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Introdução
A última grande extinção em massa, que marca o limite entre os períodos Cretáceo e Paleógeno (K/Pg), provocou uma reorganização profunda nos ecossistemas marinhos e terrestres (Hull & Norris, 2011; Dinarès-Turell et al., 2014). O primeiro estágio do Paleógeno, o Daniano, é considerado um momento-chave marcado por mudanças significativas na estrutura das massas de água e nos ciclos biogeoquímicos oceânicos (Birch et al., 2016; Huber et al., 2019). Para compreender esses processos, é essencial a reconstrução precisa das temperaturas da superfície (SST) e do fundo do mar (BWT). No entanto, em muitos registros sedimentares do Daniano, a escassez ou a má preservação dos microfósseis comumente utilizados para estas análises (e.g. foraminíferos bentônicos) dificulta a aplicação dos paleotermômetros padrões, como as razões Mg/Ca e os isótopos de oxigênio (Huber & Caballero, 2011; Hollis et al., 2012). Nesse contexto, os ostracodes surgem como valiosos substitutos para reconstruções de paleotemperaturas, uma vez que suas carapaças calcíticas podem preservar assinaturas geoquímicas mesmo em ambientes onde outros microfósseis são raros ou ausentes (Branson et al., 2018; Holmes & De Deckker, 2012). Estudos anteriores demonstraram o potencial da razão Sr/Ca em ostracodes como proxy de temperatura, sobretudo por sua relativa estabilidade frente a alterações diagenéticas (De Deckker & Williams, 1993; Decrouy et al., 2012; Rodríguez & Not, 2023). Ainda assim, a aplicação sistemática desse proxy em depósitos do início do Paleógeno permanece limitada. Este trabalho tem como objetivo explorar o potencial do Sr/Ca como paleotermômetro em ostracodes da espécie Henryhowella (Wichmannella) meridionalis, provenientes da seção Cerro Azul (Formação Jagüel), localizada na Bacia de Neuquén, Argentina. A investigação envolve múltiplas abordagens analíticas e imageamento em escala submicrométrica, visando avaliar a robustez do uso dos ostracodes como proxies paleoceanográficos em ambientes neríticos do Daniano.
Experimental
A seção Cerro Azul, localizada na Bacia de Neuquén (38°50’48” S, 67°52’20” W), oeste da Argentina, compreende rochas do Maastrichtiano ao Daniano Inferior pertencentes à Formação Jagüel. Foram selecionadas oito amostras do intervalo Daniano (CA10 a CA17), em alta resolução (espaçamento de 10 cm), totalizando cerca de 80 cm de perfil estratigráfico. Os ostracodes da espécie Henryhowella (Wichmannella) meridionalis foram selecionados manualmente sob estereomicroscópio na fração >180 μm. Os espécimes foram submetidos a protocolo de limpeza oxidativa (Barker et al., 2003), seguido por digestão ácida com HNO₃ a 2% para análise elementar por ICP OES (Thermo Fisher iCAP 7400 Duo). Paralelamente, valvas bem preservadas foram analisadas por ablação a laser acoplada a espectrometria de massas (LA-ICP-MS), utilizando sistema excimer de 193 nm (Analyte Excite+) acoplado ao ICP-MS iCAP Qc (Thermo Fisher). Os dados foram processados com o software Glitter-GEMOC 4.4.2. As razões elementares El/Ca (Mg/Ca, Sr/Ca, Fe/Ca, Mn/Ca, Al/Ca) foram expressas em mmol.mol⁻¹ e comparadas entre as duas técnicas. Para investigação da microdistribuição dos elementos, três valvas foram analisadas por fluorescência de raios X em escala nanométrica (nanoXRF), utilizando a linha de luz Carnaúba do Sirius (LNLS-CNPEM), com feixe de excitação a 10 keV. As imagens elementares de Ca, Mg, Sr, S e P foram obtidas com o software PyMCA (Solé et al., 2007), visando avaliar a associação dos elementos traço com componentes orgânicos ou inorgânicos da carapaça. A reconstrução das temperaturas da água de fundo (BWT) baseou-se na razão Sr/Ca, empregando equação de calibração para Henryhowella (Gussone & Greifelt, 2019), com correção para a composição da razão Sr/Ca do oceano durante o Daniano (Coggon et al., 2010).
Resultados e Discussões
As análises geoquímicas das valvas de Henryhowella (Wichmannella) meridionalis revelaram diferenças nos valores de Mg/Ca e Sr/Ca entre as técnicas aplicadas. As razões Sr/Ca obtidas por ICP OES variaram entre 2,16 e 2,67 mmol.mol⁻¹, enquanto os valores obtidos por LA-ICP-MS foram ligeiramente mais elevados, entre 2,42 e 3,26 mmol.mol⁻¹. Por outro lado, os valores de Mg/Ca apresentaram maior dispersão, com fortes correlações com os teores de Al/Ca (R² = 0,90), indicando possível influência de contaminação por argilominerais ou absorção orgânica, comprometendo seu uso como paleotermômetro. As imagens obtidas por nanoXRF revelaram distribuição homogênea do Sr nas valvas, em contraste com a distribuição heterogênea do Mg. A associação de S e P com regiões ricas em Mg sugere que parte do Mg pode estar ligado a componentes orgânicos intergranulares, como polissacarídeos sulfurizados, conforme proposto por Branson et al. (2018). Tais evidências reforçam a adoção do Sr/Ca como proxy mais robusto para reconstrução de temperatura em ostracodes ornamentados do Daniano. A aplicação da equação calibrada para Henryhowella (Gussone & Greifelt, 2019), ajustada para a razão Sr/Ca da água marinha do Daniano (Coggon et al., 2010), resultou em estimativas de temperatura da água de fundo (BWT) entre 11,8 °C e 15,5 °C (ICP OES) e entre 13,6 °C e 17,2 °C (LA-ICP-MS). Essas temperaturas são consistentes com os valores de SST obtidos por meio do paleotermômetro orgânico TEX₈₆, sugerindo baixa estratificação térmica na coluna d’água da Bacia de Neuquén durante o Daniano. Os resultados demonstram que ostracodes, quando criteriosamente selecionados e avaliados com ferramentas de alta resolução, podem fornecer estimativas confiáveis de paleotemperatura mesmo em registros geológicos desafiadores.
Conclusões
Este estudo apresenta uma abordagem integrada para reconstrução de temperaturas de fundo marinho (BWT) no Daniano Inferior da Bacia de Neuquén, Argentina, a partir da razão Sr/Ca em ostracodes do gênero Henryhowella. Em regiões onde os foraminíferos bentônicos são escassos ou mal preservados, os ostracodes representam uma alternativa promissora para investigações paleoceanográficas, desde que se adotem estratégias analíticas rigorosas e controles sobre possíveis fontes de contaminação. As análises comparativas entre ICP OES e LA-ICP-MS mostraram coerência nos valores de Sr/Ca, validando a aplicação do paleotermômetro com base em ostracodes ornamentados. A distribuição homogênea de Sr nas valvas observada por nanoXRF, somada à baixa correlação com contaminantes potenciais (Fe, Mn, Al), reforça a confiabilidade do sinal geoquímico registrado para este elemento. Em contraste, a elevada variabilidade nos dados de Mg/Ca e sua associação com componentes orgânicos e minerais finos limita sua aplicação como proxy de temperatura neste caso específico. A reconstrução de paleotemperaturas baseada em Sr/Ca indicou valores de BWT entre ~12 e ~17 °C, consistentes com as temperaturas de superfície do mar (SST) derivadas do TEX₈₆ (~28–31 °C). A diferença modesta entre BWT e SST sugere uma coluna d’água pouco estratificada, compatível com um ambiente nerítico raso e bem misturado, logo após o evento de extinção do K/Pg. Conclui-se que a aplicação do Sr/Ca como paleotermômetro em ostracodes representa uma ferramenta eficaz para reconstituições paleoambientais no Paleógeno, desde que acompanhada de técnicas de imagem e análises de controle de contaminação. Este trabalho amplia o repertório de proxies disponíveis para o estudo de paleoclimas antigos e destaca a importância de microfósseis não convencionais em registros geológicos pouco explorados do hemisfério sul.
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