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Apresentação
O sistema alimentar mundial está no cerne de alguns dos principais desafios da sociedade atual, incluindo o aumento da fome, da obesidade, das doenças crônicas não transmissíveis e das mudanças do clima, este cenário é agravado ainda pelos efeitos da perda de agrobiodiversidade. Embora as perspectivas globais revelem uma necessidade urgente de enfrentar esse contexto em nível global, é igualmente relevante considerar contextos locais específicos, como por exemplo a agrobiodiversidade local, a fim de garantir soluções localmente adaptadas, contribuindo para sistemas alimentares que sejam simultaneamente saudáveis, sustentáveis e justos.
O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda a promoção de um sistema alimentar sustentável, com uma alimentação nutricionalmente balanceada e culturalmente apropriada, baseada em alimentos in natura e minimamente processados, predominantemente de origem vegetal. As PANC são uma alternativa promissora, sendo espécies vegetais que crescem espontaneamente e possuem alto valor nutricional. Apesar de sua agrobiodiversidade, as PANC ainda são pouco conhecidas e utilizadas, devido à padronização alimentar predominante. Promover o conhecimento e o uso das PANC pode aumentar a biodiversidade alimentar, melhorar a segurança alimentar e nutricional de populações vulneráveis e contribuir para a soberania alimentar.
Objetivo
A experiência tem como objetivo geral contribuir para o fortalecimento e manutenção de um sistema alimentar mais sustentável, nutritivo e biodiverso, por meio da promoção da descoberta, aprofundamento do conhecimento e ampliação das possibilidades de utilização das PANC no cotidiano alimentar de uma ampla gama de indivíduos e populações, desde entusiastas do tema, até pessoas que não detêm nenhum conhecimento prévio sobre o mesmo.
A metodologia utilizada foi o desenvolvimento e divulgação de materiais educativos a respeito das PANC, os quais foram divulgados por meio da comunicação digital. Visando ter uma comunicação efetiva, pautamos nossa comunicação visando o reconhecimento das diferentes formas de saberes e de práticas e buscando a valorização do conhecimento, da cultura e do patrimônio alimentar.
Descrição da experiência, Método e Ação
A experiência descrita tem sua ação principal na Universidade de São Paulo (USP), mais especificamente no Sustentarea, um Núcleo de Extensão Universitária, cujo objetivo principal é informar e discutir alimentação saudável e sustentável baseada em evidências científicas. Visa, assim, promover mudanças positivas nos hábitos alimentares e de vida das pessoas e instituições, buscando melhorar a saúde da população e do planeta. Com a diversidade de suas atividades, o Sustentarea não se limita a uma área específica, abrangendo toda a população brasileira e, através de projetos e produções online, podendo alcançar populações lusófonas ao redor do mundo. Além disso, envolve uma equipe diversificada de estudantes e profissionais de várias áreas do conhecimento, incluindo nutrição, antropologia, biologia, ciências sociais, engenharia de alimentos, farmácia, gastronomia, geografia, jornalismo, saúde pública e outros.
Além da equipe fixa do Sustentarea, diversos especialistas e agricultores contribuíram para a experiência, incluindo Elisabete Fonseca, agricultora e conhecedora de PANC de Pugmil, Tocantins; Valdely Kinupp, pesquisador e um dos precursores sobre o conhecimento das PANC no Brasil; Neide Rigo, nutricionista e autora do blog Come-se; Débora Shornik, chef do restaurante Caxiri, em Manaus; e Thaíza Cristina, co-criadora e coordenadora da ECOZ, iniciativa que promove a venda e doação de cestas de alimentos agroecológicos.
Para o desenvolvimento da experiência, foram seguidos os princípios do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas, que valorizam a comida e o alimento como referências e a culinária enquanto prática emancipatória; cultura alimentar local e respeito à diversidade de opiniões e perspectivas, considerando a legitimidade dos saberes de diferentes naturezas; além dos princípios de sustentabilidade social, ambiental e econômica e abordagem do sistema alimentar, na sua integralidade.
A metodologia utilizada incluiu a criação e divulgação de materiais educativos sobre PANC, acessíveis através de diversas plataformas digitais. Entre os materiais desenvolvidos estão revistas, e-books, posts em redes sociais e podcasts. Esses materiais foram elaborados com o intuito de proporcionar acesso amplo e gratuito, alcançando um público diversificado.
Todos esses materiais podem ser acessados gratuitamente, tanto por redes sociais como pelo site do Sustentarea e também via aplicativos de comunicação, como ocorreu com os áudios do podcast que foram divulgados via whatsapp. Essa diversidade de possibilidades de acesso ocorreu visando proporcionar uma maior acessibilidade, pois assim o acesso é feito sem a necessidade de aplicativos, já que podem ser acessados também pelo site. Além disso, também visando ampliar a acessibilidade, além dos materiais como revista, e-book e posts que são compreendidos através da leitura, também disponibilizamos conteúdos através do podcast, onde o conteúdo é compartilhado por áudio, ampliando o acesso para pessoas que não conseguem ler. As estratégias de divulgação incluíram a publicação nas páginas do Sustentarea nas redes sociais, divulgação institucional através do boletim interno da Faculdade de Saúde Pública da USP e entrevistas concedidas ao Jornal da USP. Também foram realizadas entrevistas para televisão, rádio, jornais online e outros podcasts, ampliando o alcance dos materiais desenvolvidos.
Os materiais desenvolvidos incluem: (i) uma matéria publicada na revista do Sustentarea, lançada em 2018, introduzindo o conceito de PANC, suas características, formas de consumo e potencialidades. Essa publicação marcou o início da discussão sobre o tema dentro do Sustentarea; (ii) A elaboração de posts em Redes Sociais, ao todo foram realizadas 59 postagens no Instagram, abordando cultivo, receitas, informações sobre diferentes espécies de PANC e suas características nutricionais e sensoriais. Essas postagens geraram significativa interação com o público, ampliando o conhecimento sobre PANC; (iii) dois episódios do podcast “Comida que Sustenta” foram dedicados às PANC, sendo que o primeiro episódio contou com a participação de especialistas e agricultores, enquanto o segundo teve enfoque na aplicação prática das PANC na alimentação cotidiana, e (iv) um livro digital com 13 receitas utilizando PANC, acompanhado de informações detalhadas sobre as espécies selecionadas: Beldroega (sanduíche de beterraba e beldroega); Cambuquira (risoto de grão de aveia com abóbora e cambuquira); Feijão Guandu (salada de feijão guandu com capuchinha e rabanete); Jaca verde (salpicão de jaca verde); Capuchinha (pesto de capuchinha); Folha de batata doce (suco verde com folha de batata doce); Ora-pro-nóbis (bolinho de arroz com ora-pro-nóbis); Peixinho (peixinho empanado); Taioba (panqueca de taioba); Tupinambo (sopa de tupinambo) e Coração de bananeira (escondidinho de coração de bananeira).
Em relação aos indicadores da divulgação, a revista do Sustentarea teve mais de 400 acessos na página que hospeda a publicação sobre PANC; as postagens no Instagram geraram alta interação, com média de 71 curtidas, 6 comentários, 12 compartilhamentos e 17 ações de salvar por postagem; o podcast “Comida que Sustenta” possui 400 seguidores no Spotify e os episódios sobre PANC tiveram aproximadamente 332 inicializações; o e-book sobre PANC teve mais de 4 mil downloads e ampla divulgação na mídia, com matérias em jornais e tradução para outros idiomas.
Discussão e Considerações finais
A experiência do Sustentarea com a promoção das PANC mostra-se significativa e relevante, especialmente no contexto atual de crise alimentar e mudanças climáticas. Os materiais desenvolvidos são embasados cientificamente e acessíveis a um público amplo, promovendo a disseminação do conhecimento e a valorização da biodiversidade alimentar.
O principal desafio encontrado foi a escassez de referências bibliográficas acadêmicas sobre PANC. No entanto, isso foi superado com o apoio de especialistas e o uso de conhecimento empírico e literaturas alternativas. A experiência continua em andamento, com potencial de impacto contínuo e crescente.
Promover as PANC pode contribuir para a segurança alimentar, a soberania alimentar e a sustentabilidade ambiental, ao mesmo tempo em que valoriza a cultura alimentar local e amplia a autonomia das pessoas em suas escolhas alimentares. A experiência do Sustentarea serve como exemplo de como a extensão universitária pode gerar impacto positivo na sociedade, promovendo mudanças concretas e significativas nos hábitos alimentares e na relação das pessoas com o meio ambiente.
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