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Esta pesquisa tem como objetivo analisar, a partir da perspectiva dos adolescentes haitianos, como ocorre a experiência desencadeada pelo processo migratório em uma escola pública de Canoas/RS, no bairro Guajuviras, e investigar os impactos dessa vivência nos processos interculturais no âmbito educacional. A pesquisa busca aprofundar os estudos sobre as experiências interculturais resultantes da imigração contemporânea, destacando a crescente complexidade do fenômeno, especialmente no que se refere a adolescentes migrantes. Dados recentes evidenciam a relevância e urgência dessa investigação. De acordo com a UNICEF, mais de 40 mil menores atravessaram a selva do Darién nos primeiros seis meses de 2023, enfrentando desafios extremos durante o percurso migratório. Ainda no mesmo ano, conforme informações da OBMigra, 44,3% das pessoas reconhecidas como refugiadas eram crianças, adolescentes e jovens com até 18 anos de idade. Além disso, o relatório anual da OBMigra (2024) indica que 45,9% dos imigrantes registrados no Brasil têm menos de 25 anos. Esses números nos mostram a necessidade de compreender as implicações educacionais e sociais da imigração, particularmente no contexto brasileiro. Focamos, nesta pesquisa, na chegada de adolescentes haitianos em uma escola do Munícipio de Canoas/RS, compreendendo adolescência conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ou seja, a faixa etária entre 12 e 18 anos. Dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação no ano de 2023 indicam que Canoas/RS abriga 4.727 imigrantes registrados. Informações da Secretária Especial Edna Paim (2023), da Coordenadoria da Igualdade Racial, Povos Originários e Imigrantes, revelam que 38% dos alunos imigrantes matriculados nas escolas municipais são haitianos. O levantamento de 2024 ainda não estava concluído até a finalização desta pesquisa. A contextualização teórica do estudo inclui um levantamento de pesquisas sobre interculturalidade na educação, processos de migração, refúgio e deslocamento, além dos desafios psicossociais enfrentados por adolescentes migrantes. Essa investigação aborda também a trajetória da imigração haitiana para o Brasil, destacando fatores históricos, sociais e políticos que influenciam esse fenômeno. A produção de dados ocorreu por meio de grupos de discussão com adolescentes haitianos matriculados em uma escola municipal de Canoas (RS), proporcionando um espaço de compartilhamento sobre suas experiências, desafios e perspectivas. A escolha por estudantes adolescentes foi motivada pela observação em sala de aula, enquanto professora, de situações de isolamento entre esses jovens. Assim, criar um espaço acolhedor e dialógico mostrou-se fundamental. Os grupos de discussão foram organizados com questões orientadoras, como: "Vocês gostam da escola no Brasil?" e "Já passaram por alguma situação em que não se sentiram bem, como o racismo?", promovendo diálogos sobre temas que raramente encontram espaço nas dinâmicas escolares cotidianas. A partir dos estudos de Weller (2006), consideramos que esses grupos permitem compreender como esses jovens vivenciam processos de exclusão social, desintegração e insegurança. Além disso, dialogamos com Jorge Larrosa e sua concepção de experiência, compreendida como um acontecimento singular e irrepetível que transforma subjetivamente aqueles que a vivenciam. Nesse sentido, os adolescentes haitianos que experienciam movimentos migratórios precisam ser analisados em sua singularidade. Além disso, fundamentamos nossa discussão nas noções de Jacques Derrida (2003) sobre democracia por vir e hospitalidade, bem como no conceito de interculturalidade a partir de Candau (2012) e Menezes (2011), compreendida como um processo dinâmico de construção de relações recíprocas, baseadas no respeito e na escuta ativa do saber do outro. Para a análise dos dados, recorremos à Análise Textual Discursiva (ATD), que possibilita a emergência de novas compreensões sobre os relatos produzidos. Moraes e Galliazzi (2006) entendem que a Análise Textual Discursiva se apresenta como uma metodologia de análise qualitativa que se distancia da perspectiva positivista de investigação, buscando superar essa abordagem através da aproximação com a hermenêutica. Segundo Gadamer (2005), a compreensão não ocorre de maneira isolada, mas em um horizonte interpretativo em constante transformação. Os resultados da pesquisa, de forma mais ampla, mostram a necessidade de incorporar o tema da imigração de crianças e adolescentes nos debates educacionais, promovendo políticas públicas inclusivas e práticas pedagógicas sensíveis à diversidade cultural. As narrativas analisadas ressaltam a necessidade de uma formação docente que contemple a interculturalidade e enfrente desafios como racismo e xenofobia, assegurando uma educação de qualidade para todos. Dessa forma, torna-se necessário ampliar o diálogo sobre o lugar da escola na construção de um espaço que vá além da recepção de estudantes migrantes, mas que também favoreça sua integração na escola. Isso implica a elaboração de estratégias pedagógicas e políticas institucionais que garantam não apenas o acesso à educação, mas também a permanência estudantil, com resultados positivos.
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