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A situação de desigualdade no mundo, em especial a que ocorre com populações pobres, desfavorecidas — seja quanto ao retorno a um conservadorismo aviltante, seja quanto a afecções sociopolítico-ambientais que desestabilizam a vida social, principalmente quando precária — tem atingido, com força e até mesmo violência, conquistas no campo da educação. Se carecíamos de ações concertadas em agendas internacionais para reduzir o analfabetismo, a não escolarização de milhões no mundo contemporâneo, apesar dos esforços de acordos no tema, no momento assombra-nos. Aprofundou-se a desigualdade e ampliou-se a distância para alcançar direitos; seguimos mantendo milhões de pessoas privadas do direito à educação; ampliaram-se necessidades no modo de vida atual ao mesmo tempo em que esta gerou múltiplas carências; a ordem mundial cada dia mais autoritária e concentrada como benesses em poucos países sugere o desinteresse por uma maioria populacional, privilegiando o poder de alguns, porque hegemônicos na concentração de riquezas. Neste marco referencial, o presente trabalho, resultante de pesquisa coletiva intitulada Constelações analíticas do direito à educação em novos contextos históricos: que sentidos para a diversidade e para a dignidade humana? objetivou a compreensão de efeitos de interdições do direito à educação na vida de pessoas jovens, adultas e idosas de classes populares. A pesquisa realizada entre 2019 e 2023 no estado do Rio de Janeiro, apoiou-se na entrevista compreensiva (Kaufmann, 2013), valorizando o saber precioso do entrevistado, e se valeu das categorias de dor e sofrimento ético-político (Sawaia, 2009, p. 106): “[...] dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade”. Muitas e diferentes pessoas contaram histórias de vida marcadas pela interdição do direito à educação, trabalho infantil, necessidade de cuidar da família, sobrevivência e dificuldade de acesso à escola — justificativas para a exclusão de direitos básicos. A legislação brasileira (Brasil, CF 1988; LDB1996) orienta a concepção de escola a ser oferecida aos sujeitos de direito, descortinando práticas sociais e significados culturais a permear todo o fazer pedagógico. Alinhar o trabalho na educação de jovens, adultos e idosos na perspectiva emancipatória (Freire, 2019) tem potência para enfrentar e combater políticas neoconservadoras e violências sociopolítico-ambientais. Um dos efeitos de interdições à educação aparece nos relatos de vida dos entrevistados não alfabetizados como mistura de dor, sofrimento, sonho e luta. Preocupações atuais com escolarização de filhos e netos indicam o valor atribuído à educação. Mesmo quando não se percebem como sujeitos de direitos, retornam aos estudos, com apoio e estímulo de filhos, se a responsabilidade do Estado se faz presente. Dor e sofrimento nas narrativas dos entrevistados e dos estudos de Sawaia (2014, p. 103-104 apud Heller, 1979, p. 313-315) significam: “[...] algo que emana do indivíduo, das afecções do seu corpo nos encontros com outros corpos e diz respeito à sua capacidade de sentir, [...] equivale a estar implicado em algo ou, como analisa Espinosa, de ser afetado”; enquanto “[...] sofrimento é a dor mediada pelas injustiças sociais”. M. Aparecida (2023), uma das entrevistadas, relata como sente a exclusão: “Quem não sabe ler é rejeitado. Sempre é esquecido”. Sr. Júlio (2019), outro entrevistado, revela efeitos e o modo consternado como é afetado pela interdição do direito à educação: Eu para apanhar esse ônibus na cidade para vir pra cá tenho que estar perguntando aos outros. Já imaginou?! Estar num ponto de ônibus, vê um ônibus passando, vê um monte de ônibus passando e não sabe qual é o seu, qual o que vai? É o que acontece comigo! Então é um troço até muito triste! Não saber ler e escrever apresenta-se como dor e sofrimento ético-político para muitos. Dor na dimensão individual, que afeta o corpo. Sofrimento na dimensão coletiva, uma dor mediada por injustiças sociais, compartilhada com quem se sensibiliza e luta para combater a situação, sem que afete muitos outros, não implicados com causas da humanidade. Há denúncias da falta de política pública como promotora desse efeito nos mais vulneráveis, ainda à margem de direitos preconizados na CF e na LDB. Relatos capturados por escuta atenta apresentam contextos históricos e políticos, socioeconômicos, culturais e educacionais produzidos pela complexidade das desigualdades de toda sorte. Os resultados produzidos pela pesquisa revelam pessoas invisibilizadas que ainda assim tecem, em cotidianos imersos em contextos neoconservadores, redes de apoio e solidariedade em que ancoram sonhos e lutas por dignidade humana. Disseminar o trabalho por meio de ferramentas como audiovisuais, podcasts, artigos apresentados e publicados em congressos e livro pode contribuir no combate ao neoconservadorismo no mundo, se disponíveis para a formação continuada de professores. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em 20 ago. 2022. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei que fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em http://www.planalto.gov.br. Acesso em 20 ago. 2022. KAUFMANN, Jean-Claude. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis: Vozes; Maceió: Edufal, 2013. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 67. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Paz e Terra, 2019. PAIVA, Jane. Constelações analíticas do direito à educação em novos contextos históricos: que sentidos para a diversidade e para a dignidade humana? Projeto de pesquisa. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017. (mimeo). SAWAIA, Bader (org.). O sofrimento ético-político como categoria de análise da dialética exclusão/inclusão. p. 97-118. As artimanhas da exclusão. Análise psicossocial e ética da desigualdade social. 9. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
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