, podemos compreender, mesmo que em uma escala reduzida, a história de mulheres educadoras no estado do Ceará do século XXI. Além disso, como metodologia, amparamo-nos na História Oral (Alberti, 2004), cuja metodologia é muito cara aos estudos biográficos e historiográficos atualmente, e que nos possibilitou conhecer e registrar a história e as contribuições da educadora Ana Cristina no cenário educacional de Fortaleza/CE. A coleta das fontes foi realizada por meio de uma entrevista livre em história oral (Meihy; Holanda, 2023) com a biografada com o auxílio de aparelho eletrônico smart phone, na UECE, em 18 de fevereiro de 2025, com duração de 42 minutos, a entrevista foi transcrita, textualizada e validada. Importa destacar que Ana Cristina assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecimento, demonstrando ciência na divulgação da sua identidade no estudo em tela. TRAJETÓRIA FORMATIVA DE ANA CRISTINA DE MORAES Ana Cristina, é filha de José Assis de Mores e Valdelice Maria de Moraes. Seu pai era vendedor externo e passava a maior parte do tempo viajando a trabalho, e sua mãe, dona de casa. A biografada é a filha mais nova do casal, sendo 2 homens e 2 mulheres. Nasceu no dia 06 de novembro de 1975, em Recife, capital do estado de Pernambuco, permanecendo lá apenas os dois primeiros meses de vida, equivalente ao período de puerpério de sua mãe. Ana Cristina viveu parte de sua infância e adolescência na cidade de Fortaleza. Em decorrência do trabalho de seu pai, a biografada vivia em constantes mudanças, tanto de moradia, quanto de escolas. Ela relata que, “meu pai trabalhava como vendedor em uma empresa e de vez em quando ele era transferido para outra cidade, dessa forma, a gente se mudou muito” (Moraes, entrevista em 18/02/2025). Nessa seara, Ana Cristina, iniciou seu processo de escolarização na década de 1980, aos 6 anos, na então, alfabetização, em uma escola pública no bairro Álvaro Weyne em Fortaleza, contudo, o trânsito de trabalho de seu pai fez com que ela passasse por várias escolas, das quais não lembra mais os nomes, por diversas vezes tendo que mudar de escola no meio do ano letivo. Desta forma, aproximadamente aos 8 anos de idade, a biografada foi morar em Juazeiro do Norte, ingressando em uma escola de orientação católica, no anexo da Igreja de São Francisco, onde permaneceu estudando até o primeiro semestre da 4ª série do ensino primário, quando sua família retorna novamente à Fortaleza. Conforme ela rememora, o ensino era bastante religioso, fazendo parte da rotina acadêmica a participação em missas e eventos relacionados à igreja. Instalada novamente em Fortaleza, Ana Cristina juntamente com seu irmão mais novo, retomam o ano letivo no Ginásio Anchieta, atualmente extinto. Era uma escola das mais tradicionais da cidade, na época, e também com ligação religiosa. Salientamos que ela concluiu o ensino de primeiro grau de forma alternada, entre escolas públicas e privadas. Após a conclusão do primeiro grau, a biografada inicia o segundo grau em uma escola pública localizada no bairro Damas. Todavia, a escola carecia de uma gestão melhor, o que acarretou no descontentamento da biografada, uma vez que ela não se sentia assistida para o ingresso no ensino superior. Assim, por meio de muita insistência junto aos seus pais, ela consegue transferir-se para um colégio particular, chamado Equipe, localizado na Av. Rui Barbosa, 1999 – Aldeota. Ana Cristina concluiu a educação básica no final do século XX, todavia, esta foi marcada pelo ensino tradicional, que consistia em um ensino mnemônico e enciclopédico (Libâneo, 2014). Assim como a constante mudança de escolas, a religião católica, o civismo, a valorização de datas comemorativas e a baixa qualidade do ensino em escolas públicas foram marcas deixadas na memória da biografada. Ao tentar rememorar fatos da sua escolarização, Ana Cristina lamenta pelas dificuldades em criar vínculos afetivos, “com isso a gente sempre ficava mudando de escola e eu achava isso ruim porque não criava vínculos com as pessoas” (Moraes, entrevista em 18/02/2025). Assim, como as vivências envolvendo experiências estético-artísticas durante sua infância, “[...] vejo o quanto é difícil, e até um pouco frustrante, a falta de imagens que remetam a isso de modo significativo. É como se fosse a prova concreta da precariedade de meu acesso a uma educação estética (principalmente formal) por meio de experiências artísticas” (Moraes, 2018, p.23). Em 1994, a biografada ingressa no curso de Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará, participando de oficinas, cursos livres e envolvendo-se com o teatro, com ênfase em boneco. Fez especialização em metodologia do ensino de artes, “[...] foi um marco para querer pesquisar o tema, buscar essa temática e o campo da educação” (Moraes, entrevista em 18/02/2025, 2025). Em 2001, Ana Cristina ingressou no Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da professora Sandra Petit[1], proporcionando aproximação com a área de movimentos sociais, educação popular e escola, na qual trabalhou com uma abordagem de pesquisa sociopóetica, envolvendo sujeitos coletivos e metodologias concentradas em artes. Avultamos que a arte enquanto propulsora dos processos mentais como raciocínio, memória, imaginação e abstração do pensamento lógico e cognitivo, alicerçada na educação estética “[...] é relevante na formação do professor, pois, à medida que ele passa a ter contato com a arte como “fruidor”, torna-se um profissional que percebe o seu entorno de forma diferente” (Neitzel; Carvalho, 2016, p. 255), direcionado a adotar uma abordagem crítica, sensível, teórica e prática dos saberes artístico-culturais, estimulando a criatividade e a reflexão. Nessa vertente, Ana Cristina tornou-se professora permanente da UECE, em 2005, ministrou as disciplinas “Educação e Diversidade” e “Arte-Educação em 2011. Dimensionalizou seus conhecimentos na área de educação estética, por intermédio da pesquisa envolvendo a educação estética de pedagogos durante o doutorado em educação no ano de 2015. Em 2016, insere-se na linha de pesquisa Arte, Memória e Formação - Grupo de Pesquisa sobre Ensino, Arte e História (IARTEH), vinculado ao PPGE da UECE, posteriormente tornando-se coordenadora (2025), no qual se trabalha na vertente da formação docente arte e história. CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa objetivou compreender o percurso formativo da professora Ana Cristina de Moraes, que possibilitou galgar uma formação sólida, mobilizados em processos de formação docente na Educação Superior. Para tanto, desenvolveu-se um estudo biográfico para compreender a formação educacional da biografada. Ela concluiu o processo de escolarização básica no final do século XX, quando ainda imperava nos sistemas de ensino, a tendência tradicional, que consistia em um ensino mnemônico e enciclopédico. Salientamos que mesmo com os obstáculos enfrentados para concluir a escolarização, nossa biografada conseguiu ingressar no ensino superior e galgar uma carreira solida dentro da universidade, orientando estudantes e pesquisadores dos programas de graduação e pós-graduação do estado. Salientamos, a importância da formação continuada da professora Ana Cristina, uma vez que esta possibilitou fundamentar seus saberes estético-artísticos por meio do desenvolvimento formativo docente estético, desdobrando seus conhecimentos por meio de aulas na graduação e formações em oficinas para professores de arte e professores que trabalham a linguagem artística em sala de aula, desenvolvendo assim, e absorvendo as experiências formativas estéticas críticas significativas mediadas pela arte e educação. Conclui-se, portanto, que a biografia em tela se torna importante tanto para a preservação da sua história e memória de professoras, bem como para melhor compreender o desenvolvimento da educação em diferentes contextos. Diante disso, sabemos que essa esta pesquisa não se esgota, tampouco que a biografia não tem o interesse de dar conta de toda uma vida, sendo assim sugerimos pesquisas futuras pesquisas acerca dessa temática, uma vez que salientamos sua importância. REFERÊNCIAS BIOGRÁFICAS ALBERTI, Verena. Ouvir contar: textos em história oral. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro: Editora FGV, 2019. BURKE, Peter. O que é História Cultural? Tradução: Sérgio Góes de Paula. 3ed. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2021. DOSSE, François. O desafio biográfico – Escrever uma vida. Tradução Gilson César Cardoso de Souza. 2.ed., 1 reimp. São Paulo: USP, 2022. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 11e. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. FLICK, Uwe. Métodos de pesquisa: introdução à pesquisa qualitativa FIORUCCI, Rodolfo. Considerações acerca da História do tempo presente. Revista Espaço Acadêmico, Anápolis, v. 11, n. 125. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/12… Acesso em: 20 fev. 2025. LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pública: A pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Edições Loyola, 2014. MEIHY, José Carlos Sebe B.; HOLANDA, Fabíola. História oral: como fazer, como pensar. 2 ed. – São Paulo: Contexto, 2023. MORAES, Ana Cristina. Educação estética e (auto)formação: singularidades no tornar-se docente. Revista Digital Do LAV, 11. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/revislav/article/view/30973/pdf Acesso em: 25 fev 2025. MORAES, Ana Cristina. Educação Estética em Práticas Antropofágicas na Ampliação do Repertório Artístico-cultural de Estudantes de Pedagogia (UECE). Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós- Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. Campinas - SP: 2015. Disponível em: https://www.uece.br/maie/wp-content/uploads/sites/92/2022/06/Tese-Versa…. Acesso em: 19 fev. 2025. NEITZEL, Adair de Aguiar; CARVALHO, Carla. A estética na formação de professores. In: NEITZEL, Adair de Aguiar; CARVALHO, Carla (org.). Mediação cultural, formação de leitores e educação estética. Curitiba: CRV, 2016. NOGUEIRA, Aurinete Alves; CUNHA, Fernanda Ielpo da; FIALHO, Lia. Machado Fialho. Trajetória de Vida e Formação Profissional da Professora Fátima Sampaio da Silva (1972-1994). Educ. Form. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/redufor/article/view/11937. Acesso em: 20 fev 2025. PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. tradução Angela M. S. Côrrea. — São Paulo: Contexto, 2007. DETIC/UECE. Indicadores da Graduação. Disponível em: https://metabase.uece.br/public/dashboard/4369cc0e-6c8a-4008-aaa5-a7758…. Acesso em 05 mar 2025. [1]Sandra Petit - Professora da Universidade Federal do Ceará há 24 anos, trabalha com educação das relações etnicorraciais (ERER) e Educação Popular. CV: http://lattes.cnpq.br/6860521449989672.

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  • GT02 - História da Educação