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O trabalho em tela apresenta os passos iniciais de trabalho de campo realizado no Doutorado em Educação. Este texto, assim, contribui para um aumento no já crescente repertório de pesquisas que se utilizam da profícua articulação entre Educação e Antropologia, como nos lembra Mizrahi (2021) e Dauster (2007). Considerando, assim, a referida articulação, bem como pesquisas anteriores que forjaram a identidade da pesquisadora, tornamo-nos desejosos de produzir um trabalho que se construísse tendo por eixos etnografia, juventude, escolas e o conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro. Tem início então a primeira entrada no campo de pesquisa. O chamado “campo exploratório” foi realizado em um Ciep (Centro integrado de educação pública), que atende à modalidade de educação de jovens e adultos (EJA) no turno da noite na Maré. A permanência em campo estendeu-se de agosto a dezembro de 2024. Cabe ressaltar que os Ciep’s são fruto de uma política educacional grandiosa realizada nos anos 80 pelo então Governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, que teve por resultado 500 prédios de arquitetura moderna que foram projetados por Niemeyer. Darcy Ribeiro nos ajuda a entender o projeto: “o Ciep é uma verdadeira casa-escola, que proporciona a seus alunos múltiplas atividades, complementando o trabalho nas salas de aula com recreações, esportes e atividades culturais.” (Ribeiro, 1986, p.47). Assim sendo, faremos também, uma breve apresentação e discussão dos Ciep’s no contexto do Rio de Janeiro em uma perspectiva diacrônica. Lançaremos ainda um olhar sobre a Maré, em sua afirmação na cidade, como já havíamos feito em trabalho anterior (Muniz, 2021). Os números comprovam o fato: segundo o Censo Maré (2019), 140.000 pessoas vivem nas 16 favelas formadoras do Conjunto de favelas da Maré, que é, assim, mais populoso que 96% dos municípios brasileiros. Destacamos que os “mareenses”, como são chamados os moradores da Maré, enfrentam a carência na oferta de serviços básicos, de que a educação é um exemplo, de forma coletiva e organizada com muita luta e resistência. O grande estímulo para a pesquisadora, aliás, é a baixa oferta de vagas no Ensino Médio público para os jovens e adultos da Maré, já que 19,7% dos adolescentes entre 15 e 17 anos estão fora da escola (Censo 2019, p. 77). O número muito expressivo de escolas na Maré, são 50 unidades, onde estudam cerca de 22.000 alunos, contrasta com sua má distribuição: apenas 4 escolas atendem a essa etapa escolar. A reflexão de Dayrell (2007): “para os jovens, a escola e o trabalho são projetos que se superpõe ou poderão sofrer ênfases diversas” (Dayrell, 2007, p. 1109) é extremamente profícua para pensamos em EJA. O campo comprova que um grande número de jovens, adultos e idosos em áreas periféricas da cidade que ainda hoje não dominam os códigos de leitura e escrita. Presenciamos os desafios na convivência de discentes com diferenças de idade que muitas vezes ultrapassam 30 anos em suas trocas e também conflitos geracionais. Constatamos ainda a presença de movimentos de aproximação e distanciamento que une e separa a um mesmo tempo esses alunos, como, por exemplo, a identidade de estudante, bem como os usos distintos do uniforme. Destacamos ainda que entendemos a escola como parte da rede, nos moldes de Latour (2012), que, por meio de sua teoria do ator-rede (ANT), considera que os “atores” das mais diversas naturezas, com o social, os sujeitos e os objetos devem ser considerados em suas atuações instáveis e mutáveis em suas múltiplas possibilidades de ação em curso. A escola será considerada, assim, em sua dimensão de interações, pois pensar na escola como espaço sócio-cultural “implica resgatar o papel dos sujeitos na trama social que a constitui, enquanto instituição”. (Dayrell, p.1). As interações entre os sujeitos que compõe a escola, bem como as “coisas” que ali se fazem presentes são percebidas pela pesquisadora tendo ajuda de Tim Ingold (2015). O autor, nos convida “colocar atenção” ao ambiente, já que a pesquisadora esteve atenta à potência advinda de um campo em que, a um mesmo tempo, observava e participava, num modelo de fazer pesquisa menos intencional e mais atencional. Assim sendo, por se tratar de uma etnografia feita e refeita com os sujeitos de pesquisa, apresentaremos o fazer da pesquisadora e os impactos no ambiente investigado e em sua pesquisa em seus múltiplos papéis desenvolvidos: professora, ativista, ex-moradora, e, por fim, e não menos importante, pesquisadora. Pensamos na escola como espaço privilegiado de interação, na observância dos sujeitos da EJA. Nesta perspectiva, pensamos ainda na configuração da escola como um Ciep, bem como do lugar em que está: a Maré. Referências: BANNELL, Ralph Ings; MIZRAHI, Mylene; FERREIRA, Giselle. (orgs.). Deseducando a educação: mentes, materialidades e metáforas. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2021. BOURDIEU, Pierre. A ‘Juventude’ é apenas uma palavra. In: Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero. 1983, p. 112-121. DAUSTER, Tania. Um saber de fronteira: entre a Antropologia e a Educação. Antropologia e a Educação: um saber de fronteira. Rio de Janeiro: Forma & Ação, 2007, PP. 13-35. DAYRELL, Juarez. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 1105-1128, out. 2007. DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/zsHS7SvbPxKYmvcX9gwSDty/?format=pdf&lan…. Acesso em: 15/10/2010. DAYRELL. Juarez. A escola como espaço sócio-cultural. INGOLD, 2015. O dédalo e o labirinto. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 21, n. 44, p. 21-36, jul./dez. 2015. LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: Edufba, 2012; Bauru, São Paulo: Edusc, 2012. OLIVEIRA, Mariana Muniz. A materialidade da violência em uma escola da Maré. Rio de Janeiro, 2021. RIBEIRO, Darcy. O livro dos CIEP’s. Rio de Janeiro: Bloch, 1986.
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