Por uma análise d'O Discurso Cinematográfico: uma aproximação do tensionamento entre os conceitos de transparência e opacidade na análise de discurso e na teoria do cinema de Ismail Xavier

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  • Tipo de apresentação: Trabalho
  • Eixo temático: ARTES
  • Palavras chaves: Ismail Xavier; Transparência; Opacidade;
  • 1 Unicamp

Por uma análise d'O Discurso Cinematográfico: uma aproximação do tensionamento entre os conceitos de transparência e opacidade na análise de discurso e na teoria do cinema de Ismail Xavier

LUCAS MANUEL MAZUQUIERI REIS

UNICAMP

Resumo

Essa pesquisa parte da hipótese de que existe uma possibilidade de aproximação entre o uso dos conceitos de transparência e opacidade no livro "O discurso cinematográfico", de Ismail Xavier, e nas práticas da análise de discurso materialista (AD), em especial aquelas de linha pêcheuxiana. Para verificar a validade desta proposição buscamos traçar linhas de relação entre o uso desse binômio na obra de Xavier e na AD, visando compreender melhor quais as semelhanças e disjunções no uso dos conceitos. Para tanto, partimos de uma genealogia dos conceitos de transparência e opacidade, realizada com base em escritos do campo dos Estudos Críticos de Transparência. Em seguida, buscamos apresentar os sentidos que estes conceitos (e seus tensionamentos) adquirem dentro da Análise de Discurso, mobilizando para tanto textos de Michel Pêcheux, Jacqueline Authier-Revuz e Eni Orlandi, nesta seara também recorremos aos escritos de Mikhail Bakhtin e dos autores do círculo de Bakhtin - em especial Volóchinov -, que realizaram uma crítica da transparência da linguagem particularmente influente na AD. Por fim, partimos dos dados recolhidos nas fases anteriores da pesquisa para aproximar e contrastar o uso desses conceitos n’O discurso cinematográfico e na AD, apontando quais as convergências e divergências na aplicação destas noções em dois campos diferentes.

Apoio/Financiamento da Pesquisa: FAPESP

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LUCAS MANUEL MAZUQUIERI REIS

Olá Ingrid! Primeiramente, obrigado pelos elogios e pela ótima pergunta! Pretendo dar continuidade a minha proposta sim, mas, por enquanto, em menor escala; por exemplo, estou planejando para ano que vem um artigo sobre a operação desses conceitos na teoria da alegoria, acho que seria interessante pensar como a metodologia apresentada nesse livro é trabalhada nessa que é uma das principais contribuições teóricas do autor aos estudos de cinema, especialmente considerando que a polissemia da opacidade é especialmente trabalhada em uma revisão da teoria da alegoria publicada pelo autor em 2012 ("A alegoria segundo a tradição: retrospecto").

Também pretendo partir para estudos de caso com base na pesquisa. Sendo sincero, a base teórica que desenvolvi ao longo do percurso acabou sendo muito útil para meus últimos trabalhos, me permitindo pensar com ambivalência as relações entre representação e materialidade que atravessam todo discurso. Posso destacar ainda dois estudos de caso no qual desenvolvo, junto aos objetos, reflexões que tem por base minha pesquisa: um deles é meu projeto de monografia para conclusão de curso, no qual me propus a analisar a encenação de dois filmes muito distintos de Douglas Sirk pensando como suas imagens problematizam as relações entre transparência e opacidade (mobilizando aqui também as reflexões de Xavier sobre mise-en-scène apresentadas em "O olhar e a cena"); outro deles é o artigo e a comunicação oral que estou desenvolvendo para a 3ª Jornada Virtual Internacional em Pesquisa Científica, analiso neste trabalho um filme de Agnès Varda pensando a constituição de seu discurso cinematográfico para além da unidade do filme (ponto importante da argumentação de Xavier no livro) e a opacidade das imagens como qualidade material que provém a forma de olhar (retomo aqui as reflexões sobre a opacidade como espessura que apresentei no congresso, bem como a noção da opacidade como modeladora do olhar que trabalhei, a partir de Emmanuel Alloa, em meus relatórios e no artigo "Pensar a transparência, refletir a opacidade: tautologia e transmissividade na série Hoppe, de Mariano Klautau Filho").

Novamente, muito obrigado pelas perguntas!

Autor

LUCAS MANUEL MAZUQUIERI REIS

Muito obrigado pelo comentário, Giovana! Acredito muito que o embasamento conceitual na pesquisa científica sobre cinema é um ponto essencial para que possamos aprender a olhar melhor para os nossos objetos, fico agradecido pelo reconhecimento!

Autor

LUCAS MANUEL MAZUQUIERI REIS

Oi Ilda! Primeiramente obrigado pela pergunta, é um tópico que eu considero super importante de comentar. Sobre o impacto dessa compreensão na análise fílmica e na crítica de arte, acho que a reconsideração sobre a operação desses conceitos impacta diretamente a forma de trabalhar com os objetos porque, como aponta Emmanuel Alloa, "transparência" e "opacidade" costumam ser consideradas em vários campos artísticos como categorias paradigmáticas de classificação e consignação de obras. Uma das coisas que me atraiu no estudo epistemológico do livro de Ismail Xavier foi justamente o fato de que em vários trabalhos contemporâneos de análise fílmica eu notava que os autores mobilizavam essa obra para realizar uma separação radical entre filmes.

Em minha opinião, isso gera dois problemas, que tentei trabalhar na pesquisa: primeiramente, esse uso dicotômico dos conceitos não está de acordo com as propostas da obra citada, que aponta justamente que eles são falsas dicotomias; em segundo lugar, e o mais importante para mim, esse uso dicotômico restringe em muito certas possibilidades de análise, pois a maioria dos objetos não cabem plenamente no campo delimitado por essas separações (trabalhei um pouco isso no meu artigo a ser publicado nos Anais do Intercom, "Contrastes Estruturantes"), modos de operação discursiva transparente e opaca podem se apresentar em uma mesma cena, por exemplo.

É o que notamos em trabalhos de cineastas que operavam de forma reflexiva dentro do modelo clássico - como Douglas Sirk, Orson Welles, John Ford, Alfred Hitchcock - e em obras do cinema contemporâneo em que é mantida uma certa absorção narrativa mas também se encontram procedimentos reflexivos opacificantes que problematizam o local do olhar - "Great Freedom", de Sebastian Meisel, lançado este ano em Cannes é um excelente exemplo. Acredito que a compreensão desses conceitos como interligados nas práticas discursivas poderia evitar classificações dicotômicas e abrir possibilidades de leitura mais complexas e adensadas sobre como certos objetos que operam (é o que eu gosto de chamar de "abertura analítica", trato disso no artigo do Intercom também).

Pensei em vários casos concretos durante a pesquisa, inclusive em objetos fora da teoria do cinema. Os filmes de Sirk, que citei acima, foram essenciais para esse processo, desenvolvi análises de vários deles enquanto elaborava o relatório e todos me ajudaram a compreender como os modos de operação discursivo podem estar atrelados. Também escrevi um artigo chamado "Pensar a transparência, refletir a opacidade", publicado na revista Ars esse ano, que considero ter sido um grande ponto de virada na minha pesquisa: nesse texto, tentei exercitar uma utilização ambivalente dos conceitos de transparência e opacidade na análise de uma série de fotografias. Esse foi um passo decisivo da minha pesquisa porque coloquei a minha investigação teórica à prova no corpo-a-corpo com os objetos; pensando com as imagens eu pude então realizar uma reavaliação epistemológica do que havia produzido desde então, desenvolvendo formas teóricas de trabalhar as relações de tensão e interdependência entre a transparência e a opacidade.

Novamente, muito obrigado pela pela pergunta! Se tiver mais questões será um prazer respondê-las!

Maria Ilda Trigo

Obrigada pela resposta, Lucas! Vou ler o artigo da ars. Depois que sair o da intercom, dá um toque, ok? Tenho bastante interesse nesse tema.

Autor

LUCAS MANUEL MAZUQUIERI REIS

Laura, muito obrigado pelos elogios e pela atenção ao trabalho! Muitas das reflexões sobre materialidade que eu trago aqui não teriam sido possíveis sem as nossas interlocuções e debates sobre nossos projetos, é sempre um prazer pensar com você e contar com seus comentários e contribuições! Novamente, muito obrigado!