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Esse trabalho é fruto de uma pesquisa de pós-doutorado e se insere em uma pesquisa mais ampla que busca compreender como Paulo Freire tornou-se um autor com influência internacional (Marcondes, 2018). Em um contexto mais específico, esta pesquisa tem como objetivo principal compreender a inserção do pensamento de Freire na França, considerando seus diálogos no passado e no presente e sua influência na formação de educadores nesse país. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa com base nas pesquisas bibliográfica e documental, realizadas em Paris/França e no Rio de Janeiro/Brasil. Em relação aos diálogos construídos no passado, destaca-se que durante parte de seu exílio, entre 1970 e 1980, Paulo Freire trabalhou no Conselho Mundial de Igrejas, na Suíça. Neste período, Freire foi à França e entrou em contato, sobretudo em Paris, com grupos a favor da alfabetização de trabalhadores imigrantes (Freire & Guimarães, 2021). Assim, identificou-se nesse período que Freire atuou na França junto ao Instituto Ecumênico para o Desenvolvimento dos Povos – INODEP (1971) e ao Centro para o Estudo do Desenvolvimento na América Latina – CEDAL (Chaponay & Segala, 2012). Por meio dessas organizações, Freire foi à França em diversos momentos, realizando seminários, cursos, palestras, entrevistas, entre outras ações. Nesse sentido, observa-se que esse diálogo se desenvolveu junto com outros companheiros e companheiras, comprometidos com a alfabetização de adultos, a educação popular e uma educação conscientizadora e libertadora. Em relação aos diálogos mais atuais, este trabalho teve como recorte a publicação dos livros: “Pédagogie de l’autonomie”, traduzido e comentado por Jean-Claude Régnier (2006) e a segunda edição de “La Pédagogie des Opprimés”, com prefácio escrito por Irène Pereira (2023). A respeito do diálogo estabelecido por Jean-Claude Régnier, nota-se, em um contexto inicial, um direcionamento maior aos referenciais da escola nova, visto que Régnier (2006) é um pesquisador dedicado a esse movimento. Em um contexto mais recente, este autor segue atualizando o pensamento de Freire, abordando novas temáticas, como a educomunicação e a leitura crítica da mi´dia (Duvernoy & Régnier, 2023). Em relação à nova edição de “Pedagogia do oprimido” e o diálogo com Irène Pereira, destaca-se que Pereira atualiza as ideias de Freire nesse novo prefácio, bem como em diferentes livros e artigos (Pereira, 2017, 2020, 2021), evidenciando que sua interpretação de Freire consiste em uma leitura materialista e se diferencia das leituras norte americanas mais marcadas pela orientação pós-estruturalista. A partir desses diálogos, essa pesquisa traz alguns apontamentos iniciais. Nesse sentido, compreende-se que a escolha que Freire fez por dedicar-se mais à África durante o período do seu exílio em Genebra impactou sua recepção em solo francês, contribuindo para um maior interesse sobre seu trabalho com a alfabetização de adultos, mas também inviabilizando muitas vezes sua presença física nesse país. Em relação aos diálogos estabelecidos em um contexto mais recente, destaca-se que Pereira (2020) traz um importante elemento para a compreensão atual de Freire na França, quando afirma que esse país precisa da radicalidade de suas ideias, a fim de combater uma aproximação perigosa entre pedagogias emancipatórias e o neoliberalismo e para distinguir as pedagogias neoliberais das pedagogias de emancipação social. Sobre a influência de Freire em relação à formação docente, os resultados parciais indicam ser mais apropriado considerar que suas contribuições se encontram mais voltadas para a formação de educadores do que de professores. Esta colocação parte da constatação de que a ideia de educadores é mais abrangente do que a de professores – categoria que precisa passar, por exemplo, por questões profissionais e legais para se constituir. Assim, se no passado, o pensamento de Freire esteve mais associado à educação popular e à alfabetização de adultos (Olivier & Faucher, 2021), temas constituídos historicamente de forma mais marginal na formação de professores; em um contexto mais recente essa influência, ainda que incipiente, tende a se fortalecer, inclusive ao se aproximar de importantes referências na formação de professores, como Freinet e bell-hooks. Nesse caminho, o pensamento de Freire na França pode contribuir para a compreensão de um percurso histórico e social, em que os agravamentos dos efeitos do sistema capitalista e neoliberal ampliaram a produção das desigualdades educacionais, mantendo suas ideias pertinentes e atuais para a crítica social e política. Assim, compreende-se que a presença do pensamento de Freire na França, mesmo “tímida”, se constituiu de maneira sólida e engajada, assumindo um grande potencial para seguir crescendo e construindo novos diálogos e interpretações de seu pensamento. Referências Chaponay, H. de, & Segala, L. (2012). Toile filante, rencontres, mémoires, parcurs. França: F. Paillart. Duvernoy, D. S. D. A. C., & Régnier, J. C. (2022). As contribuições do legado de Paulo Freire para a educomunicação: um estudo sobre a Rede Coque Vive. Revista Temas em Educação, 1-20. Freire, P. & Guimarães, S. (2011). A África ensinando a gente: Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe. Paz e Terra. Freire, P. (2023). La pédagogie des opprimés. Agone. Gadotti, M. (1996). Paulo Freire: uma biobibliografia. Cortez/Instituto Paulo Freire. Marcondes, M. I. (2018). Freire como autor internacional: pedagogia do oprimido em língua inglesa publicada 50 anos atrás. Revista e-Curriculum, 962-985. Inodep (1971). Conscientisation: Recherche de Paulo Freire. Document de travail. Édition d’Alsace. Olivier, A. P. & Faucher, E. (2021) Recepção e não recepção de Paulo Freire na França : das ciências da educação à educação popular. Pró-posições, 1-34. Pereira, I. (2017) Paulo Freire : Pédagogue des opprimé.e.s, une introduction aux pédagogies critiques. Libertalia. Pereira, I. (2020) La réception de Paulo Freire face au néoconservatisme en France. Eccos, 52, 1-14. Pereira, I. (2021). Uma teoria materialista em educação, inspirada por Paulo Freire, em França. Educação, Sociedade & Culturas, 47–64. Régnier, J. C. (2006). Prolongement réflexif sur la pédagogie de l’autonomie de Paulo Freire. Traduire un discours pédagogique sans trahir une pensée. Dans P. Freire, Pédagogie de l’autonomie (p. 155-184). Erès.
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