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A presença exponencial do mundo digital na sociedade tem transformado significativamente os ambientes escolares, atravessando a dinâmica das práticas pedagógicas e desafiando educadores no uso de novas tecnologias. A cultura digital se manifesta não apenas pela presença de dispositivos e plataformas digitais nos espaços escolares, mas também por meio das interações, linguagens e formas de produção e circulação do conhecimento que emergem dessa realidade virtual. Para os professores, esse contexto impacta desde o planejamento das aulas até a interação cotidiana, exigindo novas estratégias e reflexões sobre sua atuação. Considerando esse cenário, nossa pesquisa propõe analisar e compreender as narrativas docentes, explorando as formas como a cultura digital influencia o cotidiano escolar, os sentidos atribuídos pelos professores a essas transformações e os modos como eles negociam sua inserção nas práticas pedagógicas. Para isso, adotamos a abordagem metodológica narrativa, que interpreta as experiências narradas por docentes, tecidas em discussões abertas em grupos colaborativos compostos por professores da rede pública estadual paulista, cujos objetivo é discutir e compartilhar suas experiências sobre a cultura digital nas escolas. As interações nos grupos colaborativos foram mediadas por debates orientados à reflexão sobre as práticas docentes no contexto da digitalização do ensino. A análise das narrativas docentes é feita a partir do paradigma indiciário (Ginzburg, 1989), buscando identificar fragmentos e indícios nas histórias compartilhadas pelos docentes, revelando os modos como a cultura digital se manifesta e é ressignificada no cotidiano escolar. A escolha pela abordagem narrativa como método de investigação se justifica pela centralidade que confere às experiências e vozes dos professores, compreendendo-as como elementos essenciais para a compreensão das dinâmicas escolares frente à cultura digital. A pesquisa narrativa permite acessar o que contam os participantes de suas experiências, reconhecendo nelas fontes legítimas para a compreensão dos fenômenos educativos (Connelly; Clandinin, 2011). Em um cenário educacional cada vez mais marcado por discursos normativos e prescrições tecnológicas, perceber os espaços das narrativas docentes permite entender os desafios, as tensões e as estratégias desenvolvidas pelos professores na incorporação das tecnologias digitais em suas práticas pedagógicas. Essa opção metodológica não apenas valoriza a perspectiva dos sujeitos que vivenciam a realidade escolar, mas também problematiza os processos de construção do conhecimento e das políticas educacionais que atravessam tais experiências. As narrativas dos professores revelam que os objetos, ideias e recursos digitais já fazem parte do repertório cultural dos professores e constituem seu modo de pensar e agir como docentes. Assim como o acesso a certos conteúdos e produções só se viabiliza por meio de recursos digitais, os docentes também manifestam realizar parte de seu trabalho exclusivamente por meio de recursos digitais. Mesmo sem que se deem conta, estão imersos nessa realidade. Quando falam diretamente sobre o tema, expressam outro tipo de relação com o digital: parecem compreender como produto da cultura digital as técnicas, recursos e artefatos que interagem com o ensino e aprendizado. Neste sentido, demonstram receio e criticidade com relação aos avanços percebidos. Mencionam os dispositivos tecnológicos, redes sociais e plataformas educacionais que reconfiguram as interações pedagógicas e os desafiam no processo de mediação do conhecimento. Mesmo quando mencionam o potencial dessas ferramentas para ampliar o engajamento e o aprendizado colaborativo, também destacam desafios, como novas dinâmicas no ensino e a falta de formação e de infraestrutura adequadas. Os professores participantes apontam que a mediação docente se transforma devido a familiaridade dos estudantes com a cultura digital. A autonomia dos alunos no uso de tecnologias gera tensões na interação pedagógica, pois suas lógicas de aprendizado são influenciadas por tutoriais, redes sociais e inteligência artificial. Além disso, há um contraste entre a promessa de inovação digital e a realidade precária das escolas públicas. A desigualdade no acesso às tecnologias aprofunda disparidades educacionais e limita práticas pedagógicas equitativas. Ainda assim, docentes relatam estratégias de resistência, ressignificando as tecnologias em suas práticas. Criam espaços de experimentação, colaboração e reflexão crítica, demonstrando que, apesar dos desafios, a cultura digital pode ser apropriada de forma emancipatória no ensino. Essas discussões reforçam a necessidade de compreender a digitalização da educação não apenas como um fenômeno técnico ou instrumental, mas como um elemento que atravessa diretamente a experiência e o trabalho docente, assim como a organização da educação e do contexto escolar. Dessa forma, ao escutar professores e suas narrativas, nossa pesquisa contribui para a construção de uma análise crítica sobre a relação entre educação e cultura digital, evidenciando as tensões e possibilidades de ressignificação e ampliação das práticas pedagógicas no cotidiano escolar. REFERENCIAS AGUIAR, Thiago Borges de; FERREIRA, Luciana Haddad. Paradigma Indiciário: abordagem narrativa de investigação no contexto da formação docente. Educar em Revista, Curitiba, v. 37, 2021. BARATTO, S. S.; CRESPO, L. F. Cultura digital ou cibercultura: definições e elementos constituintes da cultura digital, a relação com aspectos históricos e educacionais. Rev. Científica Eletrônica UNISEB, Ribeirão Preto, v. 1, n. 2, p. 16-25, ago./dez. 2013. CONNELLY, F. Michael; CLANDININ, D. Jean. Pesquisa narrativa: experiências e história na pesquisa qualitativa. Uberlândia: EDUFU, 2011. GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. HEINSFELD, Bruna Damiana; PISCHETOLA, Magda. Cultura digital e educação, uma leitura dos Estudos Culturais sobre os desafios da contemporaneidade. Revista IberoAmericana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 12, n. esp. 2, p. 1349-1371, ago./2017. IBIAPINA, Ivana Maria Lopes de Melo; BANDEIRA, Hilda Maria Martins; ARAUJO, Francisco Antonio Machado (Org.). Pesquisa colaborativa: multirreferenciais e práticas convergentes. 1. ed. Teresina: EDUFPI, 2016. PRETTO, N.; PINTO, C. Tecnologias e novas educações. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 11, n. 31, jan./abr. 2006. VIGOTSKI, L. Sobre os sistemas psicológicos. In: VIGOTSKI, L. S. Teoria e Método em Psicologia. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 103-136.
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