MODOS DE DIZER-CINEMAS NEGROS NAS ESCOLAS - PRÁTICAS CONTRACOLONIAIS NA CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA

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É no espaço limiar das escolas situadas e constitutivas dos territórios e territorialidades da cidade de Campinas-SP e dessas mesmas escolas vistas pelos cinemas negros criados no seu interior que algo inesperado pode vir a acontecer e aparecer. O que podem e são as escolas vistas como campo (r)existencial de encontros com o inesperado provindo da sétima arte e reinado das próprias crianças quando o cinema deixa de ser somente filmes a serem assistidos e torna-se uma prática social imagética recriada nas confluências e transfluências (SANTOS, 2015) desses territórios? Qual é a potência dos cinemas negros feitos nas escolas como prática contracolonial voltada a construção de uma educação antirracista, em escalas locais-globais? Na tentativa de responder tais questões vamos tecer algumas considerações situando pontualmente o Programa Cinema e Educação de Campinas-SP e as Mostras Kino/Estudantis e, paralelemente, apresentar conceitos e categorias dos cinemas negros que emergiram a partir de um estudo qualitativo desses eventos. Os objetivos gerais giram em torno da exposição e apresentação dos conceitos e categorias numa perspectiva afrocentrada (Asante, 2009) e no modo como eles nos permitiram compreender as ideias de transfluências e afrofabulações cinematográficas-escolares, para então pensar possibilidades de utilizar tais conceitos em outras realidades. O Programa “Cinema e Educação: a experiência do cinema na educação básica” foi criado no ano de 2016 por profissionais que compõe a Secretaria Municipal de Educação de Campinas em parcerias com profissionais do grupo OLHO – Laboratório de Estudos Audiovisuais – da Faculdade de Educação da Unicamp-SP, e da Rede Latino Americana de Cinema e Educação - Rede Kino. O propósito do programa foi levar e intensificar as experiências com cinemas brasileiros e fomentar a formação pedagógica e estética através da tríade ver, conversar e produzir filmes nas escolas municipais, como caminho encontrado para se fazer cumprir a exibição de duas horas mensais de filmes nacionais. Desde 2016 acontecem as Mostras de Cinema Kino/Estudantis, a partir da seleção de filmes criados exclusivamente em espaços formais e não-formais de educação. Para nós, as Mostras Kino/Estudantis apareceram como portais pedagógicos – políticos e estéticos – de entradas (cinemáticas) na cidade e labirintos afectivos para co-criação de uma cartografia artística-científica do dizer-cinemas negros que pulsam do seu interior, decorrentes das metamorfoses que se dão nos lugares-escolas da/na cidade de Campinas. Tais forças minoritárias foram elementares nessa travessia pela dupla dinâmica de fundamentação teórica-metodológica que evoca: o contágio/apropriação/torção de categorias e conceitos provindos da afrofabulação cinematográfica (NYONG’O, 2019) (BARROS e FREITAS, 2018), da transfluência e da contracolonialidade (SANTOS, 2015). O dizer-cinema negro, em seu devir-escolar, aparece como uma idéia-força em construção ou, antes, em disputa nas narrativas contemporâneas. Não apenas em função de seu caráter polissêmico, multivocal, aberto, com diferentes concepções formais e estilísticas, mas uma disputa em torno de como essa categoria analítica-artística poderia se conectar aos planos de imanências estéticos e políticos considerados em nossa análise. É possível dizer que a cada obra de arte ou filme que trata de algum aspecto da negritude afro-brasileira e africana (e diaspórica) o seu devir é posto em cena, recriado e, simultaneamente, um novo degrau para educação antirracista é alçado. As Imagens-Movimento-Inventários de Transfluências Escolares aparecem como forças centrípetas e remetem ao modo como os conhecimentos africanos e afro-brasileiros têm ganhado espaço e circulado no interior das escolas a partir das experimentações audiovisuais. Os filmes são retratos do cotidiano escolar e do modo como os educandos e educadores têm se apropriado do conjunto de práticas e saberes ancestrais e contemporâneos negras e usado tais ferramentas a seu favor. O que tem possibilitado o conhecimento de personalidades da cultura brasileira e afro-diaspórica, de práticas como jongo, capoeira, samba, contos africanos transformados num arquivo-inventário de imagens-movimento da negritude. Já a afro-fabulação aparece como conceito provindo de uma de práxis pedagógica e forma de auto-inscrição estética negra, em que as crianças fazem narrativas de si que afetam pela clarividência na compreensão do aqui e agora, resgatando elementos da cultura afro-diaspórica soterrados nos mares revoltos de um tempo irreversível e apontando caminhos para futuras escolas antirracistas e abertas a diversidade e as diferenças de classe, gênero e etnias. Ressaltamos, por fim, que importância do dizer-cinemas negros e dessas práticas está na partilha conceitual do comum e nas possibilidades múltiplas de ensino-aprendizagem em outros territórios escolares no Brasil e no mundo. Como fazê-lo? Primeiro, a partir de propostas de ver-conversar-recriar cinemas negros (e das minorias nas escolas) construir seus próprios inventários-arquivos de luta. Segundo, criar dispositivos de criação audiovisuais e afrofabulação que girem em torno da ideia do dizer-cinema negro. REFERÊNCIAS ASANTE, M. K. Afrocentricidade: notas sobre uma posição disciplinar. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin (org.). Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009. BARROS, Laan; FREITAS, Kênia. Experiência estética, alteridade e fabulação no cinema negro. Revista Eco-Pós, v. 21, n. 3, 2018. Dossiê Racismo. Disponível em: revistas.ufrj.br/index.php/eco_pos. Acesso em: 14 jul. 2020. CAMPINAS. "Programa Cinema & Educação" Disponível em: https://educa.campinas.sp.gov.br/programa/cinema-educacao/objetivos. Acesso em 06 out. 2024. CARVALHO, Noel dos Santos e DOMINGUES, Petrônio. Dogma feijoada: a invenção do cinema negro brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais - VOL. 33 N° 96, 2018 GOMES, Nilma Lino. Relações étnico-raciais, educação e descolonização dos currículos. Currículo sem Fronteiras, v. 12, n. 1, p. 98-109, jan./abr. 2012. DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. Cinema 1. Tradução: Stella Senra. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983. FRESQUET, Adriana. (org.).Cinema e educação: a lei 13.006 – Reflexões, perspectivas e propostas. Colaboração, edição e distribuição: Universo Produção, 2015. NYONG’O, Tavia. Afrofabulations: the queer drama of black life. New York: New York University Press, 2019. OLIVEIRA JUNIOR, W.; MIRANDA, Carlos E. A.. A Aliança Potente Entre uma Mostra de Cinema e um Programa Educativo. Roquette Pinto: A Revista do Vídeo Estudantil, Pelotas, 5º Edição. p. 17 – 24p, 01, 2021. SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília, INCT/UnB, 2015. _________________________. Quilombos, transfluência e saberes orgânicos – entrevista com Nego Bispo. [Entrevista concedida a] Paíque Duques Santarém. SANTINI, D.; ALBERGARIA, R.; Santarém, P. Mobilidade antirracista. São Paulo: Autonomia Literária, 2021.

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  • Área Temática 3: Gênero , Justiça Social e Diversidade e Religião
Keywords
Cinema, Negro, Educação, Antirracista, Mostras