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INTRODUÇÃO
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), segundo publicações nacionais1 e o capítulo brasileiro da International Society for Augmentative and Alternative Communication (ISAAC), é uma área de prática e pesquisa nos campos clínico e educacional para crianças e adultos com comprometimentos na linguagem oral, produção de sentidos e interação.
Outros autores2 definem CAA como um conjunto de símbolos, recursos, estratégias, técnicas e serviços que compõem um sistema funcional para aquisição e desenvolvimento de competências linguística e comunicativa. Tais definições evidenciam a heterogeneidade decorrente das múltiplas combinações de necessidades comunicativas, linguísticas e de aprendizagem.
Dados do censo IBGE (2023) apontam 18,6 milhões de brasileiros com alguma deficiência, sendo 5,5 % com comprometimento em uma função e 3,4% com deficiência em duas ou mais funções. Além disso, 1,2% da população apresenta dificuldades na comunicação. Considerando o total populacional, esses índices são muito significativos.
Considerando esses dados, verificamos a necessidade de criar pictogramas otimizados para favorecer a identificação visual por pessoas com baixa visão, Deficiência Visual Cortical/Cerebral (DVC) e alterações de processamento visual (PV). Tais adaptações visam reduzir a sobrecarga perceptiva e agilizar o processo de reconhecimento dos símbolos, promovendo maior eficiência na comunicação e troca de informações visuais, especialmente em contextos de uso da CAA.
Publicações recentes em CAA1,2,3 mostram estudos relevantes envolvendo pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), deficiência física, intelectual e condições neurológicas adquiridas. No entanto, são escassos os trabalhos direcionados a pessoas com alterações visuais, seja por perdas periféricas de visão ou por comprometimentos no PV. Nesse contexto, pesquisas científicas4 apontam para a presença de alterações significativas nas vias neurais responsáveis pelo PV em pessoas com TEA.
Essas alterações podem comprometer a integração e interpretação adequada dos estímulos visuais, especialmente quando se trata da identificação e discriminação de imagens mais complexas, como pictogramas compostos por múltiplos elementos visuais ou com elevado grau de abstração. Tais dificuldades podem estar relacionadas tanto a déficits na percepção global quanto ao processamento atípico de detalhes visuais, características frequentemente observadas nesse grupo clínico, impactando diretamente a eficácia de estratégias visuais utilizadas na CAA e a mediação de informações4,5.
O conhecimento das características comportamentais e visuais específicas de crianças com DVC trouxe novo olhar para as questões do PV, pois diferentemente da deficiência visual causada por lesão ocular, as estratégias de avaliação e intervenção para DVC demandam abordagens fundamentalmente distintas5.
Quando a linguagem, fala ou comunicação é o foco da intervenção em CAA, a alteração visual deixa de ser apenas uma característica da pessoa e ganha lugar de destaque no raciocínio clínico, já que impacta diretamente as condutas terapêuticas3 e orienta a indicação dos recursos mais adequados5.
Os recursos de CAA2 são instrumentos utilizados para transmitir mensagens, sejam dispositivos eletrônicos de média e alta tecnologia, ou recursos não eletrônicos classificados como de baixa tecnologia.
No caso específico das bibliotecas de símbolos gráficos, são amplamente conhecidas e utilizadas diversas como: BLISS; ARASAAC; PCS; SymbolStix; Widget; Minspeak e Makaton, que podem ser aplicáveis em sistemas de baixa, média e alta tecnologia, atendendo a diferentes demandas de comunicação, linguagem e aprendizagem.
Cabe ressaltar que a maioria das bibliotecas de símbolos não foi desenvolvida com base no sistema linguístico do português do Brasil, o que pode representar um desafio em termos de adaptação cultural e linguística. Quanto às adequações para pessoas com alterações visuais, a biblioteca PCS disponibiliza símbolos em alto contraste.
Diante do exposto, é imprescindível ampliar estudos e pesquisas no campo da CAA que atendam às especificidades da população com baixa visão, DVC e alterações de PV.
OBJETIVOS
Definir o design de 100 pictogramas iniciais com base nos vocábulos frequentes no português do Brasil e estabelecer layout pautado nos princípios do desenho universal de aprendizagem (DUA) considerando formato, linhas, traços, cores e contrastes.
PÚBLICO-ALVO
Pessoas que utilizam recursos eletrônicos e não eletrônicos de CAA com baixa visão, DVC e alterações de PV.
DESCRIÇÃO DAS AÇÕES DESENVOLVIDAS
Nesse estudo, foi adotado o conjunto de palavras essenciais utilizados em alguns sistemas de CAA, denominado “core-words”, constituído principalmente por verbos, adjetivos, preposições, pronomes, artigos, conjunções e substantivos genéricos.
Essas palavras representam cerca de 80% da comunicação cotidiana e são altamente versáteis, podendo ser combinadas para formar uma infinidade de frases e expressões. Por isso, são consideradas fundamentais na CAA, pois permitem expressar intenções, sentimentos, ações e pensamentos com mais autonomia e flexibilidade, com pessoas diferentes e em variados contextos.
Foi feito o levantamento nas bases de dados científicas acerca da literatura nacional sobre as listas das palavras de alta frequência empregadas em português. A partir das listas de core-words disponibilizadas e amplamente adotadas na implementação dos sistemas de CAA utilizados no Brasil, foram definidos os primeiros 100 pictogramas, considerando a maior frequência de ocorrência verificada.
O desenvolvimento dos pictogramas deste projeto foi conduzido por um designer gráfico profissional, atuando sob orientação dos fonoaudiólogos responsáveis com objetivo de assegurar que os elementos visuais fossem não apenas esteticamente adequados, mas também funcionalmente eficazes para o público-alvo. Para a organização e categorização das imagens, foi adotado o sistema de cores de Fitzgerald, convenção amplamente utilizada em sistemas de CAA, que facilita a categorização gramatical por meio de cores padronizadas, contribuindo para a previsibilidade e acessibilidade da informação visual.
Adicionalmente, foi realizada uma pesquisa prévia fundamentada em evidências das neurociências da visão, com intuito de identificar os parâmetros perceptivos mais apropriados à realidade de indivíduos com alterações no PV. Tal levantamento incluiu aspectos como contraste cromático, simplicidade das formas, minimização de elementos distratores e uso de contornos nítidos, critérios especialmente relevantes para pessoas com baixa visão, dificuldades de integração visual ou DVC. A definição desses critérios técnicos visou maximizar a legibilidade, a identificação e a eficiência comunicativa dos pictogramas, respeitando os princípios da acessibilidade comunicacional e perceptiva.
RESULTADOS
Foram construídos 100 dos primeiros 500 pictogramas que serão desenvolvidos como vocabulário básico inicialmente proposto neste estudo, com cores em contraste, mas não saturadas, fundos em tonalidades de cinza e layout de linhas curvas. Esses 100 pictogramas prontos estão em fase de validação e referem-se à pronomes, descritores, miscelânias e verbos.
CONCLUSÃO
Os achados deste estudo reforçam a importância de considerar as especificidades visuais e perceptivas de pessoas com baixa visão, DVC e alterações de PV no desenvolvimento de recursos gráficos utilizados em sistemas de CAA. A análise das bibliotecas de símbolos atualmente disponíveis revelou limitações quanto à adaptação desses recursos às necessidades desse público, especialmente quanto a acessibilidade visual e compatibilidade com o sistema linguístico do português do Brasil.
A construção dos primeiros 100 pictogramas, fundamentada em princípios das neurociências da visão e do DUA, demonstrou ser uma iniciativa promissora ao propor um design que privilegia contrastes, traços simplificados e fundos neutros, otimizando a legibilidade e o reconhecimento visual dos símbolos. A adoção do sistema de cores de Fitzgerald e a seleção de vocabulário apoiada em palavras de alta frequência no português brasileiro visam garantir maior funcionalidade comunicativa, respeitando a organização linguística e a categorização gramatical.
Considerando os dados levantados, verifica-se que a criação de pictogramas acessíveis e visualmente adequados pode não apenas facilitar a identificação por pessoas com alterações visuais, mas também agilizar e tornar mais eficaz o processo de linguagem e comunicação.
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