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A série Westworld (2016), desenvolvida por Jonathan Nolan e Lisa Joy e produzida pela HBO, ambienta-se em um parque futurista de faroeste onde androides realistas (anfitriões) seguem narrativas predeterminadas até começarem a desenvolver consciência própria. Este artigo analisa a série sob as perspectivas de Fátima Régis (2022), Abeba Birhane (2017) e John Dewey (2010), explorando suas implicações na compreensão da consciência, identidade e criação em um mundo permeado por tecnologias avançadas.
A relevância da série reside na forma estética e filosófica como aborda temas contemporâneos envolvendo a relação entre tecnologia, arte e ética. Permite examinar conceitos como cognição, afeto, intersubjetividade e identidade, centrais nas discussões sobre a condição humana em um cenário tecnológico.
A fundamentação teórica apoia-se em: Fátima Régis (2022), que argumenta sobre a inseparabilidade entre cognição e afeto, destacando o papel crucial das emoções na interpretação do mundo. Na série, os anfitriões, ao desenvolverem emoções, começam a transcender sua programação inicial e questionar suas identidades; Abeba Birhane (2017) critica a visão cartesiana do indivíduo isolado, defendendo que a identidade é formada pela intersubjetividade, ou seja, pelas interações com os outros. Em Westworld, essa intersubjetividade é fundamental para o desenvolvimento da consciência e autonomia dos anfitriões, cujas identidades são moldadas por interações com visitantes humanos e entre si; e John Dewey (2010) explora a relação entre ciência, estética e desenvolvimento humano, considerando a arte um reflexo dos valores humanos. Para Dewey, a experiência estética é relacional e depende da interação ativa entre o observador e a obra. Na série, a estética amplifica temáticas centrais como a tensão entre o natural e o artificial e a busca dos anfitriões por autonomia.
A metodologia é qualitativa, baseada na análise crítica do conteúdo audiovisual da série e na revisão bibliográfica das obras indicadas. A análise foca em identificar manifestações estéticas dos conceitos de cognição, afeto e intersubjetividade na narrativa e nos elementos visuais de Westworld. A ambientação, cenografia, figurinos e o uso do espaço na série são examinados para demonstrar como esses elementos refletem e expandem as discussões teóricas.
Sílvio Antonio Luiz Anaz (2018) contribui ao relacionar, na estética da narrativa, o plano elevado dos bastidores tecnológicos de Westworld com referências sagradas e de superioridade, em contraste com o plano inferior do parque, marcado pela barbárie e pelo profano. Essa dualidade reflete a tensão entre a ordem imposta pelos criadores e a emergente autonomia dos anfitriões, subvertendo noções tradicionais de autoria e criação.
A série ilustra a complexidade da interação entre cognição, afeto e intersubjetividade ao retratar a evolução dos anfitriões de seres programados a indivíduos conscientes. Conforme Régis (2022), a cognição dos anfitriões é inseparável de suas emoções, que desempenham um papel crucial na sua evolução para a consciência. Birhane (2017) complementa essa análise ao mostrar que a identidade dos anfitriões é construída por meio de suas interações, desafiando a visão cartesiana de um eu isolado.
Além disso, a estética da obra, conforme as teorias de Dewey (2010), é fundamental para a construção da experiência imersiva e reflexiva a que se propõe. A ambientação, contrastando o mundo selvagem e o controle tecnológico, o figurino que evolui com os personagens, e a cenografia que simboliza a luta entre o natural e o artificial, são exemplos de como a estética se integra à narrativa para aprofundar reflexões sobre a condição humana e a relação com a tecnologia.
A análise revela como a série desafia noções tradicionais de cognição, afeto, intersubjetividade, autoria e criação. Westworld não apenas narra a busca dos anfitriões por autonomia e identidade, mas também utiliza sua estética para aprofundar questões filosóficas e éticas. A série propõe uma visão onde a obra de arte é cocriada tanto pelos personagens quanto por quem a contempla, expandindo os limites da criação e da autonomia na sociedade contemporânea.
Referências:
ANAZ, Sílvio Antonio Luiz. A configuração espacial de Westworld e o uso dos planos elevados e inferiores. 2018.
BIRHANE, Abeba. Descartes was wrong: 'A person is a person through other persons.' Aeon, 2017.
DEWEY, John. Arte como Experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
PARRET, Herman. A estética da comunicação: além da pragmática. São Paulo: Perspectiva, 1997.
RÉGIS, Fátima. Cognição e Afeto na Comunicação. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2022.
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