1. INTRODUÇÃO
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), compreende um conjunto de símbolos, recursos, técnicas e estratégias voltadas a pessoas com necessidades complexas de comunicação (NCC), as quais apresentam dificuldades em se expressar, de forma efetiva, pela fala ou escrita, como no caso de muitos indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Quando este quadro coocorre com a deficiência visual (DV), denomina-se deficiência múltipla sensorial (DMS) por envolver comprometimento visual ou auditivo associado a limitações motoras, cognitivas, emocionais, comunicativas e de aprendizagem (Paulino; Pereira, 2022).
Como forma de acessibilidade comunicativa para pessoas com DMS, a literatura aponta o uso de símbolos táteis, tangíveis e texturizados como adaptações às suas necessidades sensório-motoras. Entretanto, é importante considerar a necessidade de avançar para utilização de sistemas de comunicação robustos e de alta tecnologia, que contemplem vocabulários essenciais, alfabeto e frases organizadas em um plano motor consistente. Tais sistemas promovem o desenvolvimento de competências linguísticas (conhecimento e capacidade de usar códigos linguísticos), operacionais (habilidades motoras para operar o dispositivo, usando o método de acesso escolhido), sociais (comunicar-se de forma eficaz) e estratégicas (uso dos recursos para resolver barreiras de comunicação) dos usuários, assim como da autonomia e participação social (Clarke, 2023).
Neste cenário, considera-se o papel da fonoaudiologia junto às pessoas com deficiências e NCC, reconhecendo-se a importância do trabalho multidisciplinar e colaborativo às demandas dessa população. Destaca-se, ainda, a necessidade de adaptações de tecnologias assistivas de alta complexidade, bem como a escassez de estudos científicos voltados à promoção da acessibilidade comunicativa a esses indivíduos.
2. OBJETIVOS
Este relato de caso tem como objetivo descrever quatro das seis fases da metodologia de intervenção e implementação da CAA robusta Grafo-Tátil (CARGT), desenvolvida entre março de 2024 a maio de 2025, com uma criança com TEA e deficiência visual. A proposta busca demonstrar os efeitos da intervenção fonoaudiológica colaborativa, associada ao uso de recursos grafo-táteis — símbolos bidimensionais em relevo (Liberto et al., 2017) —, integrados a alta tecnologia, a estratégias baseadas em vocabulário essencial e ao treinamento de parceiros, no desenvolvimento das competências comunicativas da criança.
3. DESCRIÇÃO DO CASO E DAS AÇÕES DESENVOLVIDAS
Trata-se de um estudo de caso, com abordagem qualitativa e natureza exploratória, vinculado à uma pesquisa com foco na formação de profissionais da Educação Especial em uma perspectiva colaborativa. Todos os envolvidos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A identidade da criança foi preservada, com uso de nome fictício.
O participante F., sexo masculino, de 12 anos, diagnosticado com TEA (não oralizado) e perda da visão adquirida aos 11 anos (causa não identificada e em investigação médica), iniciou a intervenção fonoaudiológica em março de 2024, com sessões de 50 (cinquenta) minutos, duas vezes na semana, no consultório, onde o estudo foi conduzido. A coleta de dados foi realizada por meio de registro audiovisual (celular) das sessões e protocolos de avaliação dinâmica.
A metodologia de intervenção e implementação da CARGT baseou-se em avaliações dinâmicas das competências comunicativas, inclusão em contextos naturais, capacitação de parceiros comunicativos, práticas de letramento emergente e alfabetização, além do uso de tecnologias assistivas de alta e baixa complexidade.
Fase I — Avaliação Inicial
Foram utilizados protocolos para traçar o perfil comunicativo, desenvolvimento global, preferências, rotina e ambiente familiar de F. Os dados indicaram predominância de comportamentos pré-simbólicos e não convencionais, como: movimentos corporais, vocalizações e gestos simples (ex. negar com a cabeça, dar tchau). A relativa compreensão e compartilhamento de atenção eram observadas em contextos de interesse. A família demonstrava envolvimento ativo e abertura para participar da construção de experiências significativas.
Fase II — Introdução de símbolos tangíveis
Foram utilizadas pranchas de baixa tecnologia, com símbolos tangíveis, por apresentarem correspondência óbvia com seus referentes, facilitar o processo inicial de discriminação simbólica e aquisição de habilidades, em usuários que não possuem um método consistente de comunicação e/ou demonstram prejuízos de compreensão. As pranchas (tamanho A4, fundo preto, com símbolos em alto contraste, na grade de 3x 6) foram confeccionadas com o aplicativo TD Snap e adaptadas com palitos de madeira, entre os quadrantes, para oferecer pistas táteis à criança. Observou-se evolução no uso funcional dos símbolos para comunicar necessidades imediatas com familiares, demonstrando aquisição de habilidades comunicativas iniciais.
Fase III — Introdução da CARGT
Com base na evolução anterior, foi possível iniciar a implementação da CAA robusta Grafo-Tátil. Para isso, foram criados, pela fonoaudióloga, símbolos em relevo, utilizando cola preta sobre o acetato, que foi fixado na tela do comunicador da criança.
A prancha seguiu a mesma organização anterior (3x6), agora com fundo branco, sem imagens e palavras escritas em tamanho reduzido, na margem superior dos botões. Foi mantida a prancha da fase II, sem necessidade de modelagem, como vocabulário acessório aos essenciais, inseridos nesta fase.
O uso intencional para se comunicar, por meio do dispositivo, usando palavras isoladas, indicou transição significativa na trajetória comunicativa da criança.
Fase IV — Ampliação da linguagem
Esta fase marcou a ampliação do vocabulário essencial. A grade do dispositivo foi expandida para 5x6, com 30 (trinta) palavras essenciais, além de links para vocabulários acessórios e teclado alfabético. Novos símbolos grafo-táteis foram criados e aplicados no acetato, preso à tela do comunicador. A criança ainda se encontra nesta etapa, iniciando uso de enunciados de duas palavras e funções comunicativas para solicitar, demonstrar sentimentos e responder a interlocutores.
4. RESULTADOS
Os resultados qualitativos indicam progresso importante no desenvolvimento comunicativo. F. evoluiu de comportamentos pré-simbólicos para utilização de linguagem simbólica, com uso funcional de palavras em seu dispositivo, tanto em contexto clínico quanto familiar. Tal evolução inclui solicitações, negações, expressões de sentimentos e respostas a perguntas. Essa transição aponta a contribuição da intervenção fonoaudiológica e da capacitação contínua dos parceiros comunicativos, que passaram a modelar o uso da linguagem, por meio do dispositivo, na rotina da criança.
O estudo evidencia que a adaptação da tecnologia assistiva, de alta tecnologia, à realidade do indivíduo favorece a construção de uma comunicação funcional, com participação ativa em diferentes contextos, destacando-se ainda a importância do respeito ao ritmo da criança e da construção colaborativa entre o profissional e a família.
5. CONCLUSÃO
Este relato de caso demonstra os benefícios de uma metodologia de intervenção baseada na CARGT para uma criança com DMS e NCC. Os resultados sugerem que a abordagem favorece a emergência da linguagem simbólica, promove autonomia comunicativa e reforça a importância da adaptação de recursos que considerem as especificidades de cada indivíduo. A experiência, além de salientar a necessidade de mais estudos relacionados a população com DMS e complexidade comunicativa, aborda a prática fonoaudiológica, na perspectiva colaborativa, para construção de caminhos acessíveis e funcionais para o desenvolvimento comunicativo.