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Introdução: os recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e as Intervenções Mediadas por Música (IMM) são frequentemente citadas pela literatura como Práticas Baseadas em Evidência (PBE) para o tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os benefícios das PBE transpassam os diferentes níveis de suporte do TEA e trazem consigo diversos benefícios para as Pessoas com Necessidades Complexas de Comunicação (PNCC) ao longo da vida, dentre os quais incluem o desenvolvimento de habilidades de comunicação e interação social (HUME et al, 2024). Embora estas estratégias sejam amplamente utilizadas, nos últimos dez anos existem poucos estudos que abordam estas práticas de forma associada. Desta forma, o presente relato de caso foi realizado para descrever o potencial dos elementos musicais (ritmo, melodia e harmonia) e de parâmetros do som (timbre, altura, intensidade, duração) entre outros, como estratégia de modelagem para contextualização dos recursos de CAA. Objetivos: relatar os efeitos da associação da musicoterapia e da CAA, ou seja, o impacto das pranchas temáticas musicais como estratégia inicial para implementação dos recursos de CAA, em um paciente com TEA. Descrição do caso: paciente do sexo masculino, atualmente com cinco anos de idade, diagnosticado com TEA, frequentando a educação infantil de uma escola da rede pública de ensino. No período relatado neste documento o usuário esteve em atendimento terapêutico com terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo e intervenção com atendente terapêutico em ambiente domiciliar, os quais corroboram para mapear as preferências e o vocabulário inicial do usuário. Quanto às demandas clínicas, foi observada a produção de palavras isoladas em tarefas de imitação, inflexibilidade cognitiva, produção verbal espontânea de fragmentos de canções infantis e grande interesse por atividades musicais. Descrição das ações: foi utilizado o instrumento Dynavox AAC Goal Grid (DAGG-3) para avaliar e definir parte das metas terapêuticas com base nas competências comunicativas do usuário. O Checklist do Perfil Funcional de Comunicação (PFC) foi utilizado para avaliar aspectos pragmáticos de linguagem (NEUBAUER & FERNANDES, 2013). Ademais, foi utilizada a Escala DEMUCA para observar o desenvolvimento musical do usuário devido a dupla formação de musicoterapia e fonoaudiologia de um dos terapeutas (FREIRE et al, 2019). Após transcrever as amostras espontâneas de linguagem do usuário, foi observado que o mesmo apresentava Processamento Gestáltico de Linguagem (PGL) em estágio 1 de desenvolvimento, caracterizado pela capacidade linguística do indivíduo de resgatar memórias episódicas sobre situações específicas, como sons, cheiros, imagens e sentimentos (BLANC; BLACKWELL; ELIAS, 2023). O perfil comunicativo foi definido como emergente para todas as competências avaliadas pelo DAGG-3 e o PFC foi caracterizado como menos interpessoal com as seguintes funções de comunicação: exploração, jogo simples, expressão de protesto, nomeação, predominantemente por meios gestuais e vocais. A aplicação da Escala DEMUCA evidenciou os seguintes resultados: 21% de desempenho para comportamentos restritivos (n = 3), 36% de desempenho para interação social/cognição (n = 5), 0% de desempenho para percepção/exploração rítmica (n = 0), 7% de desempenho percepção/exploração sonora (n = 1), 36% de desempenho para exploração vocal (n = 5) e 0% de desempenho para movimentação corporal com a música (n = 0). Desta forma, os objetivos iniciais selecionados foram: a) fazer seleções com intencionalidade na prancha temática musical; b) mostrar preferências por símbolos que representam atividades/objetos motivadores; c) direcionar atenção visual e auditiva para o recurso de CAA durante a modelagem; d) reconhecer os parceiros de comunicação para saudações; e) chamar atenção do parceiro de comunicação por meio dos recursos de CAA ou vocalizações; f) estimular as funções de comunicação de reconhecimento do outro e pedido de ação/objeto. O recurso inicial selecionado para implementação foi uma prancha temática musical em alta tecnologia com a canção “Seu Lobato”, utilizando o aplicativo TD Snap e as ferramentas de personalização disponíveis, como gravação de áudio e método de acesso direto. Os instrumentos musicais foram selecionados ao longo das sessões de avaliação dinâmica, expondo o paciente aos recursos musicais, como ukulele, voz cantada, teclado e outros instrumentos de percussão. A modelagem seguiu o princípio de entrada multimodais de linguagem, utilizando a fala, gestos, recursos de CAA e canções adaptadas como canais de estimulação da linguagem (KENT-WALSH, K. MCNAUGHTON, 2005). Foram apresentados, também, animais em miniatura pertencentes a diferentes habitats, como animais selvagens, animais marinhos, animais da fazenda e dinossauros para ampliar as iniciativas e construção simbólica do usuário por meio de onomatopeias e gestos convencionais de comunicação. Como estratégia musical de modelagem, foi utilizada a canção “Seu Lobato” com acordes na escala de dó maior (C) para ukulele e ritmo de reggae, utilizando pausas expectantes para despertar as iniciativas do usuário. Os parceiros de comunicação também receberam orientações e treinamentos acerca do uso dos recursos de CAA. Resultados: o recurso foi utilizado ao longo de seis sessões de terapia fonoaudiológica como estratégia inicial de ensino das competências comunicativas do usuário. Após este período foi possível observar aumento da atenção visual e auditiva para a modelagem do terapeuta, seleção intencional de substantivos (animais) na prancha temática musical, bem como maior frequência de pedidos de ação e objetos por gestos convencionais, como apontar e entregar animais específicos para o terapeuta. Além disso, foi possível observar avanços no PFC com a presença das funções de pedido de ação e objeto e reconhecimento do outro com maior frequência. Por meio da Escala DEMUCA foi possível observar avanços expressivos nas categorias de exploração vocal 50% (n = 7), interação social 64% (n = 9) e movimentação corporal 21% (n = 3). Finalizadas as seis sessões de terapia fonoaudiológica e observados os avanços, optou-se por iniciar a implementação de um sistema robusto de comunicação baseado em Core Words e planos motores de aprendizagem. Os demais objetivos terapêuticos mantiveram-se os mesmos. Conclusão: por meio deste relato de caso foi possível observar os benefícios clínicos de associar os recursos de CAA com a IMM no caso de uma criança com TEA, uma vez que ambas PBE possuem o objetivo de estabelecer formas de comunicação para as PNCC. Diante o exposto, faz-se necessário novos estudos abrangentes que articulem ambas PBE para traçar novas estratégias de intervenção, buscando qualificar cada vez mais o trabalho transdisciplinar no tratamento de pessoas com TEA.
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