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Resumo Expandido
A comunicação é um fator essencial para a expressão de ideias e a promoção da participação ativa dos indivíduos na sociedade. Nesse contexto, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) torna-se uma estratégia fundamental para garantir a inclusão de pessoas com Necessidades Complexas de Comunicação (NCC), contribuindo para sua autonomia e qualidade de vida. Historicamente, essas pessoas enfrentaram a exclusão de seus direitos à educação adequada. Embora o Brasil tenha avançado no campo da educação inclusiva e da CAA, ainda há desafios consideráveis no que se refere ao acesso aos sistemas de comunicação e à acessibilidade (SCHIRMER et al., 2023).
Neste cenário, os parceiros de comunicação exercem um papel essencial no ambiente escolar, sendo elementos-chave para a socialização, a aprendizagem e a participação ativa dos estudantes com NCC. A experiência aqui relatada surgiu da prática da professora de Apoio Educacional Especializado (PAEE), diante da necessidade de incluir uma estudante de 10 anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3 de suporte, deficiência intelectual (DI) e não verbal, em uma turma de 1º ano composta por 23 crianças de 6 anos, em uma escola municipal de Niterói/RJ.
Objetivos
O presente relato de experiência teve como objetivo demonstrar que a formação de parceiros comunicativos deve incluir não apenas familiares e professores, mas também as próprias crianças da turma.
Já a intervenção teve como objetivos: capacitar a estudante no uso da CAA, promovendo sua eficácia comunicativa; favorecer a inclusão da estudante com NCC na rotina da turma; e ampliar sua rede de parceiros comunicativos, incluindo uma colega de turma com idade próxima, a fim de proporcionar suporte contínuo e interações significativas.
Desenvolvimento
Público-alvo
Estudantes da classe regular e estudantes com necessidades complexas de comunicação.
Local
Escola pública do município de Niterói/RJ.
Materiais
Tablet.
Descrição das Ações Desenvolvidas
A estudante Flávia (nome fictício) iniciou sua frequência escolar apenas em março de 2025, após receios da família em relação à nova rotina. Com presença parcial (três vezes por semana por até 1h30), seu primeiro contato com o ambiente escolar limitava-se ao refeitório, sem acesso à sala de aula. A presença de Flávia gerou curiosidade entre os colegas, com perguntas como: "Por que ela não fala?" e "Por que ela não fica na nossa sala?".
A fim de esclarecer essas dúvidas, a PAEE promoveu uma roda de conversa com a turma, estimulando a empatia e explicando a importância da inclusão e o que era a CAA que Flávia utilizava, as crianças puderam manipular o tablet e conhecer Flávia através dele, apertando o pictograma escrito “Eu” com a foto de Flávia, onde uma voz feminina descreve informações sobre a estudante como: seu nome, idade e desenhos favoritos. Durante essa atividade, Isabela (nome fictício) demonstrou interesse em interagir com Flávia e passou a acompanhá-la no refeitório. A PAEE iniciou, então, um processo de formação individual com Isabela, ensinando-a a utilizar o dispositivo de CAA (tablet com pictogramas). A estudante aprendeu o funcionamento geral do sistema e iniciou interações por meio de pictogramas como “Oi”, “Abraço”, “Comer” e “Subir”.
Resultados e Discussão
A interação ocorreu inicialmente em ambiente controlado e tranquilo, antes do horário do lanche coletivo. Isabela utilizava o tablet para acionar os pictogramas e chamar a atenção de Flávia. Após três dias insistindo no pictograma “Abraço”, Flávia respondeu com um abraço, indicando o início da comunicação entre as duas. Com o tempo, novos pictogramas foram utilizados para motivar Flávia a se integrar à sala de aula. Em maio, foi possível que Flávia permanecesse por 20 minutos na sala com os colegas, além de participar do recreio em grupo.
Com o objetivo de avaliar a compreensão das crianças sobre a CAA utilizada por Flávia, alguns dias após a roda de conversa inicial e a interação de Isabela com Flávia, ocorreu uma segunda roda de conversa. Durante a atividade, os colegas de turma foram questionados sobre o tablet que Flávia utilizava, e as respostas obtidas revelaram a percepção dos estudantes acerca do dispositivo. Expressões como "é o jeito dela falar", "é a voz dela" e "é como se fosse a boca dela" evidenciam que as crianças compreenderam a função comunicativa do recurso tecnológico, reconhecendo seu papel na interação e expressão de Flávia. Essa compreensão está alinhada com a definição de Guthierrez e Walter (2021), que afirmam que a CAA se caracteriza por um conjunto de métodos e técnicas que possibilitam a comunicação, ampliando as possibilidades de troca, de experimentação individual e de relacionamento com o outro. Dessa forma, as respostas das crianças indicam a compreensão da função comunicativa do recurso, demonstrando como ele contribui para a interação social e a expressão de Flávia.
Considerações finais
A experiência evidenciou que a preparação das crianças da turma é crucial para a inclusão escolar de estudantes com deficiência. Esclarecer dúvidas e promover o respeito às diferenças por meio de rodas de conversa mostrou-se eficaz para despertar o interesse dos colegas em interagir com o novo membro da turma. O papel da PAEE foi determinante não só no apoio à estudante com NCC, mas também na mediação das relações sociais dentro do grupo. Segundo Delgado (2018), as interações no ambiente escolar são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem infantil. Como reforçam Milher e Fernandes (2006, p. 240), essas interações também contribuem para o aprimoramento das habilidades sociocognitivas da criança.
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