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Introdução: No contexto do projeto de extensão de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) na atenção a Crianças com Necessidades Complexas de Comunicação, desenvolvido pela equipe de Terapia Ocupacional de uma universidade federal no interior paulista, vêm sendo elaborados e aplicados diversos recursos de CAA com o objetivo de ampliar as possibilidades de expressão, compreensão e participação das crianças envolvidas nas ações. A equipe é formada por docente, graduandas e mestrandas da área da terapia ocupacional e educação especial, responsáveis pela elaboração das estratégias e intervenções. Tais ações são pautadas em estratégias descritas na literatura, promovendo interações e proposições multidisciplinares para o contexto clínico, domiciliar e escolar (Pelosi, 2005). Essa abordagem colaborativa é fundamental para definir o tipo de tecnologia mais apropriada, o vocabulário funcional relevante e os meios de acesso mais viáveis e confortáveis para cada criança. A literatura especializada aponta que, quando implantados de forma adequada, personalizada e com o envolvimento dos interlocutores do cotidiano, os recursos de CAA promovem avanços na participação social, escolar e familiar das crianças usuárias de CAA. No entanto, essa eficácia depende de planejamento cuidadoso, acompanhamento contínuo, atualizações dos recursos e capacitação das pessoas envolvidas com a criança, como pais, educadores e colegas (Beukelman; Mirenda, 2013).
Objetivo: O presente relato traz a experiência do processo de confecção dos recursos de CAA pela equipe do projeto para a atuação direta com as crianças.
Público-alvo e Descrição das ações desenvolvidas: A população atendida é composta por crianças com diagnósticos como paralisia cerebral, transtorno do espectro autista, transtornos globais do desenvolvimento motor, atendidas semanalmente em uma unidade saúde-escola, em ações da terapia ocupacional, fisioterapia e psicologia e que, adicionalmente, também estão vinculadas ao projeto de extensão. A construção dos recursos de CAA parte das demandas identificadas durante os atendimentos individuais, considerando avaliações contínuas, observações clínicas e a escuta ao longo do acompanhamento terapêutico. Durante o processo de avaliação e seleção dos recursos de comunicação, todos da equipe se dividem no atendimento aos casos e é feita uma reunião em conjunto para a decisão sobre os recursos a serem confeccionados. Todos os dados são registrados nos prontuários de cada uma das crianças. Com a escolha dos recursos a serem propostos, os materiais são produzidos de forma artesanal e personalizada, sempre adaptados conforme as necessidades específicas de cada criança, respeitando suas singularidades cognitivas, sensoriais, motoras, afetivas e comunicativas. A personalização é um dos principais pilares do projeto, que reconhece cada criança como um ser único, com repertórios próprios e modos singulares de interagir com o mundo. Por isso, a criação dos recursos é feita com criatividade e constante diálogo com a criança, seus familiares e com a equipe. Entre os aspectos fundamentais observados, destacam-se: o controle motor (capacidade de apontar, tocar, pressionar ou olhar), a acuidade visual e auditiva, a compreensão simbólica, o nível de atenção e memória, além das características dos ambientes nos quais a criança circula e das pessoas com quem interage. Dessa forma, os recursos de CAA podem assumir múltiplas formas, sendo geralmente classificados conforme o nível de tecnologia envolvida (Von Tetzchener; Martinsen, 2000). Os de baixa tecnologia incluem pranchas de comunicação, cartões com figuras, objetos concretos, livros adaptados, tabuleiros com símbolos, entre outros materiais. Já os de alta tecnologia compreendem dispositivos eletrônicos com a personalização de aplicativos específicos instalados em tablets da própria criança.
Resultados: No âmbito do projeto de extensão em CAA, além das pranchas estruturadas a partir das core words e vocabulário acessório, foram desenvolvidos materiais adaptados com base em repertórios musicais e narrativos alinhados aos gostos e interesses das crianças atendidas. Entre os exemplos práticos de adaptação, destaca-se o uso da música “Meu Pintinho Amarelinho” e de histórias infantis como “A Galinha Ruiva” e “Tubarão Banguela”, nas quais foram utilizadas imagens e frases-chave representadas por símbolos pictográficos. O conteúdo dessas histórias foi reorganizado em pranchas sequenciais, que permitem à criança participar ativamente da contação ao selecionar símbolos que representam personagens, ações e elementos centrais do enredo. Essa estratégia não apenas promove a comunicação, mas também estimula a compreensão narrativa, o raciocínio lógico e o envolvimento emocional com o conteúdo. Outro recurso construído no projeto foi a Super Prancha Rotacional de CAA, também conhecida como Spinning Coreboard. Trata-se de um painel visual de grandes dimensões, montado com base giratória, permitindo a organização interativa dos símbolos centrais de comunicação. Sua estrutura facilita o rastreamento visual, a escolha intencional e o engajamento em atividades lúdicas, como brincadeiras, músicas ou histórias. O objetivo é tornar o processo de comunicação mais acessível e motivador, promovendo um ambiente estimulante durante os atendimentos. Essa prancha foi construída com materiais como canos de PVC, espuma e adesivos, de fácil reprodução e adaptáveis a diferentes contextos terapêuticos e educacionais. Adicionalmente, o projeto incorporou o uso do recurso para varredura visual, confeccionado em madeira com velcros para imagens e um orifício central. A terapeuta se posiciona atrás do painel e observa para onde a criança direciona o olhar, identificando as escolhas. Essa adaptação possibilita o acesso à comunicação para aquelas com severas limitações motoras, utilizando o olhar para a escolha. Além desses materiais, também foram confeccionadas duas versões do lápis alternativo para serem encaminhadas às escolas, contendo uma base em madeira para apoiar o caderno de forma central e na parte superior, o alfabeto, permitindo a soletração pela varredura e acesso indireto da criança.
Conclusões: As intervenções demonstram a importância da criação de estratégias personalizadas, que respeitam a faixa etária da criança, suas motivações, capacidades e modos próprios de comunicação. A integração da CAA com elementos musicais, literários e atividades lúdicas torna o processo terapêutico mais significativo, funcional e prazeroso, contribuindo não só para a ampliação da comunicação, mas também para o desenvolvimento global da criança. A partir da confecção dos múltiplos recursos, há uma experiência extensionista que favorece a colaboração entre todos da equipe e os familiares, o que contribui com o processo vivenciado. Além disso, os recursos têm servido como incentivo para os outros profissionais atuantes na unidade saúde-escola a integrarem as estratégias de CAA nas salas dos atendimentos, ampliando o seu uso. Por fim, consideramos que a experiência relatada exemplifica como mobilizar os futuros profissionais ainda durante sua formação inicial em estudar e viabilizar possibilidades alternativas em comunicação, contribuindo para a área.
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