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A adaptação acadêmica é o processo que o estudante universitário vivencia ao ingressar no Ensino Superior, que é marcado por exigências de desempenho e ajustamento a novas regras e formas de interação social. Espera-se que o estudante integre suas competências emocionais, sociais e vocacionais, equilibrando as demandas externas e as necessidades pessoais (RODRÍGUEZ; LÓPEZ, 2017).
As dificuldades para lidar com a adaptação acadêmica estão relacionadas com os índices de estresse que os indivíduos vivenciam. De acordo com Rocha et al. (2019), o estresse no ambiente universitário ocorre devido a demandas que excedem os recursos dos estudantes.
Visto que a adaptação acadêmica é um processo multidimensional, é provável que existam outros fatores mediando a relação da adaptação acadêmica com o estresse, principalmente considerando a dimensão individual presente nessa relação. Um desses fatores pode ser a crença de autoeficácia, conceito fundamental e componente da Teoria Social Cognitiva (TSC) (BANDURA, 1997).
A autoeficácia é uma dedução pessoal, resultado de diversos fatores pessoais e ambientais que resultam no julgamento que o sujeito faz das suas próprias capacidades de executar ações necessárias para atingir um determinado desempenho considerado satisfatório (BANDURA, 1997). A TSC defende que fatores externos, como condições sociais e estruturas educacionais não afetam o comportamento humano diretamente, mas sim através das crenças de autoeficácia (PAJARES, 2002). Supondo-se, então, que crenças pessoais e de autoeficácia podem ter um papel na distinção do que configura uma ameaça estressora no ambiente acadêmico (ROCHA et al., 2019), é possível que tenham um papel mediador na relação do estresse com a adaptação acadêmica.
Outro fator que apresenta relação com a adaptação e com as crenças de autoeficácia, são as habilidades sociais (HS) que são comportamentos sociais valorizados em determinado contexto cultural, rendendo resultados favoráveis para o indivíduo e seu ambiente. As HS podem ser consideradas, na maioria dos casos, transformativas do ambiente, principalmente por meio daquelas mais específicas, como a assertividade ou a capacidade de liderança (DEL PRETTE, Z.; DEL PRETTE, 2010).
Durante o processo de adaptação acadêmica é esperado que o estudante aprenda comportamentos acadêmicos e sociais por meio da observação dos colegas, dos professores e das consequências de seus próprios comportamentos (SOARES; SEABRA; GOMES, 2014). Pode-se supor que considerando as HS como cruciais no comportamento acadêmico e a autoeficácia como elemento envolvido na motivação e persistência do estudante, as HS teriam potencial para exercerem um papel mediador entre a autoeficácia e a adaptação acadêmica, ao direcionarem os esforços dos estudantes para determinados comportamentos considerados socialmente competentes.
Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivos: 1) verificar se existe correlação significativa entre as variáveis adaptação acadêmica, estresse, autoeficácia e HS, 2) verificar se as variáveis autoeficácia e HS podem mediar a relação entre o estresse e a adaptação acadêmica, 3) verificar se as HS podem mediar a relação entre a autoeficácia e a adaptação acadêmica.
Participaram 606 estudantes universitários, com idade média de 23,3 anos (DP = 0,3). Eram 73,2% do sexo feminino, 25,9% do sexo masculino e 0,9% preferiram não responder. No que se refere ao tipo de instituição, 81,2% eram de universidades públicas e 18,8% de universidades privadas.
Os instrumentos utilizados foram o Questionário de Adaptação ao Ensino Superior (ARAÚJO et al., 2014); a Escala de Autoeficácia na Formação Superior (POLYDORO; GUERREIRO-CASANOVA, 2010); O Questionário de Habilidades Sociais (CABALLO; SALAZAR, 2017) e a Escala de Estresse Acadêmico (FREIRES et al., 2018).
A aplicação dos questionários aconteceu em formato online. Todos os participantes concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Foi utilizada correlação de Pearson para avaliar correlação entre as variáveis. Foram realizadas análises de mediação simples, baseadas em regressão logística, usando a sintaxe e macro para SPSS. Para que a hipótese de mediação seja comprovada, é necessário que o efeito indireto seja significativo.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética sob nº 42548720.3.0000.5282.
Foi realizado o teste de correlação de Pearson, no qual foram encontradas correlações significativas (p<0,001) positivas entre as variáveis adaptação acadêmica, autoeficácia e HS e negativas entre o estresse e as demais variáveis.
Confirmou-se que a autoeficácia pode exercer papel mediador na relação do estresse com a adaptação acadêmica. O efeito do estresse na adaptação acadêmica com a presença da mediadora foi menor do que sem ela, ou seja, parte do impacto (37%) do estresse na adaptação acadêmica pode ser explicado pela variável mediadora autoeficácia. Observa-se também que o efeito indireto foi significativo (p < 0,001).
Em seguida, confirmou-se que as HS podem mediar o efeito do estresse na adaptação acadêmica. A presença das HS reduziu o impacto do estresse na adaptação acadêmica e teve efeito indireto significativo (p < 0,001). O efeito mediado foi de 9%.
Por fim, verificou-se que as HS não foram capazes de mediar a relação entre autoeficácia e adaptação acadêmica. O efeito indireto não pôde ser considerado significativo (p > 0,05). Entretanto, observou-se que a autoeficácia tem poder de mediação total no impacto das HS na adaptação acadêmica. Nesse caso, o efeito das HS na adaptação acadêmica foi eliminado com a presença da autoeficácia, caracterizando uma mediação total (86%), ou seja, pode-se afirmar que a significância do impacto das HS na adaptação acadêmica pode ser explicado pela autoeficácia, visto que o efeito indireto foi significativo (p < 0,001) e o efeito sem a presença da mediadora deixou de ser significativo (p > 0,05).
Considerando os resultados referentes aos papéis mediadores da autoeficácia e das HS no impacto do estresse na adaptação acadêmica, obtém-se dois pontos fundamentais: 1) a autoeficácia e as HS foram mediadoras desse impacto; 2) a autoeficácia mediou o impacto das HS na adaptação acadêmica. Esses resultados vão ao encontro do que Rocha et al. (2019) afirmam; que os estudantes podem ser capazes de reavaliar o que eles entendem como ameaça levando em consideração seu senso de autoeficácia e são capazes de enfrentar uma condição estressora contando com suas próprias habilidades.
Em conclusão, considerando a noção de que, para a TSC de Bandura (1997), fatores externos não afetam o comportamento diretamente e sim através das crenças de autoeficácia (PAJARES, 2002) a autoeficácia pode se apresentar como mediadora não só do impacto do estresse na adaptação acadêmica, como também do impacto das HS na adaptação acadêmica, sinalizando a importância da autoeficácia no modelo.
No presente estudo observou-se o papel mediador que as crenças de autoeficácia e que as HS apresentam no impacto do estresse na adaptação acadêmica. Revelou-se também a importância da autoeficácia no impacto das HS na adaptação acadêmica. Com isso, espera-se que seja possível o desenvolvimento de intervenções práticas visando a discussão e elaboração dessas variáveis.
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