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Resumo

O mercúrio (Hg) é um poluente global com longa residência atmosférica, permitindo seu transporte e deposição em regiões remotas, como ocorre em lagos da Bacia do Rio Negro (AM). Nessas áreas são registradas elevadas concentrações naturais de Hg. Solos ricos em matéria orgânica e óxidos de ferro e alumínio atuam como reservatórios naturais desse metal. Neste estudo foram analisados testemunhos sedimentares de três lagos com distintas conectividades hidrológicas ao rio Negro — Lagoa da Pata (isolada, sem conexão com sistemas fluviais), Lago Acarabixi (conexão variável ao longo do tempo) e Lago do Cabeçudo (conexão hidrológica não permanente). O objetivo foi identificar os mecanismos de transporte e deposição de Hg, avaliando o papel da deposição atmosférica, dos aportes terrígenos e das variações ambientais ao longo do tempo.

Foram obtidas cronologias por AMS-¹⁴C para todos os lagos e, adicionalmente, ²¹⁰Pb (Cabeçudo). As concentrações de Hg foram determinadas por espectrofotometria de absorção atômica (com vapor frio - Pata e Acarabixi e pirolisador - Cabeçudo). COT, N total e isótopos estáveis (δ¹³C e δ¹⁵N) foram analisados por espectrômetros de massas. As concentrações de Fe e Al foram determinadas via ICP-OES, após digestão pelo método EPA 3051. Análises estatísticas não paramétricas (Spearman) foram aplicadas para avaliar correlações entre Hg, COT, Fe e Al em unidades definidas com base nas variações de Hg.

A Lagoa da Pata apresentou as maiores concentrações de Hg (média = 319.19 ng/g, máxima = 812.04 ng/g), com picos em fases úmidas do Pleistoceno Tardio e Holoceno Tardio. A ausência de correlações significativas com COT, Al e Fe sugere dominância da deposição atmosférica. O Lago Acarabixi (média = 119.05 ng/g, máxima = 290.10 ng/g) apresentou padrões variáveis: entre 10.7 Ka e 10.1 Ka, o Hg correlacionou-se positivamente com todos, na transição para uma fase mais lêntica, com predomínio de silte e argila e presença de vegetação ripária; já entre 10.1 Ka e 8.3 Ka, a correlação foi positiva com Fe e negativa com COT, indicando alternância de controles redox e influência de aporte terrígeno durante fases secas. Entre 1.6 Ka e 660 anos, após hiato sedimentar, apresentou correlação com o Al, reforçando o papel dos óxidos metálicos e, possivelmente, minerais da fração fina, como caulinita. Cabe destacar que entre 10.7 Ka e 8.3 Ka, as correlações do Hg não foram estatisticamente significativas, apesar de fortes. O Lago do Cabeçudo apresentou as menores concentrações de Hg (média = 48.82 ng/g, máxima = 126.15 ng/g), mas correlação crescente entre Hg e COT a partir de 5.2 Ka, sugerindo aumento do acúmulo de Hg associado à matéria orgânica em fases mais recentes. A ausência de correlação com Fe e Al e a granulometria fina sugerem baixa influência do rio Negro.

A deposição atmosférica é significativa no aporte de Hg à Lagoa da Pata, ambiente lacustre isolado de sistemas fluviais. No Lago Acarabixi, múltiplos mecanismos atuam: concentração de matéria orgânica, aporte de óxidos metálicos e deposição atmosférica, podendo refletir a variação hidrológica à qual este sistema lacustre esteve sujeito nos últimos milhares de anos. No Lago do Cabeçudo, a retenção de Hg é principalmente controlada pela matéria orgânica. Assim, a dinâmica do Hg na Bacia do Rio Negro reflete uma interação complexa entre fatores atmosféricos e condições ambientais locais como hidrologia, composição sedimentar e acúmulo de matéria orgânica.

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Instituições
  • 1 Universidade Federal Fluminense
  • 2 Departamento de Geoquímica, Universidade Federal Fluminense (UFF)
  • 3 Institut de Recherche pour le Développement
  • 4 Centro de Tecnologia Mineral
Eixo Temático
  • ST-03 - Paleoambiente, Paleoclima e Biogeoquímica
Palavras-chave
MERCÚRIO
LAGOS AMAZÔNICOS
DEPOSIÇÃO ATMOSFÉRICA
MATERIA ORGÂNICA