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Vivemos um tempo no qual o acirramento das mudanças climáticas é sentido mundialmente, demandando respostas urgentes. Num contexto geopolítico colonial, onde a América Latina, em especial o Brasil, renunciou aos esforços industrializantes empreendidos desde a primeira metade do século XX e aceitou, em nome de uma pretensa inexorabilidade da globalização, o papel de exportador de commodities (Coelho, Iorio, 2021. p.2), diversos territórios camponeses sentem os impactos negativos da exploração mineral atrelada à transição energética. No trabalho proposto, parte das discussões de um doutorado concluído, identificamos e analisamos processos de resistência nos territórios camponeses na Zona da Mata mineira, com enfoque na decisiva e particular ação militante-educadora de mulheres (Autora, 2023)* . A pesquisa foi realizada junto de mulheres em luta pela defesa dos territórios, articulando o enfrentamento à mineração e a promoção da agroecologia. As reflexões estão vinculadas aos debates sobre movimentos sociais e educação (Arroyo, 2003), educação popular (Freire, 1987) e pedagogias feministas (Korol, 2007). Inspirada pela Investigação Ação Participante (Bonilla et.al., 1987) e pelas epistemologias feministas (Haraway, 1992), foram realizadas vivências em campo (Autora, 2023), metodologia construída nos debates sobre observação participante e sensibilidades interpretativas (Darder, 2019). Estas vivências foram registradas em textos autoriais compartilhados e dialogados com as interlocutoras da pesquisa, ao que nomeamos relatos compartilhados (Autora, 2023). Foram também realizadas entrevistas semiestruturadas no formato de rio da vida (Hillenkamp, 2022) e um círculo de cultura (Freire, 1987) com as cinco participantes. Os dados produzidos reafirmam o protagonismo das mulheres nas lutas na defesa dos territórios camponeses, concretizadas pelo enfrentamento à mineração e afirmação da agroecologia. Nestes processos, a educação, numa perspectiva popular (Freire, 1987), territorializada (Xakriabá, 2020) e feminista (Korol, 2007), é determinante. Produzidas com expressa intencionalidade pedagógica, a ação militante-educadora das mulheres incide nos modos como sujeitos e instituições percebem e atuam diante do avanço da mineração e do agronegócio. De modo particular, em diálogo com reflexões feministas e antirracistas sobre educação (hooks, 2013) e sobre as pedagogias feministas (Korol, 2007), a presença do corpo, do cuidado e dos afetos caracterizam a práxis militante-educadora das mulheres. Desafiando concepções de construção do conhecimento encerradas na dimensão racional, as participantes do estudo produziram instrumentos e procedimentos que mobilizam os corpos inteiros, não raro, em movimento, nos processos educativos que engendram. Exemplos dessas práxis são as caminhadas, caravanas e cartografias (Autora, 2023). Como práxis vinculada à educação popular e ao feminismo, essas metodologias conectam as pessoas aos seus territórios. Anunciam suas riquezas - conhecimentos, modos de vida e sociabilidade camponesas, a sociobiodiversidade e a presença da água em abundância; e denunciam o avanço da mineração, o uso dos agrotóxicos e das sementes transgênicas. Tais metodologias conectam também as pessoas entre si, criando espaços e tempos que possibilitam multifacetadas interações. Cientes do silenciamento de grupos racializados como negros e generificados como mulheres (Kilomba, 2019), criando comunidades de aprendizagem (hooks, 2013), com temas e perguntas que integram a vida cotidiana das mulheres, as militantes produzem espaços acolhedores e seguros, de visibilidade e escuta solidária da expressão das mulheres. Espaços para dizer de temas e perspectivas comumente inferiorizados e silenciados em grupos mistos. Na promoção da agroecologia e na produção de territórios livres de mineração, por exemplo, a relação de cuidado e afeto estabelecidas prioritariamente pelas mulheres com a natureza, desafiam relações estritamente mercantis impostas pelas masculinidades hegemônicas (Connell, 1995), que sustentam a exploração e a espoliação do trabalho e da natureza operadas pelo capitalismo. Este é um debate fundamental na defesa dos territórios, mas que, nas tramas das colonialidades do saber, do poder e de gênero (Lugones, 2008), encontra pouco ou nenhum espaço de enunciação. Em meio a enormes desigualdades de forças e violências, acirradas pelo neoconservadorismo que insiste em relegar às mulheres um lugar e uma escala despolitizadas de cuidado, as mulheres do campo seguem produzindo inéditos viáveis (Freire, 1987). Respondendo aos efeitos nefastos do neoextrativismo, produzem a Zona da Mata como primeiro Polo Agroecológico e de Produção Orgânica do mundo (2018), ocupam cargos nas câmaras e secretarias municipais, nas diretorias de organizações que promovem a agroecologia, tornam-se presidentas de sindicatos de trabalhadoras rurais. Mulheres que, através da militância, educam a si próprias e outros atores sociais, processo fundamental para seguirmos existindo e vivendo de maneira digna e soberana. *A referência visa garantir o anonimato da autoria para apreciação dos pares.
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