POLÍTICA HIGIENISTA NO ESTADO DO CEARÁ: A ATUAÇÃO DOS DENTISTAS NO GRUPO ESCOLAR CLÓVIS BEVILÁQUA NO SÉCULO XX O trabalho insere-se no campo da história da educação e trata dos princípios higienistas que começaram a vigorar no Brasil por volta do início do século XX, implantados no espaço escolar por ser um lócus considerado estratégico para difundir hábitos e ideais sanitaristas. A preocupação com o bem-estar da vida nas cidades começou a ser de grande importância para as autoridades do período, principalmente pela quantidade de epidemias que assolavam o território nacional. De acordo com Santiago (2011, p. 121), No Brasil, contudo, foi na passagem do século XIX e início do XX, como já assinalado, que surgiu um maior cuidado com as condições sanitárias de espaços coletivos, preocupação esta decorrente de inúmeras epidemias que se alastraram em várias cidades brasileiras. As descobertas nos campos da saúde foram aos poucos induzindo os poderes públicos a aplicar os princípios da profilaxia para minimizar os efeitos nocivos da falta de higiene. Nesse período, teve início um movimento que agregava a educação das crianças aos cuidados com a saúde no espaço da escola. Destacamos os Grupos Escolares, recém-criados, que tinham um modelo de organização do ensino primário padronizado e racionalizado com o objetivo de atender a um grande número de crianças. Era então uma instituição educativa voltada para a escolarização das massas, onde as crianças eram classificadas em seções, em salas separadas, sob a orientação de um professor (Souza, 2014). Terceiro Grupo Escolar (1916), Grupo Escolar do Outeiro (1923), Grupo Escolar Santos Dumont (1930) e Grupo Escolar Clóvis Beviláqua (1947) são denominações atribuídas a uma mesma escola localizada na Avenida Dom Manuel, foi fundada no ano de 1916 em meio ao auge da política higienista na cidade de Fortaleza (Santiago, 2011). Sendo uma instituição de mais de cem anos, é compreensível as várias nomenclaturas dadas a essa instituição ao longo dos anos (Lima, 2019). Partindo de uma perspectiva historiográfica, elencamos como objetivo analisar como se deu a atuação dos dentistas do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua, na cidade de Fortaleza-CE, como uma prática de higienismo e de combate às doenças infantis. A partir do entrecruzamento de diversas fontes, questionamos como atuavam os dentistas do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua para atender às expectativas higienistas do século XX, de profilaxia e de combate às doenças, principalmente aquelas que estavam relacionadas às crianças no ambiente escolar. O suporte metodológico da História Oral foi de extrema importância para o desenvolvimento desta pesquisa, já que, segundo Jucá (2011, p. 52), ela oferece “uma possibilidade de diversificar as fontes a serem trabalhadas, passando a valorizar o significado da memória na compreensão da vida humana”. Ainda que as fontes orais tenham sido as principais (Alberti, 2005; Ferreira; Amado, 2005), também foram utilizados documentos e imagens (Burke, 2004) e fontes jornalísticas (Vidal, 1994). Os documentos oficiais são principalmente relatórios e boletins da inspeção escolar, assim como matérias de jornais que falam sobre as obras do prédio do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua. Além disso, conseguimos entrevistar os familiares de uma ex-diretora do Grupo Escolar, Maria Margarida de Castro Almeida, José de Castro Almeida (filho) e Maria Thereza Araújo Almeida (nora e ex-professora do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua). As entrevistas foram realizadas no dia 07 de dezembro de 2024 na casa dos respectivos entrevistados. Vale salientar que os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE, sendo a entrevista transcrita e validada posteriormente. Importa destacar que, para este trabalho, é-nos mais cara a fala de Maria Thereza, que se destacou como colaboradora, já que ela também se formou professora entre os anos de 1964 e 1967, e no começo de sua carreira, atuou no Grupo Escolar Clóvis Beviláqua sob a direção de Maria Margarida de Castro Almeida. Com os familiares, encontramos ainda um álbum com mais de 50 fotografias do cotidiano escolar do Grupo Clóvis Beviláqua. É interessante frisar sobre o risco de se trabalhar com fotografias, pois ficamos sempre no impulso de tratá-las como reflexo do real, pois “as tentações do realismo, mais exatamente de tomar uma imagem pela realidade, são particularmente sedutoras, no que se refere a fotografias e retratos” (Burke, 2004, p. 25). Dentre as imagens encontradas no álbum, destacamos as da atuação dos dentistas dentro do Grupo e suas participações em festividades na escola. A partir do entrecruzamento dessas fontes, pretendemos entender melhor como atuavam os dentistas do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua para atender às expectativas higienistas do século XX, de profilaxia e combate às doenças. O Grupo Escolar Clóvis Beviláqua foi fundado em 1916 em um prédio de propriedade da União do Clero de Fortaleza, tendo como denominação Terceiro Grupo Escolar. Nesse espaço, funcionavam turmas de ensino primário de 1ª a 4ª série. Como observado por Lima (2019, p. 145), o grupo Foi organizado, como também adaptado e renomeado em 1922, nos moldes da maioria dos novos grupos que ocupavam prédios construídos e destinados a serem escolas, logo, as estruturas do prédio do Outeiro não diferia das ordenações previstas para a estruturação das intervenções escolares sobre o que tange ao pedagógico quanto ao higienismo. Com a Reforma de 1922, a instituição passou a chamar-se Grupo Escolar do Outeiro - nome do antigo bairro da cidade de Fortaleza no qual ficava localizado. De acordo com o Jornal O Nordeste: Foram iniciadas, e prosseguem activamente as obras de adaptação do excellente prédio da “União do Clero”, no Boulevard D. Manuel, para que ahi funccione o Grupo Escolar do Outeiro. [...] O prédio, que foi adquirido pelo governo, especialmente para esse fim terá seis excellentes salas de aula, obedecendo rigorosamente à hygiene pedagógica, directoria, sala dos professores, vestíbulo e varanda coberta (O Nordeste Anno I. 18/09/1922. n. 67, p. 2) Conforme a fonte acima, o Grupo Escolar foi fundado em um prédio adaptado, mas que obedecia rigorosamente a higiene pedagógica da época, pois continha diretoria, salas de aula, sala dos professores, vestíbulo e varanda coberta. Infelizmente, a fonte não aponta que neste início havia a sala do dentista, porém, a partir do trabalho de tese de Zilza Maria Pinto Santiago, em que reconstitui a primeira planta do dito Grupo Escolar a partir da planta do acervo do DER/CE e, assim, conseguimos ter uma visão aproximada de como era a estrutura da instituição. Figura 1 - Planta baixa do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua Fonte: (Santiago, 2011, p. 273). O número cinco na legenda faz referência à sala do dentista dentro do Grupo Escolar. Essa política pública visava a garantir a saúde bucal das crianças como forma de amenizar as várias moléstias que ainda assolavam o Estado do Ceará no decorrer do século XX. De acordo com o relatório do Delegado Regional de Ensino de 1924, Juarez Brasil, no Grupo Escolar Santos Dumont, como se denominava à época, constava: Diretora - Alba Alencar. Matrícula - 444. Frequência média - 329. Um dos relógios não funciona. A classe do 1º ano, dirigida pela professora Haydée Costa Lima, recebe muito calor, e por isso, sendo preciso fechar as janelas, se torna mal iluminada e arejada. Não há no prédio outro espaço onde possa ficar essa classe. O gabinete dentário continua a funcionar. O dentista executa o trabalho gratuitamente. Nesse relatório, Juarez Brasil faz suas considerações sobre 17 instituições escolares, sendo uma delas, o Grupo Escolar Santos Dumont. Em suas considerações finais sobre o relatório, ele indica que seria de “bom alvitre” a existência de um corpo de enfermeiras para a educação sanitária dentro dos grupos, pois estas tomariam providências permanentes quanto à higiene escolar. Em relação ao dentista do Grupo Escolar Santos Dumont, diz que continua a funcionar e que ele executa o trabalho de forma gratuita. Não conseguimos obter a informação se essa política foi contínua e como era, ou não, a remuneração dos dentistas pelos atendimentos nos grupos. O fato é que nossas fontes deixam crer que ele sempre funcionou no referido Grupo Escolar. Segundo Thereza Almeida, o Grupo Escolar Clóvis Beviláqua teve dois dentistas ao longo do tempo, sendo o Dr. Pedro Malma, o primeiro, e o Dr. Galvão, o segundo. De acordo com Thereza Almeida: Quando eu cheguei lá, esse Pedro Malma, que era casado com a irmã dela, que trabalhava, já não era mais ele, já tinha saído, já foi outro doutor Galvão, que eu fiquei a vida toda com esse doutor Galvão. Depois ele se aposentou e não tinha mais dentista. A entrevistada formou-se na Escola Normal entre os anos de 1964 e 1967 e, logo em seguida, foi trabalhar no Grupo Escolar Clóvis Beviláqua. Segundo ela, o dentista era contratado do Estado e tinha um consultório dentário dentro da escola, com todos os equipamentos necessários. Abaixo, ela explica como funcionavam as consultas com as crianças: Atendia todo dia. Ele dava expediente de manhã. À tarde, às vezes ele ia à tarde, tinha os dias lá marcados, mas a maioria era pela manhã. As crianças tinham os dias de cada turma, mas tinha aqueles que acompanhavam a obturação, essas coisas. Aí tinha a hora marcada pra ir. Tinha os horários bem direitinho que cada turma ia, os da manhã e os da tarde. A noite não, num tinha não. Ele ia mais de manhã, parece que os alunos da tarde tinham os dias… eles iam fazer no começo do ano fazia aquele… avaliação. Aí ficava fazendo tratamento, tinha o horário tudinho, entendeu? A partir da fala de Thereza Almeida, vemos que as crianças tinham acesso ao dentista durante o horário escolar. Segundo a entrevistada, acontecia uma avaliação no início do ano e, ao longo dele, as crianças iam sendo atendidas de acordo com a respectiva necessidade, durante o horário das aulas. A fala acima nos foi muito cara, pois mostra como a prática da profilaxia bucal foi implantada no estado do Ceará como uma política de Estado através das instituições escolares, durante o decorrer do século XX. No álbum mencionado anteriormente, encontramos uma fotografia do Dr. Galvão em plena prática de suas atividades com um estudante do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua. A fotografia data de 17 de outubro de 1974. Figura 2 - Dr. Galvão em atendimento no Grupo Escolar Clóvis Beviláqua Fonte: Álbum da família Castro Almeida. A fotografia data de 17 de outubro de 1974. Condizente com a fala de Thereza Almeida, vemos o Dr. Galvão atendendo um estudante juntamente a sua assistente, Joanita, que segundo a entrevistada, trabalhava de manhã como assistente do dentista da escola e, à tarde, no Cartório Moraes Corrêa. De acordo com a imagem, o gabinete dentário parece estar plenamente equipado com cadeira odontológica, cuspideira, refletor, mocho, compressor etc. Tinha tudo para o pleno funcionamento e auxílio na profilaxia da saúde bucal das crianças. A partir das imagens encontradas nos álbuns dos entrevistados, vimos que os dentistas participavam das atividades pedagógicas como as festividades escolares. Dentre elas, a principal era a semana da saúde bucal. Figura 3 - Dr. Galvão na Semana da Saúde Bucal no Grupo Escolar Clóvis Beviláqua Fonte: Álbum da família Castro Almeida. Figura 4 - Dr. Galvão fazendo uma homenagem ao Dr. Pedro Malma na Semana da Saúde Bucal no Grupo Escolar Clóvis Beviláqua Fonte: Álbum da família Castro Almeida. Essas imagens parecem ser no gabinete dentário, nos anos 1970. Na primeira fotografia, Dr. Galvão parece fazer uma fala e, ao fundo, há alguns adultos sentados em uma mesa, que acreditamos que sejam os professores da casa ou representantes de autoridades. Na segunda fotografia, vemos o Dr. Galvão entregando um canudo de papel para o Dr. Pedro Malma, antigo dentista do Grupo Escolar, algo que acreditamos ser uma homenagem. Os dois dentistas aparecem também em algumas outras fotografias de festividades escolares, o que demonstra que eles participavam ativamente do cotidiano pedagógico da instituição. Importa mencionar que a atuação dos dentistas nas escolas ao longo do século XX trouxe uma mudança de prática não apenas dentro do ambiente escolar, como também nos lares onde essas crianças habitavam no que concerne ao cuidado com a saúde bucal. Isso porque, acreditamos que as crianças levavam as práticas aprendidas na escola para casa, disseminando com seus pais e familiares uma maior higiene (Santiago, 2011). Diante do exposto, executamos uma pequena digressão a fim de cumprir o ensejo de escrever acerca da história do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua, mas com enfoque no trabalho realizado pelos dentistas que atuavam nessa instituição. Exercitando o olhar sobre o período em questão, observamos que as práticas educativas no ensino primário estavam atreladas à saúde da criança, uma vez que o objetivo era formar o indivíduo na sua integralidade, fazendo do espaço escolar um ambiente propício ao desenvolvimento físico, mental e social. A partir disso, entendemos que a atuação dos dentistas do Grupo Escolar Clóvis Beviláqua foi um exemplo desta política de estado que almejava incutir nas crianças hábitos de ordem e higiene. Contudo, é pertinente enfatizar que as perspectivas analisadas aqui não são generalizantes, o que potencializa novas frentes de trabalho que tenham como foco a temática na perspectiva historiográfica. REFERÊNCIAS ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. 3. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013. BURKE, P. Testemunha ocular: história e imagem / Tradução, Vera Maria Xavier dos Santos – Bauru, SP: EDUSC, 2004. (Coleção História), 264 p. FERREIRA, Marieta de Morais; AMADO, Janaina (Orgs.). Usos e abusos da História Oral. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005, 277 p. LIMA, Ana Michele da Silva. Formação e atuação docente de Aída Balaio: biografia de uma educadora negra em Fortaleza-CE (1908-1970). 2019. 233 f. Tese (Doutorado em 2019) - Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2019. Disponível em:
http://siduece.uece.br/siduece/trabalhoAcademicoPublico.jsf?id=100729. Acesso em: 12 fev. 2025. SANTIAGO, Zilza Maria Pinto. Arquitetura e Instrução Pública: a reforma de 1922, concepções de espaços e formação de Grupos Escolares. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Ceará. Faculdade de Educação, Programa de Pós - Graduação em educação brasileira, 2011, 434p. SOUZA, Rosa de Fátima. Espaço da educação e da civilização: origem dos grupos escolares no Brasil. In: SAVIANI, Demerval [et al]. O legado educacional do século XIX. 3. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2014, 206p. VIDAL, Márcia. Imprensa e Poder: o I e II veterados (1963/1966 e 1979/1982) no Jornal O Povo. Fortaleza: Secretaria da Cultura e do Desporto do Estado do Ceará, 1994, 254p.