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Este estudo propõe uma investigação da obra da artista visual Nídia Aranha, com foco especial na série ORDENHA, que explora as intersecções entre corpo, tecnologia e identidade de gênero. Nídia, artista travesti e pesquisadora de antropologia visual, utiliza seu próprio corpo como objeto de investigação e experimentação, abordando questões críticas sobre transformação corporal e ciência na arte contemporânea. A série ORDENHA serve como um exemplo paradigmático de sua prática artística, onde a modificação corporal é realizada por meio de uma pesquisa empírica e autoinduzida, refletindo a articulação entre biopolítica, performatividade e resistências trans. O objetivo central desta pesquisa é analisar como Nídia Aranha utiliza a arte para desafiar e subverter as normas estabelecidas de gênero e expandir a representatividade corpo travesti na arte contemporânea.
Na série ORDENHA, Nídia Aranha documenta um processo único de modificação corporal: a lactação em um corpo travesti, desencadeada por uma desregulação hormonal após uma cirurgia de prótese mamária. Esse projeto começou com ORDENHA001, que envolveu uma dieta hormonal específica e práticas de autocuidado que culminaram na produção de leite. Em ORDENHA002, a pesquisa é aprofundada, estabelecendo um paralelo crítico entre a ordenha mecânica de vacas na indústria leiteira e a instrumentalização dos corpos trans na sociedade.
A relevância deste estudo reside na carência de pesquisas que interseccionam poéticas tecnológicas e corpos dissidentes na história da arte, especialmente trabalhos produzidos por artistas trans. A prática de Nídia Aranha, que combina tecnologia, biohackeamento e performatividade, desafia as abordagens tradicionais da arte visual e questiona a cisnormatividade. Este estudo também busca suprir a lacuna existente na crítica de arte ao oferecer uma análise de uma produção dissidente e sua legitimação pelo sistema de artes visuais.
Esta pesquisa está fundamentada em teorias contemporâneas que abordam as interações entre corpo, tecnologia, poder e gênero. Nídia Aranha parte da premissa de que o corpo não possui uma essência fixa, mas é uma materialidade provisória sujeita a transformações contínuas, mediadas por diversas tecnologias — jurídicas, políticas, culturais e médicas. Essa sua abordagem é inspirada em David Le Breton, que argumenta que o corpo é uma "falsa evidência". Dessa forma, a fundamentação teórica pode também ser alinhada com o pensamento pós-humano de Donna Haraway, que discute o conceito de ciborgue. No campo da história da arte, Nídia também dialoga com a linguagem da bioarte, inserindo-se na tradição de artistas como Stelarc, Orlan e Eduardo Kac, que utilizam o corpo como meio de expressão e experimentação.
Além disso, a crítica colonial de Jota Mombaça orienta a análise das assimetrias estruturais que permeiam o acesso às tecnologias e a visibilidade no campo das artes. A ideia de "redistribuição da violência", explorada por Mombaça, é também central para entender como a artista Nídia Aranha utiliza a tecnologia e a modificação corporal como ferramentas de resistência. Essa abordagem interdisciplinar permitirá uma compreensão mais ampla das implicações filosóficas, sociais e estéticas da obra de Nídia Aranha.
A metodologia adotada neste estudo envolve uma análise crítica da série ORDENHA, incluindo a investigação de textos escritos pela artista, especialmente sua ideia de “tecnologia travesti”, assim como escritos sobre sua própria obra e entrevistas dadas por ela. O escopo de análise abrange os vídeos, fotografias, objetos e dispositivos tecnológicos produzidos por Nídia durante o processo criativo de ORDENHA. Para uma melhor contextualização da sua poética, também serão apresentadas brevemente algumas outras obras da artista.
Ao questionar as normativas sociais e explorar as intersecções entre corpo, tecnologia e identidade, Nídia Aranha contribui significativamente para o campo das artes visuais. Sua prática expande as fronteiras da arte contemporânea, propondo novas formas de existência e resistência que desafiam as tradições e normas estabelecidas. A obra de Nídia Aranha revela ainda as potencialidades do corpo e da vivência travesti como campo de experimentação artística, sendo esse campo influenciado por forças históricas, culturais, políticas e tecnológicas.
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