Desafios da gestão escolar frente ao neoconservadorismo: o planejamento em questão.

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Abstract

O debate sobre o uso de aparelhos eletrônicos por estudantes nas escolas vem sendo recorrente em diversos países, inclusive no Brasil, em que foi recém sancionada lei que o proíbe (13/01/2024). Justifica-se que crianças não têm maturidade nem capacidade de autorregulação para lidar com conteúdos impróprios. O tema é controverso, mas também sua abordagem de ordem conservadora com vistas a regular comportamentos, o que não inibirá transgressões. Desde 2010, especialmente a partir do advento dos smartphones e das redes sociais como facebook e instagram, novas experiências sociais foram se configurando, não apenas por sua capacidade técnica, mas especialmente por sua ingerência na mudança de comportamentos e valores. Autores como Harvey (1992), Hall (1999), Senneth (2000), Bauman (2003, 2007), auxiliam a compreender a questão quando tratam das consequências pessoais da pós-modernidade, cada qual sob certo ponto de vista, ora focalizando valores e a formação do caráter, ora a capacidade de adaptação dos sujeitos no mundo, ora as identidades pessoais. Seus estudos retratam as formas de enfrentamento dos desafios postos em cada contexto histórico e a cada nova geração, em que se reinventa continuamente as instituições e modos de vida. A literatura recente apresenta o assunto, com foco nos motivos e desdobramentos do uso celulares por estudantes na escola (Nagumo e Teles, 2016), ou focalizando experiências exitosas com seu uso pedagógico e planejado (Gomes e Viana, 2022), ou ainda com a defesa do papel da escola para educar para o uso adequado das tecnologias (Lima, Silva e Sartori, 2024). A este respeito, Haidt (2024) destaca o advento do smartphone e a era das redes sociais como determinantes na incidência de mudanças geracionais, sinalizando que as pessoas nascidas após 1995, a denominada Geração Z, retratam o adoecimento social via ansiedade exacerbada diante das novas formas de relacionamento online e ausência de relações face a face. Tal situação se agrava com cada vez mais crianças e adolescentes expondo suas vidas felizes para conhecidos e desconhecidos (Haidt, 2024). O universo online disponibiliza uma variedade de recursos de feedback instantâneo 24 horas por dia, tornando as relações sociais mais tóxicas e gerando, consequentemente, ansiedade e depressão, especialmente em escolares frente à provação diante dos colegas para não serem cancelados. Compreende-se que a ausência de interação face a face potencializa a circulação de ideias falsas, abrindo ainda mais espaço para a expansão de posicionamentos reacionários, neoliberais, neoconservadores. Diante disso, este estudo analisa o modo como estes aspectos vem reverberando nas escolas, com particular recorte para as alternativas que a gestão de escolas públicas vem criando e utilizando. Sustenta-se que abordagens preventivas, planejadas e sistemáticas permitem fazer frente aos desafios postos às escolas, constrangidas diante das demandas gerencialistas das redes de ensino, que pleiteiam as melhores colocações no rankeamento educacional. Rodrigues e Teles (2019) defendem que o planejamento docente aliado ao engajamento, permite o uso de celulares e redes tipo WhatsApp como ferramentas pedagógicas interessantes. Nestes termos, compreende-se o planejamento adequado como abordagem preventiva via desenvolvimento de experiências escolares saudáveis, amistosas, solidarias, empáticas para estudantes e professores. A pesquisa-ação analisou escolas de municípios de pequeno e médio porte de Pernambuco e São Paulo, por meio de uma formação inicial a respeito do plano de ação do gestor, seguida de acompanhamento ao longo de um ano das ações desenvolvidas, de modo a mobilizar estratégias de enfrentamento e prevenção aos conflitos e violências. Entre os achados, a discussão sobre os problemas reais das escolas, permitiu aflorar episódios de conflitos e violências, aspectos não focalizados nos dos planos de gestão burocraticamente elaborados por diretores escolares. Estes passaram a incluir tais problemas nos planos de ação, apesar da persistente concepção conservadora de indisciplina voltada à disciplinarização dos corpos e não à atividade criativa natural das crianças. A pesquisa-ação gerou amadurecimento em relação ao valor do planejamento com base em problemas reais numa perspectiva transformadora crítica e propositiva, o que potencializou o enfrentamento à lógica neoconservadora. Referências Bauman, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003. Bauman, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ED, 2007. Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de janeiro: DP&A, 1999. Gomes, Claudio; Viana, Adriana. Explorando os efeitos da disponibilidade das tecnologias da informação e comunicação nos resultados do Enem. Rev. Bras. Estud. Pedagog., Brasília, v. 103, n. 263, p. 37-60, jan./abr. 2022. Lima, Marcelo Rodrigues; Silva, Pedro Henrique; Sartori, Adriane Terezinha. A máquina está a serviço de quem?”: uma reflexão crítica sobre as tecnologias digitais e a educação. Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, 2024. Sennett, Richard. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 2000. Haidt, Jonathan. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. Harvey, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola,1992. Nagumo, Estevon; Teles, Lucio França. O uso do celular por estudantes na escola: motivos e desdobramentos. Rev. Bras. Estud. Pedagog. (online), Brasília, v. 97, n. 246, p. 356-371, maio/ago. 2016. Rodrigues, Tereza Cristina; Teles, Lucio França. O uso de mensagens eletrônicas instantâneas como recurso didático. Rev. Bras. Estud. Pedagog., Brasília, v. 100, n. 254, p. 17-38, jan./abr. 2019.

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  • Área Temática 9 : Cultura, Currículo e Pesquisa Educacional
Keywords
Palavras-chave: Gestão escolar, Cultura, Geração Z, Neoconservadorismo.