PODER, ALIMENTO E RAÇA: DIÁLOGOS ENTRE CAROLINA MARIA DE JESUS E JOSUÉ DE CASTRO

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Ensaio - Oral
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Resumo

PODER, ALIMENTO E RAÇA: DIÁLOGOS ENTRE CAROLINA MARIA DE JESUS E JOSUÉ DE CASTRO

 

Autora: Jordana Soares de Araújo (Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e ex-bolsista CAPES do Programa de Educação Tutorial Direito/UFSC; [email protected])


 

RESUMO

 

“...Choveu, esfriou. E o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!” - Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de 1960.

 

Segundo o Panorama da Obesidade de Crianças e Adolescentes, divulgado em pelo Instituto Desiderata, houve um aumento da incidência da fome nos 81 últimos anos e, por consequência, verifica-se casos de desnutrição em todas as faixas etárias, abrangendo indivíduos de 0 a 19 anos de idade. No que tange a desnutrição entre meninos negros (pretos e pardos), contudo, os índices crescem de forma alarmante: foram dois pontos percentuais acima do valor identificado entre meninos brancos, com maior disparidade a partir de 2018. Em 2019 houve o ápice dessa desigualdade, com o índice em 7,5% para os meninos negros e, em 2020, o percentual foi 7,2%; por fim, em 2021, 7,4%. (DESIDERATA, 2023)

Josué de Castro, desde a década de 30, já deunuciava e confrontava as ideias preconceituosas e tendenciosas sobre a fome entre negros e indígenas. Na condição de médico e geógrafo negro, pontuou com frequência em suas pesquisas a posição social, econômica e histórica do negro e indígena brasileiro inserido num país de intensa colonização. 

Como explica Josué de Castro:

 

A maioria, porém, cerrou fileiras em favor dos preconceitos de meio e de raça e quando falavam em meio, queriam se referir ao clima, acusado de assassino e, quando falavam de raça era para mostrar seu desdém pelas manchas inferiorizantes da mestiçagem. Para estes sociólogos pseudocientificos, se o nosso povo produz pouco, se nossa organização econômica é falha e primitiva - é por culpa do clima maléfico - se nasce fraco, desenvolve-se mal e mantémse débil e raquítico - é por culpa da mistura racial, do caldeamento do branco com raças inferiores - o índio e o negro. Um bom procedimento de metermos na cabeça destes teimosos, que continuavam a dar valor científico aos artifícios decadentes de Goubineau - o homem das raças superiores e inferiores e aos continuadores das antigas lendas divulgadas na Europa, acerca dos mares efervescentes e areias em ebulição nas terras tropicais - será mostrar com documentos irrespondíveis, que os males que atacam o nosso povo também existem noutros países onde o clima não é tropical, onde, não se processou um caldeamento com a raça negra considerada inferiorizante. (CASTRO, 1937, p. 116)

 

Dados revelam realidade semelhante, presente nos livros de Carolina Maria de Jesus (Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de 1960) e de Josué de Castro (O Livro Negro da Fome de 1960, Geografia da Fome de 1984, entre outros), escrachando que o Brasil mantém a sua “estrutura da fome” que se expressa de maneira atrelada à desigualdade social histórica existente no país. Ainda, compreende-se que este problema estrutural também atravessa o fator racial, pois, como afirma Josué de Castro em Geografia da Fome, de 1960: “A verdade é que a moleza do cabra de engenho, a sua fatigada lentidão não é um mal de raça, é um mal de fome. É a falta de combustível suficiente e adequado à sua máquina, que não lhe permite trabalhar senão num ritmo ronceiro e pouco produtivo.

Essa reflexão mostra como a luta contra a fome é constante e cruel, dizimando vidas no caminho e mirando seus principais alvos, os grupos em maior vulnerabilidade, encontrados à margem da sociedade.

Nesse sentido, é imprescindível que, em toda análise a partir de levantamentos de dados, busque-se o marcador social de raça, a fim de dar visibilidade aos maiores afetados por essa política de matança seletiva, com destaque para a luta das mães negras solo, que representam o maior número na posição de chefias da casa. Em contrapartida, infelizmente muitas das vezes não é possível realizar uma pesquisa completa considerando os marcadores sociais de opressão, seja pela baixa quantidade de dados, ou pela ausência deles.

Para além disso, é necessário superar uma abordagem assistencialista e compensatória que se subordina à vontade dos governantes ou ações de voluntariado. A iniciativa, participação e o controle social são características intrínsecas da elaboração e implementação de políticas públicas. Portanto, essas premissas que não podem ser negligenciadas, caso contrário, acontece a descaracterização da natureza das políticas sociais, resultando na fragilização dos direitos e na mercantilização da própria política. 

Nesse viés, em um pronunciamento muito assertivo do filósofo e jurista Sílvio de Almeida, em um vídeo da edição “Cruzos” debatendo com os convidados sobre a fome, Silvio pontuou que a fome cria a raça, e não a raça que cria a fome. Por óbvio, a fome não é uma condição da raça, pois para que exista a raça em determinadas condições, é necessário todo um processo de degradação econômica e política imputada à certos grupos da sociedade, que são politicamente interpretados como aqueles que podem ser submetidos a decisão do tipo que retira esse direito do acesso aos alimentos, assim, a própria subsistência. E isso se dá numa dimensão do direito à vida.

Os escritos de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, 10. ed. de 2016, começam no dia 15 de julho, sendo relatado que era o aniversário de Vera Eunice, a filha de Carolina. A autora queria comprar um par de sapatos para a menina, contudo, em razão do custo elevado dos alimentos, foi impedida de realizar seus desejos. Comenta, no diário, que a realidade era que todos eram escravos do custo de vida. Entretanto, Carolina encontrou um par de sapatos no lixo, lavou e remendou e deu de presente para que Vera Eunice pudesse usar.

Mais adiante, no dia 6 de maio, Carolina escreveu que “O que eu aviso aos pretendentes a politica, é que o povo não tolera a fome.”. Aos 11 de maio, Dia das Mães, a autora relata que os seus filhos estão sempre com fome e, por isso, não são exigentes no paladar. No dia 16 de maio ela amanheceu nervosa, pois queria ficar em casa mas não tinha nada para comer e se pergunta “Será que é só eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro?”. Já no dia 19 de maio, afirma acreditar que o mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, pois não conseguem dormir por deitar sem comer: “Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Tem fome.”

Em 21 de maio escreve que os políticos mudam a cada quatro anos e não acabam com a fome, sendo sua matriz nas favelas e nas casas dos operários. No mesmo dia, quando foi buscar água, avistou uma pessoa caída perto da torneira porque ontem ficou sem jantar: “É que ela está desnutrida. Os médicos que nós temos na política sabem disto.” 

Relata em 27 de maio que no Frigorífico jogaram creolina no lixo, para afastar o favelado de catar a carne para matar a fome. Nesse mesmo dia, Carolina não tomou café e sentiu-se andando meio tonta, ao que denuncia: “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer.”. Com apenas ar dentro do estômago, Carolina sentiu a boca amarga e concluiu: “já não basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino, marcou-me para passar fome”.

No dia 30 de maio perguntava-se se Deus teria pena dela e se ele sabe que existem favelas com favelados passando fome. Dia 7 de junho seus filhos tomaram café e saíram para a aula contentes porque teve café e afirma que: “Só quem passa fome é que dá valor a comida.”. E em 16 de junho Carolina interroga-se sobre o branco se dizer superior: “Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém”

O diário segue até 1º de janeiro de 1960, em que a autora escreve que acordou cedo para carregar água.

Sobre o tema da fome, um dos pontos centrais do livro Quarto de Despejo, como explicam Josimar Jesus e Rodolfo Hoffmann (2023), nas sociedades mercantis, o acesso a bens e serviços, ou seja, boa parte dos elementos que contribuem para o bem-estar, está diretamente ligada ao poder de compra de cada pessoa. Quando o contexto é brasileiro, o Estado assegura o acesso, ainda que frequentemente com qualidade inferior, a serviços essenciais como saúde e educação. Entretanto, o acesso à alimentação é fundamentalmente determinado pela capacidade financeira dos indivíduos para adquiri-la, no dilema de quem pode pagar por ela.

Os yanomamis, por exemplo, não estão morrendo de desnutrição por causa da falta de alimentos no Brasil, mas porque não têm acesso aos alimentos que são produzidos no país. Isso acontece, dentre outros fatores, porque eles não fazem parte da economia de mercado que regula a distribuição desses alimentos. Além disso, garimpeiros ilegais, que invadiram suas terras, destruíram suas fontes naturais de alimentos e água potável. (Hoffmann; Jesus, 2023).

Nesse sentido, ao explorar os escritos de Carolina de Jesus, observa-se a constância da descrição da fome atrelada à agonia não somente física mas também mental. Na mesma linha, os psicólogos Julia Mezarobba Caetano Ferreira e João Victor Silva (2021) reconhecem que é fundamental entender que a fome também deve ser vista como uma questão de saúde mental, considerando que é uma condição básica que precede outras questões humanas. As necessidades fundamentais de uma pessoa, como alimentação, higiene, segurança, moradia e sustento, devem estar minimamente asseguradas, pois a falta de qualquer um desses elementos já pode causar sofrimento mental. Por isso, é essencial que a Psicologia atue de maneira a garantir esses fatores como condição inicial para que o debate sobre saúde mental seja possível.

Superar a reflexão sobre a responsabilidade da Psicologia em relação à fome é necessário, para considerar como a Psicologia pode contribuir para um debate mais amplo com a sociedade, entendendo que a fome não se resume à ausência de comida, mas à violação de uma série de direitos que não estão sendo garantidos.

Com esta proximidade, é notado que ambos os autores, Josué de Castro e Carolina Carolina de Jesus, são atemporais para a temática da fome, ainda muito necessários ao se pensar o Brasil. Nesse sentido, o presente resumo busca criar um ensaio que promova um diálogo entre os dois autores, relacionando não somente a fome e a pobreza, mas busca também destrinchar, seja na literatura, seja em escritos científicos nutricionais e geopolíticos, a relação estrutural entre poder, alimento e raça.

Considerando que ambas as obras foram publicadas quase na mesma época, sendo "Quarto de Despejo" lançado em 1960 pela primeira vez e "Geografia da Fome" em 1946 e, no final da década de 1950 houve a reedição deste último, em que Josué de Castro aprofunda a discussão sobre a Região do Extremo-Sul (termo utilizado no qual abarca São Paulo), circunstância que demonstra as realidades similares retratadas nos dois livros, considerando que em nível nacional as conjunturas de Carolina e Josué eram próximas.

Não por acaso, no dia 26/11/1960, em pronunciamento no Congresso Nacional Brasília, Josué de Castro homenageia Carolina Maria de Jesus ao mencionar seu livro, à época recém publicado, fazendo alusão aos representantes do povo que detém a autenticidade do conhecimento direto dos problemas brasileiros. O pronunciamento feito demonstra o potencial científico carregado pela literatura brasileira, se tornando um agregador para as pesquisas sobre insegurança alimentar no país a partir da crítica ao racismo estrutural, expandido para novas possibilidades de estudos futuros.

Por esse motivo, parte-se do ponto de que mesmo com o aumento da discussão sobre insegurança alimentar, é um dever de pesquisadores e porta-vozes do tema dar a devida importância aos marcadores sociais, para que em toda pesquisa, crítica, trabalho, debate, etc, seja abordado como o tema se expressa nos diferentes grupos étnicos-raciais, a fim de, paulatinamente, fortalecer a base científica para uma denúncia atenta a todos os tipos de opressão contra o indivíduo. Nessa lógica, busca-se fugir do senso comum de “massa de pobreza heterogênea”. A fome é nacional mas ela se materializa em corpos negros, femininos, com baixa escolaridade e que residem em localidade periféricas e rurais.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

FERREIRA, Julia Mezarobba Caetano; SILVA, João Victor. Por que a fome deve ser entendida como questão de saúde mental? (Entrevista). Conselho Regional de Psicologia do Paraná. CRP-PR, 2021. Disponível em: <https://crppr.org.br/direitos-humanos-2021/>.

HOFFMANN, Rodolfo; JESUS, Josimar Gonçalves de. Desigualdade, insegurança alimentar e fome no Brasil. Jornal da USP: 2023. Disponível em: <https://jornal.usp.br/artigos/desigualdade-inseguranca-alimentar-e-fome-no-brasil/>.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014. Disponível em: <https://dpid.cidadaopg.sp.gov.br/pde/arquivos/1623677495235~Quarto%20de%20Despejo%20-%20Maria%20Carolina%20de%20Jesus.pdf.pdf>. Acesso em: 2 de jun. de 2024.

CASTRO, Josué de. A Alimentação Brasileira à Luz da Geografia Humana. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1937.

_____. Geografia da Fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). Rio de Janeiro : Edições Antares, 1984.

DESIDERATA. Dados oficiais do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN no período de 2015 até junho de 2023. Disponível em: <https://panorama.obesidadeinfantil.org.br/&gt;. Acesso em: 2 de jun. 2024.

 

Palavras-chave: fome; literatura; raça.

Fonte de financiamento/apoio: trabalho sem financiamento/apoio.

Conflito de interesses: não há conflito de interesse a declarar.





 

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Instituições
  • 1 Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Eixo Temático
  • Efeitos da Insegurança Alimentar e Nutricional
Palavras-chave
literatura
fome
Raça