IMPLICAÇÕES DAS CONCEPÇÕES DE DEFICIÊNCIA NA EXCLUSÃO ESCOLAR: NARRATIVAS DE VELHOS Introdução Este texto resulta de uma dissertação de Mestrado em Educação, cujo problema de pesquisa assim se constitui: Como velhos narram as formas de tratar as pessoas com deficiência em suas trajetórias de vida e como tais concepções, historicamente naturalizadas, implicam na exclusão escolar? A mobilização para pesquisar foram as lembranças da exclusão escolar de crianças com deficiência e o desconhecimento da existência de algumas nas comunidades, em décadas passadas. O objetivo geral da pesquisa é identificar, por meio de narrativas de velhos, a forma de tratar as pessoas com deficiência em suas trajetórias de vida e compreender como tais concepções implicam na exclusão escolar. A escolha do termo velhos é uma forma de “[...] enfrentamento de algo que incomoda, que assusta e que muitas vezes tentamos maquiar com termos mais amenos e politicamente corretos” (Rech, 2018, p. 17). De acordo com Beauvoir (1990, p. 8), “para a sociedade, a velhice aparece como uma espécie de segredo vergonhoso, do qual é indecente falar”. É como um fantasma que ninguém quer e/ou não consegue encarar. Assim, recorremos ao termo velhos, mesmo que isso inquiete alguns leitores, a fim de quebrar o silêncio, trazer à luz esse fantasma que, para muitos, é o envelhecimento. Optamos por enfrentar esse estereótipo, ao afirmar que o termo velhos é carregado de significados. Salientamos que os velhos entrevistados não foram, na vida pregressa, pessoas com deficiência, embora na velhice condições limitadoras ou de deficiência possam estar presentes. Portanto, os entrevistados falam da deficiência de outras pessoas e como suas representações, forjadas ao longo dos séculos, influenciaram/influenciam as práticas de exclusão. Metodologia A pesquisa é de abordagem qualitativa, na perspectiva pós-estruturalista, especialmente, a partir dos estudos foucaultianos. Foram entrevistados 9 (nove) participantes (dois homens e sete mulheres), residentes em um município do norte do Rio grande do Sul, Brasil. Os critérios para a participação no estudo foram: ter acima de 70 anos; residir no locus da pesquisa desde aproximadamente o ano de 1988 (período em que uma das autoras, na infância, frequentava a escola da comunidade). O estudo envolveu a aplicação de entrevistas narrativas gravadas e transcritas na íntegra. De acordo com Andrade (2021), as histórias que são narradas por meio das entrevistas “não são dados prontos ou acabados, mas documentos produzidos na cultura por meio da linguagem” (p. 178). Para o procedimento analítico, as narrativas foram organizadas em 3 (três) agrupamentos temáticos:[1] A deficiência na concepção dos velhos entrevistados; Tratamento de pessoas com deficiência no locus da pesquisa e; Concepções de deficiência e reflexos na exclusão escolar. Os agrupamentos temáticos consideraram a relevância e recorrência das narrativas, e derivaram dos tópicos orientadores inspirados nos objetivos específicos. As narrativas foram examinadas por meio da Análise do Discurso, com inspiração foucaultiana. Segundo Sales (2021, p. 127), seguindo a perspectiva foucaultiana, a análise do discurso pressupõe compreender “[...] porque aquilo é dito, daquela forma, em determinado tempo e contexto, interrogando sobre as ‘condições de existência’ do discurso”. Foucault (1986, p. 146) afirma que “o discurso não tem apenas um sentido ou uma verdade, mas uma história”. Diante disso, é necessário compreender que não há uma única interpretação da história narrada pelos pesquisados, que não existe uma única verdade. Sendo assim, através da análise foucaultiana do discurso produzido são destacados enunciados que apontam o que foi tomado por verdade, em um determinado tempo e contexto, constituindo, assim, conjuntos de existência e fragmento da história. Análise e discussão dos resultados Destacamos, a seguir, alguns excertos de narrativas, com o cuidado de que fossem representativas da manifestação dos participantes nos três agrupamentos temáticos. A deficiência na concepção dos velhos entrevistados Os participantes foram convidados a narrar como compreendem a deficiência. Os Participantes 4 e 8, respectivamente, relataram que: [...] deficiência é aquela pessoa que não tem memória. Eu acho que é a memória que falta para ele, né? Deficiência tu fica bobo, não? Tu fica meio bobo, né? Outra coisa, eu não sei. Acho que é isso. Essa compreensão acerca da deficiência nos remete ao que Lobo (2015) descreve no livro Os infames da história. A autora aborda frágeis existências, reais, esquecidas, invisíveis na história, vidas infames em meio a uma “multidão de outras, igualmente infelizes, sem nenhum valor” (Lobo, 2015, p. 13) que pouco falaram por si, e viveram descritas com estigmas e rótulos que as marginalizaram ao longo do tempo. São disseminados rótulos pejorativos, naturalizando termos como bobos, retardados, doentes e outros. Essa naturalização, segundo Foucault (2008), é parte do processo de normalização, em que certos padrões são estabelecidos como normais, enquanto outros estão fora dos protótipos da normalidade. Segundo Veiga-Neto (2011, p. 105), a Modernidade categorizou grupos diversos, dentre eles os que foram rotulados de anormais. Esse termo abarca uma gama de indivíduos que a sociedade tende a marginalizar, incluindo “os sindrômicos, deficientes, monstros [...], os surdos, os cegos, os aleijados, os rebeldes, os pouco inteligentes, os estranhos, [...] os ‘outros’, os miseráveis [...]”. A deficiência aqui é percebida com estranhamento, como algo que incomoda e desestabiliza, pois, a sociedade estabelece padrões, normas, e considera normal os que se ajustam a elas. Tratamento de pessoas com deficiência no locus da pesquisa Com o intuito de compreender perspectivas sobre o tratamento dispensado às pessoas com deficiência ao longo do tempo, foi indagado como, em anos passados, as pessoas com deficiência eram tratadas na comunidade (na família, na escola, na igreja, nas festas, no trabalho, nos relacionamentos afetivos, etc.). Relatos de invisibilidade e de enclausuramento das pessoas com deficiência emergiram de algumas das narrativas. Na comunidade, o povo trata eles como se não tivesse ninguém aí, como invisíveis, os dois. Se ela não se apresenta, se não se agarra em alguém, eles são invisíveis [...]. Mas, eu não sei se isto não é preciso, porque eles são bastante mal-educados. Eles começam a falar coisas, falam alto… dão risada… coisas que não se deve, dar risada. Por isso que o pessoal deixa de lado. Eu não sei se isso é justo. Mas, eu até acho que é (Participante 3). Essas pessoas que falei não podiam vir na comunidade. A família escondia elas em casa. Aquela menina que não deixaram nós ver. Eram muito ruins para ela, bem ruins. Como um leão numa jaula. Se tava de roupa ou não, ninguém sabia. Porque ninguém podia ver ela. Diz que era um chiqueiro. Essa criança gritava dia e noite. E assim ficou presa [...]. Não deixavam mostrar para ninguém. Tinha uma outra criança na cidade que a gente sabe que ficava trancada e que ninguém podia ver. [...] não iam em nada. Eles eram escondidos. Não podiam ser vistos (Participante 8). Eles não ganham chimarrão. São desprezados (Participante 7). Relatos de pessoas isoladas não são incomuns na história pregressa, porém, inquieta saber que o fato refere um período de poucas décadas, quando uma das crianças estava em um lugar similar a um chiqueiro, espaços onde são criados porcos, ou seja, um lugar sujo, com mau cheiro. Segundo o depoente a alimentação era colocada por baixo da porta. Por compreender a deficiência como um fator limitante e não como uma característica a ser compreendida e acolhida, para alguns entrevistados era justificável a exclusão. Os Participantes 5 e 2 relatam que: Na minha época, na escola, não tinha ninguém, porque se tinha criança com deficiência não levavam pra escola não. Não, nunca. Tinha um com deficiência. Ele ficava só deitado. Nem tinha como. Tinha o S. também. Ele era meio fora, também. Eu acho que era meio retardado (Participante 5). Quanto mais a idade, cada vez mais atrasadona ela ficava, mais atrasadona, não sei do que era assim. Ela vinha na igreja. Agora, na aula não tenho lembrança [...] (Participante 2). As narrativas dos velhos sobre pessoas com deficiência em décadas passadas evidenciam uma visão ancorada em estereótipos, associando-a à ausência de memória, infantilização, exclusão naturalizada, refletindo a maneira como a sociedade, historicamente, construiu essas representações. Concepções de deficiência e reflexos na exclusão escolar Dentre as concepções históricas acerca das pessoas com deficiência, o olhar sob o prisma da benevolência, da inutilidade social, do castigo divino, está presente nas narrativas. Ao relatarem o que é deficiência e como a compreendem, os Participantes 1, 6 e 9 narram que: A gente fica com dó da pessoa, né? Muitos não podem nem comer, nem nada, né? São deficientes mesmo (Participante 1). Ah, quando não consegue trabalhar, eu acho (Participante 6). Essas pessoas, que eram deficientes, eram escondidas porque era uma lição de Deus. Eram amaldiçoadas por Deus. Não podiam ir na escola (Participante 9). Essas narrativas remetem às reflexões de Veiga-Neto (2011), que destaca a tendência da sociedade em comparar os sujeitos a um ideal de normalidade e que busca, minuciosamente, em cada corpo, sinais de anormalidade. Essa busca incessante resulta na atribuição de um lugar dentro de estruturas de classificação, pois, de acordo com o autor, são nas “práticas de identificação e classificação que estão implicadas as poderosas relações de poder” (Veiga-Neto, 2011, p. 106). Dessa forma, as falas dos entrevistados reproduzem essas estruturas, pois narram a forma como os sujeitos com deficiência foram e, por vezes, ainda são percebidos e tratados socialmente, ou seja, improdutivos, incapazes, dignos de benevolência. Assim, se faz necessário refletir sobre o poder das palavras na construção de estigmas e mitos. Segundo Butler (2021, p. 13), “uma pessoa não está simplesmente restrita ao nome pelo qual é chamada. Ao ser chamada de algo injurioso, ela é menosprezada e humilhada”. Portanto, o poder das palavras reside em sua capacidade de ferir tão profundamente quanto ou, por vezes, mais que qualquer lâmina. Além disso, os efeitos das palavras injuriosas podem reverberar na vida de uma pessoa por um longo prazo, por vezes, durante a sua vida toda, pois, pode ser algo que fere, que destrói. Considerações finais O estudo aponta olhares estigmatizantes acerca das pessoas com deficiência, como a naturalização da não aprendizagem, o que justificaria a exclusão escolar. As narrativas dos velhos apontam para representações predominantemente reducionistas das pessoas com deficiência que, por vezes, ainda perduram, mesmo que de forma sutil, refletindo a maneira como a sociedade, historicamente, construiu essas representações. A influência dessas narrativas demonstra a internalização de discursos de poder que forjam práticas sociais e subjetividades. Ainda, revelam uma visão capacitista, que trata a deficiência como uma forma de inferiorização e incapacidade. Conceitos de deficiência vistos sob a ótica da inutilidade social, benevolência e desvio normativo mostram como a sociedade continua a categorizar e hierarquizar indivíduos com base em suas diferenças. A pesquisa aponta o poder que as palavras têm de ferir, de excluir, em demarcar o normal e o anormal, de subjetivar com base em verdades históricas, ditas/determinadas por quem tem o poder de dizer o que é verdadeiro dentro de um contexto social. Como nos alerta Butler (2021), palavras injuriosas não são meras palavras, causam ferimentos profundos. O estudo nos permite inferir que se nas décadas narradas pelos entrevistados, as pessoas com deficiência tivessem tido a oportunidade de frequentar escolas e a sua comunidade, possivelmente, teriam desenvolvido habilidades sociais, outras relações interpessoais e teriam sido vistas como integrantes, gerando, assim, um sentimento de pertencimento. Entendemos que as concepções de deficiência, o tratamento e a exclusão de pessoas com deficiência que os entrevistados narram foram produzidos por uma rede discursiva tramada em décadas anteriores, e os efeitos dessas verdades históricas reverberam nas atitudes e no que é dito hoje acerca das pessoas com deficiência. Portanto, faz-se necessário desnaturalizar o que parece dado e provocar reflexões acerca de práticas excludentes impostas às pessoas com deficiência e sua relação com a percepção da deficiência e o processo de exclusão escolar na contemporaneidade. Para a sociedade capitalista, guiada pelos princípios do neoliberalismo, focada na produção, consumo e competitividade, esses estudantes não valem o investimento pedagógico, e serão, frequentemente, excluídos e culpabilizados por não se ajustarem às normas escolares, o que destaca ainda mais a necessidade de se refletir sobre a condição humana e os valores que nos humanizam. A pesquisa permite a compreensão de que as políticas de inclusão produzem deslocamentos nas concepções de deficiência ao desestabilizarem os entendimentos que consideram a deficiência como um déficit ou anomalia a ser corrigida. Esse deslocamento é crucial para a transformação de práticas e atitudes sociais, educacionais e institucionais que promovam e valorizem a condição humana. Referências ANDRADE, S. dos S. (2021). A entrevista narrativa significado nas pesquisas educacionais pós-estruturalistas. In: MEYER, Dagmar Estermann; PARAÍSO, Marlucy Alves (org.). Metodologias de pesquisas pós-críticas em Educação. Mazza, 3.ed. 2021, p. 175-195). BEAUVOIR, S. de. A velhice. Tradução de Maria Helena Franco Monteiro. Nova Fronteira. 1990. BUTLER, J. Discurso de ódio: uma política do performativo. Editora Unesp, 2021. FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Forense, 1986. LOBO, L. F. Os infames da história: pobres, escravos e deficientes do Brasil, Lamparina, 2. ed., 2015. RECH, A. L. Memória de velhos: escola, bodega e igreja como signos de estruturação – uma leitura a partir da semiótica peirciana. [Dissertação de Mestrado, Universidade Comunitária da Região de Chapecó]. Pergamum UNOCHAPECÓ, 2018.
http://konrad.unochapeco.edu.br:8080/pergamumweb/vinculos/000100/000100… SALES, S. R. Etnografia + análise do discurso: articulações metodológicas para pesquisar em Educação. In: Meyer, D. E.; Paraíso, M. A. (org.). Metodologias de pesquisas pós-críticas em educação. Mazza, 3. ed., 2021, p. 113-134. [1]O termo “agrupamentos temáticos” é inspirado em Andrade (2021, p. 178).