CONCEIÇÃO PALUDO (1995-2023), UMA PENSADORA DA EDUCAÇÃO POPULAR Conceição Paludo (1955-2023) foi uma educadora e pesquisadora importante para a Educação Popular (EP) e a luta dos movimentos sociais no Brasil e na América Latina, reconhecida por seu comprometimento com a educação popular e com a formação de novos educadores populares, especialmente no contexto da educação do campo e dos movimentos sociais populares. Nascida em Muçum, no Rio Grande do Sul, ela era filha de trabalhadores rurais e desde cedo valorizou a importância do aprendizado formal. Seus pais, ao deixarem o campo, buscaram proporcionar a ela e a seus irmãos a oportunidade de estudar. Conceição completou sua graduação em Pedagogia em 1980 e se especializou em Educação Psicomotora e Orientação Educacional em 1981. Ela obteve seu título de mestra em 1988 e o de doutora em 2000, ambos em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Com uma vasta trajetória no Ensino Superior, passou por instituições como a Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (UERGS) e a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Em 2015, passou a atuar como professora titular na Faculdade de Educação da UFRGS. Também lecionou na Licenciatura em Educação do Campo e coordenou a linha de pesquisa Trabalho, Movimentos Sociais e Educação (TRAMSE). Suas pesquisas fundamentadas no materialismo histórico e dialético concentraram-se no papel da escola pública e nas lutas populares como um espaço de resistência e empoderamento, especialmente para mulheres oriundas dos movimentos sociais populares. Conceição Paludo faleceu em 3 de maio de 2023. No entanto, seu legado continua vivo na formação de educadores comprometidos com a transformação social e a valorização da educação como um instrumento de emancipação. Ela teve um papel fundamental na educação popular, integrando os princípios da pedagogia freiriana em sua prática e em sua pesquisa. Sua contribuição foi essencial para fortalecer a formação de educadores que buscam transformar a sociedade, valorizando os saberes populares e o protagonismo das classes trabalhadoras. A abordagem teórico-metodológica de sua obra está na valorização da relação entre trabalho e educação, dos saberes populares e na formação de educadores críticos, refletindo um compromisso genuíno com a transformação social. Seu compromisso com a Educação do Campo ao longo do seu trabalho enfatiza a necessidade de uma formação que atenda às especificidades das comunidades rurais. Como pedagoga, sua posição a respeito do papel da educação na sociedade era permeada por uma visão ontológica, epistemológica e metodológica que ia ao encontro dos interesses emancipatórios dos trabalhadores, como sinônimo de uma pedagogia do/pelo trabalho. Tratava-se de uma “visão filosófica de mundo, na crítica radical ao capitalismo e na proposição do socialismo e do comunismo” (Paludo, 2014, p. 10). Na academia, Conceição exerceu de forma irretocável seu papel de intelectual orgânica, aproximando os conhecimentos acadêmicos aos oriundos da organização social, da pedagogia forjada no interior dos movimentos populares, em especial, a pedagogia do Movimento Sem Terra. Seu compromisso político e educativo com a organização do povo possibilitou que sua experiência como educadora popular permeasse suas práticas como docente no meio universitário, ampliando a visão social de mundo de seus estudantes. Assim, este artigo se propõe a refletir sobre o legado de Paludo e sua influência na educação popular a partir de uma abordagem teórico-metodológica do materialismo histórico e dialético, ressaltando a urgência de continuarmos seu trabalho em prol de uma educação mais justa e libertadora. Utilizaremos uma abordagem qualitativa, fundamentada na análise da obra Educação popular em busca de alternativas: uma leitura desde o campo democrático e popular. A presente pesquisa buscou apresentar os principais conceitos de sua obra, como o de Educação Popular, que, segundo Conceição, pode ser considerado como uma construção genuinamente latino-americana dos processos de luta das classes populares, “enquanto uma concepção educativa que vincula explicitamente a educação e a política” (Paludo, 2015, p. 220). Destaca-se ainda a relevância da categoria de resistência em toda sua obra. Os processos de resistência de caráter contra hegemônico, segundo Paludo (2015, p. 225), constituem-se como a “capacidade de um grupo social unificar em torno de sua proposta política um bloco mais amplo não-homogêneo, marcado por contradições de classe”. E no interior dessas relações, segundo a autora, a EP emerge como uma força educativa, política e organizada na disputa da sociedade. Para ela, as experiências da EP na América Latina são sínteses da expressão ético-política do povo, “por meio de organizações populares autônomas, imbuídas do desejo de construir o poder popular” (Paludo, 2015, 226). Na conclusão de seu livro Educação Popular em busca de alternativas: uma leitura desde o campo democrático e popular, a autora enfatiza o compromisso com a implementação de processos educativos para a construção do poder popular, em uma perspectiva da “radicalização da democracia política, econômica e cultural, de acúmulos de forças e de disputa da hegemonia” (Paludo, 2001, p. 204), de forma a desencadear um movimento para um novo projeto de país, o que ela chama de projeto alternativo. O livro Educação Popular em busca de alternativas é resultado da pesquisa de doutorado de Conceição Paludo defendida na UFRGS em 2000. Ancorada no pensamento de Freire e Gramsci, a investigação empreendida pela autora baseou-se “em dúvidas, questionamentos, angústias e tensões vivenciadas pessoalmente e nas inter-relações estabelecidas com outros educadores e com diversas organizações populares” (Paludo, 2001, p.13). Conceição apostava teoricamente na ressignificação do projeto de Educação Popular no Brasil com a interpretação dos movimentos sociais e de seus diversos significados. Na visão da autora, tornava-se necessário o cultivo de um pensamento crítico, combativo e contra hegemônico dentro e fora da Universidade. Para ela, “todos estes movimentos, Renascimento, Expansionismo Europeu, Mercantilismo, Reforma e também o Estado Absolutista, se inserem num contexto maior de construção de uma nova ordem na Europa” (Paludo, 2001, p. 20). Na esfera da cultura, constituem-se as ciências modernas e seus métodos positivos; processa-se a destruição do pensamento considerado mítico, sendo a razão e o pensamento racional eleitos como os únicos meios capazes de fazer o homem (como ser genérico), de forma ordenada e progressiva, chegar à verdade, ao belo, ao bem, ao progresso e à civilização. A este movimento dá-se o nome de Ilustração. (Paludo, 2001, p.21). Na esfera da economia, por sua vez, Conceição afirma que a economia capitalista e de mercado instaura um pensamento liberal cujo marco histórico foi a Revolução Industrial Britânica, datada de 1780. Ela não separa a análise econômica da análise política. Afirma que, “em termos históricos, a Revolução Francesa de 1789 é um dos marcos da ‘era das revoluções democráticas’, razão de seu alcance e repercussão” (Paludo, 2001, p. 21). A autora dedica-se também a compreender a edificação das democracias modernas, Segundo ela, estas se consolidam sob o signo da violência e da segregação das maiorias, condição que lhes confere um caráter paradoxal. A teoria política liberal e o liberalismo econômico, em linhas gerais, apregoavam e ainda apregoam que a liberdade e a igualdade se realizariam num regime político em que o governo seria "do povo, pelo povo e para o povo" e em que as forças do mercado poderiam desenvolver-se livremente. Haveria a separação da esfera pública e da esfera privada. O conjunto dos cidadãos, realizando o contrato social, de forma participativa, decidiria sobre normas e leis que deveriam ser validadas por todos, inclusive pelos que assumissem a responsabilidade de execução. A sociedade seria democrática, já que, com liberdade, seria capaz de garantir os direitos naturais individuais para todos os seus membros. (Paludo, 2001, p. 35). No Brasil, as antíteses e as desordens, tais como a miséria, o autoritarismo e as discriminações, começam a ser melhor nomeadas pelos intelectuais, pelas classes populares e por significativos setores da sociedade civil nos anos 1970 e 1980. Há o fenômeno da "qualificação e da socialização da política". Isto é, a reflexão sobre a realidade brasileira é qualificada e deixa de estar circunscrita a parcelas pequenas da sociedade, alastra-se e vai penetrando no tecido social. (Paludo, 2001, p.43). Ao tomar por categoria de análise a historicidade, Conceição resgata, desde os anos 60, o movimento político de mobilização das massas, as quais, segundo a autora, deveriam ser satisfeitas, desmobilizadas ou reprimidas, para uns, e, para outros, vistas como instrumentos para a tomada do poder. Ambas as perspectivas, conforme ela, acabavam por tutelar politicamente as classes populares. Isso porque: No início dos anos 1960, a hegemonia deste tipo de relação com as classes populares começa a ser posta em questão. É neste período que se intensifica uma nova tentativa de organização autônoma dos trabalhadores rurais e urbanos. Outros sujeitos políticos, além das organizações de esquerda, intensificam o trabalho junto às classes populares, tais como estudantes, professores e religiosos progressistas. A luta pela Reforma Agrária fica clara. O aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores urbanos começa a ser demandado com ênfase. A realidade brasileira começa a ser melhor estudada. (Paludo, 2001, p. 49). E esse processo requeria uma definição sobre qual tipo de educação popular deveria ser trabalhada, a qual, no entendimento de Conceição, deveria articular teoria e prática. Para realizar essa distinção entre a concepção de Educação Popular e a sempre em pauta discussão sobre a educação das classes populares, utiliza-se neste trabalho a expressão educação popular. Designa-se, com ela, uma compreensão da educação instituída, pública ou não, como uma prática social construída historicamente. Esta prática social e histórica se faz mediada por sujeitos políticos e recursos, que articulam em torno de si diferentes campos de forças políticas e culturais. Estas forças disputam entre si a direção para as práticas educativas (fins e meios) e articulam-se de forma orgânica com a perspectiva de determinados direcionamentos (projetos) econômico, político e cultural da sociedade no seu conjunto[...]. (Paludo, 2001, p. 65). Os estudos realizados sobre a história da educação por Conceição detalhadamente descritos nessa obra, respeitando o método dialético e suas categorias, permite extrair algumas conclusões gerais sobre a educação no projeto da modernidade, que são fundamentais para, com base nelas, se dedicar ao estudo da educação popular como uma alternativa ao projeto de modernidade brasileiro. Uma educação que o povo deve construir, oriunda do campo popular. Num quadro de problemas sociais não resolvidos, o acesso/ permanência (exclusão da e na escola) e a qualidade do ensino das classes populares, bem como a função social da educação (seus fins) e a sua sustentação financeira (meios) são motivo de análises, pesquisas e acirradas discussões e também problemas crônicos da educação brasileira, evidenciando que ela é uma das questões sociais não resolvidas em nossa sociedade, (Paludo, 2001, p. 76). É possível dizer que o projeto de modernidade brasileiro passou por três grandes fases até que se consolidasse: o processo de industrialização, a discussão no campo da educação e das leis educacionais brasileiras, que dividiu opiniões, e o desemprego estrutural, na década de 1990. Essa análise nos permite compreender que Conceição pensou a educação popular como um projeto de poder que envolve as classes populares, o acesso às políticas públicas estruturantes, como a escola e a universidade, bem como um projeto político que a autora chamava de socialismo. Na sua interpretação, o atual cenário da EP encontra-se esgotado com relação a perspectivas de uma educação verdadeiramente transformadora, principalmente “no que diz respeito às análises fragmentadas, temáticas, parciais, pragmáticas e/ou idealizadas” (Paludo, 2015, p. 234), que passam a disputar o campo da EP. Para ela, é necessária uma abordagem que recupere “o ponto de vista da totalidade e da historicidade, rearticulando conhecimento teórico e prática política” (Paludo, 2015, 234), em uma compreensão de que a lógica do capital é irreformável. A elaboração deste texto visa contribuir para o campo da educação popular no Brasil, buscando evidenciar a importância dessa abordagem como um instrumento vital para o empoderamento das classes populares. Ao compartilhar sua trajetória e suas práticas educativas, esperamos inspirar educadores a adotar abordagens que valorizem a educação popular como ferramenta de transformação social. A biografia de Paludo servirá como inspiração de como unir teoria e prática na busca por uma educação inclusiva e transformadora. Por fim, esperamos que este trabalho alcance as expectativas almejadas, pois acreditamos que, ao disseminar o legado de Conceição Paludo, poderemos inspirar novas gerações a se engajar na luta pela justiça social e pela valorização da educação como um direito fundamental. Palavras-chave: Educação popular. Legado. Conceição Paludo. Pensadora. Referências PALUDO, Conceição. Educação popular como resistência e emancipação humana. Cadernos Cedes, v. 35, n. 96, p. 219-238, 2015. PALUDO, Conceição. Educação popular em busca de alternativas: uma leitura desde o campo democrático e popular. Porto Alegre: CAMP, 2001. PALUDO, Conceição. Campo e cidade em busca de caminhos comuns. Pelotas: Ed UFPEL, 2014. PALUDO, Conceição. Materialismo histórico dialético: relações trabalho educação, movimentos sociais e desafios para a pesquisa. In: CÊA, Georgia; RUMMERT, Sonia Maria; GONÇALVES, Leonardo (Org.). Trabalho e educação: interlocuções marxistas. Rio Grande: Ed. da FURG, 2019. p. 60-82. PALUDO, Conceição. Movimentos sociais e educação popular: atualidade do legado de Paulo Freire. In: STRECK, Danilo; GHIGGI, Gomercindo; SILVEIRA, Fabiane Tejada da; PITANO, Sandro de Castro (Org.). Leituras de Paulo Freire: contribuições para o debate pedagógico contemporâneo. Brasília: Liber Livro Editora, 2010. p. 39-55. MACHADO, Carmem L. Bezerra; CAMPOS, Christiane Senhorinha Soares; PALUDO, Conceição. Teoria e prática da educação do campo. Brasília: MDA, 2008.