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O evento de extinção em massa do Cretáceo-Paleógeno (K/Pg), ocorrido há cerca de 66 milhões de anos, marcou uma das maiores crises bióticas da história da Terra, associada ao impacto de um asteroide e intensa atividade vulcânica nos Traps do Decã. Esse evento teve efeitos globais sobre os ecossistemas marinhos e continentais, incluindo alterações nos ciclos biogeoquímicos e na preservação da matéria orgânica sedimentar. O presente estudo analisa os efeitos do evento Cretáceo-Paleógeno (K/Pg) sobre a matéria orgânica sedimentar (MOS) e os indicadores geoquímicos em duas seções de alta latitude: El Puesto (continental, Patagônia Chilena) e Filo Negro (marinha, Ilha Seymour, Antártica). Foram analisadas 10 amostras em El Puesto e 10 em Filo Negro. As análises geoquímicas indicam assinaturas paleoambientais distintas, porém convergentes quanto à perturbação ecológica no intervalo do pico de irídio (marcador do impacto extraterrestre). Na seção continental de El Puesto, concentrações elevadas de carbono orgânico total (COT; máx. 19,1%) e um pico de Hg (305,8 ppb) coincidentes com o pico de irídio indicam um ambiente redutor, anóxico e de rápida deposição, típico de ambientes pantanosos. A alta razão Hg/COT (>20) reforça a origem atmosférica do mercúrio, associada à atividade vulcânica (Traps do Deccan) ou ao impacto. Já os proxies Terr/Ca e Zr/Rb atingem picos no intervalo do impacto, indicando maior aporte continental e transporte sedimentar de longa distância, respectivamente. A razão K/Al registra queda significativa no limite K/Pg, sugerindo transição para condições mais secas, seguida por rápida recuperação úmida. A razão Mn/Al indica oxigenação momentânea, possivelmente por interrupção na sedimentação, enquanto a Ba/Ca sugere queda de produtividade primária no evento, com valores caindo de 0,14 para 0,06. Na seção marinha de Filo Negro, o COT é consistentemente baixo (<0,4%), refletindo condições oxidantes em plataforma rasa com intenso aporte terrígeno. O pico de irídio (0,26 ppb) coincide com elevação em Hg/COT (>45), o que também sugere uma deposição atmosférica. Ao contrário de El Puesto, os proxies geoquímicos mostram menor variação, refletindo a estabilidade relativa de ambientes marinhos: a razão Zr/Rb e K/Al permanecem estáveis, a Mn/Al atinge pico de oxigenação no limite, e Ba/Ca registra queda na produtividade, com valores diminuindo de 0,11 para 0,05. Os dados indicam que a resiliência da MOS foi controlada pela dinâmica deposicional, com maior preservação de matéria amorfa de plantas terrestres (HP-AOM) nos dois locais, provavelmente transportadas até o ambiente marinho por rios e sistemas de drenagem especialmente a partir do pico de irídio. Essas evidências geoquímicas e paleoambientais indicam que, mesmo em regiões distantes do impacto e da atividade vulcânica, ocorreram perturbações ambientais significativas, com efeitos diferenciados nos sistemas marinho e continental. O uso integrado de proxies elementares (Terr/Ca, Zr/Rb, K/Al, Mn/Al, Ba/Ca, Hg/COT) permitiu reconstruir com alta resolução as condições paleoambientais e suas relações com o evento de extinção global.
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