A relação professor x aluno: presenças, ausências, intersecções e sentidos

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Resumo
A RELAÇÃO PROFESSOR X ALUNO: PRESENÇAS, AUSÊNCIAS, INTERSECÇÕES E SENTIDOS “Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se.” (Viktor Frankl) A visão que temos a respeito das crianças e dos adolescentes, e o próprio conceito da infância e das juventudes, são construções sociais que foram se alterando ao longo da história e nos diferentes contextos, inclusive dentro do próprio Brasil (Del Priore, 2023). É somente no século XIX, por exemplo, que se solidifica a ideia humanista da presença de uma “especificidade da infância e da adolescência como idades da vida” (Mauad, 2023, p. 140), diferenciando e caracterizando de forma singular esses períodos do desenvolvimento. No âmbito da educação escolar institucional, a visão do professor sobre o aluno parece sinalizar reconfigurações na relação entre docentes e discentes. Na educação “bancária”, por exemplo, o educando é visto como alguém sem saber, em quem o professor (detentor do saber) irá depositar o seu conhecimento (Freire, 1987). Assim, a representação sobre o aluno está diretamente ligada à representação sobre a relação que o professor buscará estabelecer com esse aluno no seu processo de aprendizagem. Nesse sentido, a relação entre professores e alunos torna-se um elemento essencial nos processos de ensino-aprendizagem (Imbernón, 2006; Nóvoa, 2017; Arroyo, 2013; Goodson, 2020; Freire, 1987), na medida em que a construção educativa é vista como complexa e essencialmente humana e relacional (Nóvoa, 2017), devendo o conhecimento ser resultado de um desenvolvimento dialógico (Freire, 2011) e colaborativo pautado em relações de cuidado e confiança (Unesco, 2022). Em outras palavras, as singularidades do professor interferem na sua atuação como docente (Nóvoa, 1992; Araújo; Arantes, 2023; Araújo; Arantes; Pinheiro, 2020). Assim, tendo em vista a importância da relação professor x aluno nos processos educativos, decidimos então investigá-la no contexto da rede pública de ensino. Para isso, estabelecemos o seguinte problema de pesquisa: “Como a relação professor x aluno comparece na representação dos professores sobre os processos educativos?”. Para investigar essa questão, a coleta de dados foi realizada com base em uma pesquisa maior, que contou com respostas de 2000 professores da rede pública da educação básica de todo o Brasil em um questionário sobre seus projetos de vida. A partir de um recorte com 5% desses professores, 100 participantes foram aleatoriamente convidados para uma entrevista, respeitando a proporcionalidade geográfica de acordo com o Censo da Educação Básica Brasileira de 2018. As entrevistas foram realizadas via Google Meet e contaram com um roteiro semi-estruturado, que tinha como objetivo aprofundar os projetos de vida dos professores, bem como investigar seus sentimentos, valores, anseios e necessidades em relação à profissão docente. A partir das narrativas trazidas espontaneamente pelos professores sobre seus alunos e os relacionamentos com eles (uma vez que não havia perguntas específicas sobre esses temas), a análise foi conduzida em duas etapas, ambas de abordagem qualitativa (Valles, 1999), que foram posteriormente quantificadas para apresentação dos resultados. Inicialmente, a análise teve como base a construção de um livro de códigos (codebook), metodologia semelhante à Teoria Fundamentada em Dados (Strauss; Corbin, 2008) e à Análise de Conteúdo (Bardin, 1977), segundo a qual pesquisadores criam um livro de códigos para representar as ideias únicas trazidas pelos participantes da pesquisa, que serão codificadas em seguida de acordo com o mesmo livro. Posteriormente, a segunda etapa de análise foi conduzida por meio da Teoria dos Modelos Organizadores do Pensamento - doravante TMOP (Moreno Marimón; Sastre, 2020; Moreno Marimón; Sastre, 2014; Moreno Marimón et al., 1999). A TMOP é um dispositivo teórico-analítico de abordagem qualitativa que permite a análise do material empírico sem a utilização de categorias prévias, por meio de uma perspectiva construtivista das dinâmicas do funcionamento psíquico humano. Com a TMOP, a análise possibilita a identificação dos elementos abstraídos pelos indivíduos a respeito da realidade exterior, os significados cognitivos e afetivos que são dados a esses elementos, e as relações e/ou implicações geradas a partir deles (Arantes, 2013). Dessa forma, entendendo a relação professor x aluno como um objeto de estudo, é possível analisar seus significados, relações e implicações, bem como suas conexões com outros elementos. A partir da metodologia do livro de códigos, foram identificados cinco padrões de representação dos professores a respeito dos alunos, dos quais apenas dois consideram o discente como um sujeito singular e com alguma presença ativa em seu processo de aprendizagem. Assim, esses resultados iniciais mostraram que somente 25% dos professores entrevistados falaram sobre o aluno como um sujeito singular, que possui direitos, potencialidades, especificidades e/ou dificuldades, com papel ativo na construção de sua jornada escolar. Para 26%, o aluno foi citado como um sujeito com singularidades, porém, com um papel restrito em sua jornada escolar. Para 22%, o aluno não é abordado como um sujeito singular, mas somente como um receptor de algo que o professor possa oferecer (alinhado com a ideia da educação bancária). Para 22% também, o aluno não foi mencionado individualmente na entrevista, mas apareceu implicitamente por meio de sua turma ou do fato de demandar algo do professor (como demanda por escuta, cuidado, auxílio, proteção etc.). Por fim, em 5% dos casos os alunos não foram mencionados e nem apareceram indiretamente. Posteriormente, analisando os processos de significação de forma mais aprofundada por meio da TMOP, os resultados mostraram que os significados, relações e implicações sobre os elementos “alunos” e “relação professor x aluno” repercutem diretamente no elemento “famílias dos alunos”. Com isso, quando há significados negativos sobre os alunos (por exemplo, que eles são desatentos, preguiçosos ou indisciplinados), a relação professor x aluno também gera significados afetivos negativos (como frustração, raiva ou tristeza do professor). Já quando o elemento “famílias dos alunos” também está presente, com significados negativos (como ausência ou negligência), os significados negativos sobre os alunos são atenuados pela presença da empatia, e a relação professor x aluno recebe também significados positivos, como acolhimento e compreensão. Com isso, percebemos que a presença ou ausência de determinados elementos (como os “alunos” e as “famílias dos alunos”), bem como de seus significados, relações e/ou implicações, reverberam na relação dos professores com seus alunos, uma vez que essas representações vão pautar o modo como se sentem em relação a eles e, como consequência, também suas ações em sala de aula. Por essas razões, consideramos imprescindível que as políticas de formação de professores sejam revistas para incluir questões cognitivas e afetivas a respeito das representações dos professores, bem como de suas relações, superando o cenário contemporâneo centrado em uma abordagem fragmentada, curricular e tecnicista (Gatti, 2010). Nesse sentido, é importante trazer ao professor em formação inicial e continuada oportunidades de reflexão crítica sobre o mundo e sobre si (Nóvoa, 2017), uma vez que “a consciência do mundo e a consciência de si como ser inacabado necessariamente inscrevem o ser consciente de sua inconclusão num permanente movimento de busca” (Freire, 2011, p. 39). E é por meio dessa busca que passamos a questionar o conhecido, o que nos permite ressignificar o mundo e a nós mesmos enquanto sujeitos formadores, de modo a desenvolver nossa consciência crítica das experiências vividas e nossa autoconsciência (Parra, 2024). Por fim, retomando a epígrafe, de Viktor Frankl, vislumbramos uma ressignificação da formação de professores de modo que provoque os docentes não somente a transformarem a realidade (Freire, 2011), mas também a transformarem a si mesmos por meio de ressignificações de suas representações. E, nesse processo, os professores vão se (des)(re)construindo por meio de um processo que os permita definir de forma crítica e consciente que tipo de professor eles desejam ser (Flores, 2015; Marcelo, 2009). PALAVRAS-CHAVE: Relação professor x aluno, docência, educação básica, famílias dos alunos. REFERÊNCIAS ARANTES, Valéria. Modelos Organizadores do Pensamento e o seu desenvolvimento teórico-metodológico: Estudos de Psicologia e Educação. 2013. 280f. (Tese de Livre-docência) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. https://doi.org/10.11606/T.48.2013.tde-17092013-102132. ARAÚJO, Ulisses; ARANTES, Valéria. 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