MAIS SENSÍVEL AO CORPO: ACHADOS DE UMA FORMAÇÃO SINGULAR O assunto é corpo Há necessidade de experiências formativas voltadas aos/às educadores/as da Educação Básica que convoquem suas presenças inteiras: corpo, saberes, práticas e cotidianos, fazendo frente à “[...] tendência do retorno do tecnicismo transvestido de novo, pautado em princípios de produtividade, racionalidade e eficiência” (Silva; Ferreira; Guedes, 2021, p. 2), que vem tensionando a formação docente nos últimos anos. Diante disso, quais caminhos poderíamos criar para uma formação docente que nos possibilite tempo de observação ao processo como prática formativa? Que podem nos contar as formações que alargam espaço para que narremos aquilo que nos formou? Neste trabalho apresentamos alguns dos achados de uma dissertação de mestrado defendida no ano de 2022. Achados esses que visibilizaram a possibilidade de experimentarmos práticas formativas singulares que evidenciem o corpo, sua potência de relação social, política e humana, e sua manifestação de gestos, sentimentos e pensamentos como atos simbólicos, afastados da neutralidade. Colocando-o em foco na educação, estimulando uma constante reinvenção e descoberta de si. A dissertação foi elaborada durante a pandemia de COVID-19, vinculada a um Programa de Pós-graduação em Educação de uma universidade pública da cidade do Rio de Janeiro. A investigação criou relações com educadoras de um Centro Integrado de Educação Pública (CIEP), situado na Zona Norte da cidade, e uma Creche Municipal, na Zona Sul. Relações essas que se estabeleceram com o intuito de “[...] se praticar as potências criativas presentes na limitação e no precário, diante do suicídio do país” (Simas; Rufino, 2019, p. 25), agravado, à época, pelas condições arruinadas de saúde, meio ambiente e pelo avanço político de uma direita conservadora. A mestranda, professora de Educação Física, praticante e professora de Yoga (sistema filosófico, educativo e de psicologia indiano), encontrou na metodologia de pesquisa narrativa (auto)biográfica a possibilidade de reafirmar que as experiências formadoras e os saberes que a compunham estavam integrados ao seu corpo. Assim, pesquisadora, participantes e pesquisa se lançaram às linhas biográficas que desenham nossos corpos no mundo, compreendendo que tal movimento nos disponibiliza à escuta e a mergulhar nas “[...] emergências interiores (sob forma de desejos, expectativas, projetos) que desvelam uma busca ativa de realização do ser humano em potencialidades insuspeitáveis, inesperadas” (Josso, 2012, p. 20). Além disso, a pesquisa foi criada tendo a Educação Estética como perspectiva educativa na qual pensar e sentir, criar e apreciar estão em sincronia, rompendo com a homogeneidade das relações e impedindo que a vida se transforme em um fluxo desconexo cujos acontecimentos não percebemos (Ferreira, 2014). Portanto, associada ao caráter de transgressão e remontagem da educação (Simas; Rufino, 2019), a investigação encontrou, junto aos corpos e narrativas compartilhadas, o seu objetivo: experimentar uma formação singular, que constrói cada etapa ao escutar, sentir e perceber a presença e autoria das participantes; que recria o modo de formar a partir dos acontecimentos, dando espaço às mudanças e potencialidades do cotidiano. Fez-se necessário, assim, atentarmo-nos àquilo que nos passava para praticarmos possibilidades de deslocamento em nossas formações. Foi indispensável dialogar e questionar sobre como os processos que estruturaram a educação moldaram as maneiras de aprender e ensinar a partir de normativas que normalizam nossos modos de existir. Nos colocando na mira, vigiando-nos minuciosamente, desenvolvendo estratégias para formar políticas de coerções que agem sobre nós (Foucault, 2020). Então, compreendendo que ao “[...] falar em sala de aula sobre o corpo, sobre como vivemos no corpo, estamos automaticamente desafiando o modo como o poder se orquestrou nesse espaço institucionalizado em particular” (hooks, 2017, p. 183), partimos de uma experiência formativa que invisibiliza as subjetividades e as narrativas, para vivenciar uma formação que visava ir além do estabelecido normativamente, tendo como centralidade o argumento de que algo de muito especial tem o corpo e de que o conhecimento se não for vitalizado, de nada vale (Simas; Rufino, 2019). O coração da pesquisa Para nos tornarmos mais sensíveis a um processo formativo singular, a pesquisa teve como “coração” as experiências compartilhadas entre mestranda e participantes, tendo suas propostas emergidas daquilo que produziu afetos, inscreveu marcas, vestígios e efeitos em nós (Bondía, 2021). Então, para colocarmos em prática essa formação singular, o campo de estudos da investigação teve início no mês de junho de 2020, 3 meses depois que o Rio de Janeiro se viu atravessado pela pandemia de COVID-19 e consequente urgência de quarentena. A decisão de iniciar o campo teve como aposta de que as vivências formativas poderiam funcionar como uma ambiência acolhedora às demandas surgidas naquele momento. O campo foi organizado como um espaço-tempo dedicado à ampliação de momentos destinados à experiência de prestar atenção no corpo, nos pensamentos e necessidades. Assim, durante 1 ano e 1 mês, uma vez por semana, remotamente via plataforma de reuniões “Google Meet”, a mestranda se reuniu com o grupo de educadoras do CIEP e da Creche. Participaram dos encontros um total de 13 educadoras e 1 educador (ratificando a utilização do gênero feminino). As reuniões foram gravadas com a prévia autorização das participantes e preservando suas identidades, optamos por utilizar nomes ligados às suas qualidades percebidas pela pesquisadora. A investigação englobou 57 encontros coletivos: 17 foram feitos com o grupo da Creche, 27 com o do CIEP e 13 realizados com os dois coletivos em conjunto. Os encontros duravam 1 hora e 30 minutos e ao longo desse tempo desejava-se criar um ambiente coletivo e seguro, dedicado à pesquisa de si, ao refletir acerca do autocuidado, hábitos, comportamentos e da prática docente. Para tanto, os encontros se estruturaram em 4 etapas: 1°) Acolhimento: cada participante partilhava como se sentia, reconhecendo sua disponibilidade ao encontro e o que lhes era possível fazer; 2°) Recheio-desenvolvimento: experimentação de movimentos em sincronia com a respiração guiadas pela atenção, práticas de concentração e criação com as múltiplas linguagens das artes, bem como com objetos ordinários (colher de pau, toalha de banho) e ações costumeiras (beber água, respirar); 3°) Construção de registro: dedicada à percepção das sensações surgidas ao longo do encontro e criação de registro que desse notícia sobre elas; 4°) Partilha: momento para narrar suas sensações e registros. Costumava acontecer após a 3° etapa, mas também apareciam durante o percurso. Narrativas: saberes do corpo A dissertação foi elaborada de modo a evidenciar a presenças das participantes por meio de suas narrativas. Um compromisso que afirma as escolhas de pesquisa como ações políticas, motivadas por um pensar e sentir em comunidade. Tendo em vista que a sabedoria se incorpora à vida por meio do ato de narrar (Han, 2024) e que, ao narrarmos, damos sentido ao que somos e ao que nos acontece (Bondía, 2021), compreendemos que as narrativas partilhadas pelas educadoras são saberes emergidos da investigação. Tanto a investigação como pesquisa acadêmica, quanto a investigação delas sobre elas mesmas, como sujeitas de conhecimento. Nesse sentido, as narrativas desvelaram à pesquisa alguns achados do corpo, tais como a “Carta de amor ao corpo” escrita e narrada pela educadora “Amor engajado”: Contar que eu te amo. Dizer para você que te sentir calmo ou agitado, não muda. Te amo ainda mais por poder te olhar e te sentir de uma forma única. Tenho nutrido você de coisas, sentimentos e emoções. Nossa relação mudou muito e descobri o quanto eu te amo (Acervo da pesquisa, 2020). Sua narrativa, partilhada no 21° encontro, em 04 de dezembro de 2020, desvela o quão indispensável é visibilizar e acolher o corpo em um processo formativo/educativo. Visto que “[...] a dimensão corporal é uma das facetas de uma existência complexa e integrada entre múltiplas dimensões, saberes e textualidades” (Simas; Rufino, 2019, p. 18-19). Portanto, é necessário estimulá-la à medida que almejamos uma educação que focalize “a vitalização do ser enquanto força de transgressão [...]” (Simas; Rufino, 2019, p. 41). Uma redescoberta a partir da pesquisa de si que vai ao encontro de um outro achado: é possível tornar-se mais sensível ao corpo através de uma formação singular. “Escutador Atencioso”, o único homem participante da pesquisa e educador do CIEP, nos conta sobre isso, com alumbramento, ao perceber o quão sensível estava em relação ao seu corpo, a enxergar as transformações que nele aconteciam e ao simples fato de notar que o corpo existe e está conosco o tempo inteiro. Eu, no caso, tô mais sensível quando o assunto é corpo. São umas coisas, assim, tão imperceptíveis, né, mas que com nossos encontros aí tu vê que existe... A ponta dos dedos, a dor, o corpo em si. A respiração, né... Ela é tão normal. Ela é tão cotidiana que a gente não percebe. Mas você tem como respirar melhor e viver melhor. Isso aí eu senti uma melhora significativa (Acervo da pesquisa, 2020). Essa partilha aconteceu no 6° encontro, em 30 de julho de 2020, após a pesquisadora ter perguntado o que e se as participantes tinham percebido alguma mudança nelas mesmas e em suas ações cotidianas desde o início dos encontros. O educador que costumeiramente dizia sobre seu interesse por práticas corporais e pela manutenção de exercícios físicos diários, compartilhou que as propostas vivenciadas através dos encontros fizeram com que ele aguçasse a percepção sobre si e adicionasse algumas das práticas experimentadas ao seu cotidiano, melhorando a qualidade de sua respiração e de seus exercícios matinais. O chão foi a materialidade que mais ganhou seu coração. Ele era um artifício às diversas experimentações de movimento. No 5° encontro, em 24 de julho de 2020, “Escutador Atencioso” compartilhou sobre a possibilidade de sentir seus “[...] cantos, possibilidades, respiração. Sentir o corpo deitado no chão, sentir cada parte, entregar o peso pro chão”. De partilha em partilha, o chão foi ganhando centralidade nas narrativas de outras educadoras. Então, no 22° encontro, em 11 de dezembro de 2020, a educadora “Amor engajado” compartilhou: O contato com o chão. Gente! Quando fala para deitar. Eu escrevi aqui: contato com o chão. Eu encostei no chão, é fantástico! É… outra pessoa, outra dimensão. O corpo relaxa mesmo. Fica inteiro. Seja com a perna dobrada, seja com ela, né, esticada. Eu tenho uma percepção muito boa e isso me relaxa muito. Assim… dificilmente eu deito no chão. A gente... Ah, vamos dormir: é cama. Ah, é sofá. Ah, é rede. Então, o chão ele me traz isso de um relaxamento absurdo! Todas as vezes que eu fiz, isso ficou” (“Amor engajado”. Acervo da pesquisa, 2020). Em seguida, “Dedicação Profunda”, educadora do CIEP, disse: [...] Eu já tenho acho que, algum motivo, eu não tenho uma relação muito boa com o chão. [...] O deitar no chão… Eu gosto de sentar. Mas quando fala em deitar… Eu não sei porque, se eu sinto muitas dores… Eu não consigo… Toda vez, [...] você pode perceber. Eu deito na cama. (Pausa) Eu não sei te explicar o porquê, exatamente. Mas eu não... Eu não sei se foi criação, coisa de ser filha única… Eu não sei o que que é… Eu não consigo me deitar no chão. [...] Eu consigo sentar, mas eu deitar e relaxar eu prefiro na cama, em um colchonete. (Acervo da pesquisa, 2020). Mesmo não conseguindo reconhecer qual, a educadora acha que existe “algum motivo” para preferir a cama quando precisa deitar-se. Diante disso, uma pergunta surge: o que se inscrevia nela a ponto de não conseguir estabelecer uma relação com materialidades desviantes para se deitar, sentar e relaxar? Passados alguns dias, no 24° encontro, em 19 de fevereiro de 2021, após realizar as propostas de movimento, “Dedicação profunda” se deitou no chão pela primeira vez. Diante de um dia corrido e com a sensação de ombros pesados, a educadora compartilhou que “precisava da energia do chão”. A partir disso, o desconforto deu lugar ao descanso, relaxamento e alívio. Naquele dia ela remontou não só o chão, materialidade que parece habitar os espaços formativos com um modo definido, mas também a maneira com a qual havia sido criada para enxergar esse recurso. Escutando o saber de que “chamar atenção para o corpo é trair o legado de repressão e negação que nos foi transmitido pelos que nos antecederam [...]” (hooks, 2017, p. 253), ela se propôs a “[...] aprender outras possibilidades para ‘desaprender’ aquilo que foi ensinado como a única forma” (Simas; Rufino, 2019, p. 54). O corpo em contato com o chão relevou um outro achado de pesquisa: é possível reinventar os ambientes, enxergando viabilidades outras de funcionamento. Desnormalizar o espaço. Desmontar as estruturas lineares e espremidas que, muitas vezes, o arquitetam para experimentarmos suas diversas dimensões e organizações. Fazer do corpo o próprio espaço de transgressão ao reavermos a ele um estado de presença (hooks, 2017). Nessa trilha, acreditamos que formações que dão centralidade ao corpo são possíveis se apostarmos no envolvimento com a experiência, que considerem as subjetividades de cada um/uma. Renunciando uma formação acelerada e informativa (Bondía, 2021). Dessa forma, as/os educadoras/es envolvidas/os se experimentarão como formadoras/es singulares, indo além de uma formação homogênea caracterizada por acontecimentos desconexos à sua realidade. A partir disso, poderão criar propostas formativas que rompam com situações limitadoras, possibilitando a feitura de modos outros de viver. Palavras-chave: Educação; Corpo; Formação Docente REFERÊNCIAS BONDÍA, Jorge. Tremores: Escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. FERREIRA, Luciana Haddad. Educação estética e prática docente: exercício de sensibilidade e formação. 2014. 335f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Capinas, 2014. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2020. HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023. hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017. JOSSO, Marie-Christine. Corpo biográfico: corpo falado e corpo que fala. Educação e Realidade. Porto Alegre. v. 37, n.1, p.19-31. jan./abr., 2012. SILVA, Edilane Oliveira da; FERREIRA, Michelle Dantas; GUEDES, Adrianne Ogêda. Dialogando com a formação docente a partir de dentro na ANPED e ENDIPE. In: CASTRO, Paula Almeida de (Org.). Educação como (re)Existência: mudanças, conscientização e conhecimentos. Campina Grande: Realize Editora, v. 1, 2021. SIMAS, Luis; RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.