Representação das Trabalhadoras Sexuais: RedTraSex e Red Umbrella Fund

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Detalhes
  • Tipo de apresentação: Simpósio Temático
  • Eixo temático: ST36 - ENUNCIAÇÃO, CORPORALIDADE E NOVAS MODALIDADES DE PROTESTO
  • Palavras chaves: Mediação Institucional. Porta-voz. Representação. Trabalhadores Sexuais;
  • 1 Universidade Estadual de Campinas

Representação das Trabalhadoras Sexuais: RedTraSex e Red Umbrella Fund

Maria Fernanda Moreira

Universidade Estadual de Campinas

Resumo
Desde o final do século XX as representações possíveis para os trabalhadores sexuais se alteraram. A partir da inscrição na memória social e da circulação da voz dos profissionais do sexo com Legitimidade, atuando como protagonistas e narradores de suas próprias histórias, sentidos vitimistas foram desestabilizados (RIBEIRO, 2020). Somado a isso o trabalho sexual se apresentou como um fator de organização para mulheres, homens e transgêneros em diferentes partes do mundo (MAZZARIOL, 1976; PEREIRA, 2002; PISCITELLI, 2007; SKACKAUSKAS, 2014). Neste trabalho pesquiso como, inscritos em diferentes territorialidades, prostitutas, garotas de programa, acompanhantes, michês, strippers, massagistas, dominatrixes e muitos outros profissionais do sexo vivenciaram essa identidade em sua dimensão subjetiva singular e a relacionaram a uma identificação coletiva, colocando em circulação denúncias e demandas específicas.
  • A partir de uma pluralidade de posições e de experiências, quais foram as distintas imagens que se desenharam para os trabalhadores sexuais nessa última década? Quem se inscreveu como representante, o que diz, como isso se mostra?
  • Organizados em instituições ou articulados a partir de enunciações individuais, como as diferentes vozes constróem textualmente e imageticamente representações coletivas? Através de quais processos as vozes individuais se coletivizam e passam a formar um mosaico sobre o qual se assenta a ideia de representatividade?
Para responder essas perguntas analisarei dois livros “La Revolución de las Trabajadoras Sexuales: 20 anõs de organización de la RedTraSex de Latinoamérica y el Caribe” de 2017 e “United under a Red Umbrella: Sex work around the world” de 2018. O primeiro foi publicado por uma rede de trabalhadoras sexuais da América Latina e do Caribe, fundada em 1987, e o segundo foi produzido por uma rede de financiamento de projetos para profissionais do sexo situada na Europa e fundada em 2012. A partir de dispositivos teóricos e analíticos da Análise de Discurso (CONEIN, 1981; MODESTO, 2018; ORLANDI, 1997; 1999; 2006, 2008; PÊCHEUX, 1975, 1990; ZOPPI-FONTANA, 2002; 2005, 2014, 2019) realizarei uma comparação entre eles. Com o objetivo de chegar em dois modos distintos de enunciação apresentarei como se articulam as diferentes figuras de porta-voz nestes materiais. PALAVRAS-CHAVE: Mediação Institucional. Porta-voz. Trabalhadores Sexuais. América Latina. Redes de Representação.
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Autor

Maria Fernanda Moreira

Oi, Júlia! Muito obrigada pela escuta e pelo comentário! Fico muito feliz com sua interlocução! Gostei muito da sua resposta no seu mural e da sua pergunta aqui tb. Ela é bem relevante porque tem a ver com o funcionamento da figura do porta-voz. Não consegui trabalhar bem essa parte nessa apresentação, mas pontuei que conforme Modesto (2018) diz respeito também ao modo de acesso, seleção e organização dos testemunhos. Meu acesso a ambos se deu através do trabalho conjunto com a Associação Mulheres Guerreiras, organização de profissionais do sexo do Jardim Itatinga, com sede em Campinas. Atuei em parceria com essa instituição de 2014 a 2016 como extensionista universitária da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e de 2017 a 2019 como assistente de projetos.  O material da Red Umbrella me chegou em mãos em outubro de 2018. Foi um presente dado pelo staff do fundo de financiamento com sede na Holanda que chegou até nós via participação de um dos integrantes da Associação em evento oficial desta rede. Me interessei por ele especificamente porque investiam bastante esforço argumentativo em trazer diferentes imagens, supostamente globais, que indicavam as vozes e imagens que as trabalhadoras e trabalhadores sexuais têm na atualidade, colocando em circulação via instituição novas representações dos sujeitos que se prostituem e fazem desta atividade a plataforma política de reivindicação de direitos trabalhistas. A seleção eu fiz tentando traçar um paralelo entre as representações do centro e da periferia, do Norte-Global e do Sul-Global, pensando em quais novas figuras seriam hoje possíveis para trabalhadoras sexuais. Através do trabalho com a Associação Mulheres Guerreiras tive contato com diversas redes, a exemplo do Brasil com três delas: a Rede Brasileira de Prostitutas, a Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais e a Articulação Norte-Nordeste de Profissionais do Sexo. Mas não encontrei publicação delas. Encontrei materialidades audiovisuais que exigiam outra forma de análise. No próximo livro do Mulheres em Discurso, instigada pela ausência de documentos brasileiros que historicizam o movimento, me questionei sobre o que era necessário para produzir a inscrição de um acontecimento na memória coletiva.   Parti então para o site da RedTraSex, uma rede latino-americana da qual eu da existência, mas nunca havíamos nem nos encontrado, nem falado por email ou telefone. O site me impressionou com o volume, com a qualidade e com o rico caráter historiográfico que os materiais que puderam se inscrever e circular traziam. Assim, entre manuais, relatórios, boletins, atas, escolhi um dos livros que trabalhassem a história da organização e do movimento. Estabelecido esse recorte realizei alguns trabalhos durante as disciplinas da pós-graduação para me aproximar dele com uma visão analítica. Discorri sobre as assinaturas em livros institucionais e também dos logotipos de cada uma das redes. A partir dessa entrada comecei a pensar na cena enunciativa. Enquanto o material da RedTraSex, escrito majoritariamente em primeira pessoa no singular e no plural, costurado pelo tempo verbal no passado e sustentada também em pequenas entrevistas dedica o livro “para as revolucionárias do futuro” e escreve para “que o mundo saiba que um grupo de mulheres extremamente discriminadas, estigmatizadas, consideradas o pior da sociedade alguma vez nos reunimos e nos reconhecemos uma na outra”. Já o material da Red Umbrella parte do retrato de uma ex trabalhadora sexual retratando contextos similares ao seu, mas também outros diferentes e “espera que esse livro ajude o leitor a entender melhor o que as próprias trabalhadoras sexuais vivenciam e a pensar sobre suas condições e sobre o que gostariam de ver mudado”. Você acha que a aposta de análise na direção argumentativa e no modo de enunciação indica bastante coisa? Pensei que mais para frente dá pra relacionar isso com as Formações Discursivas... mas não sei ainda como não essencializar cada um dos livros ou (por extensão) cada uma das redes considerando tudo do primeiro material em uma categoria e tudo do segundo em outra... Fico intrigada de rotular cada um com um nome e assim deixar Vamos nos falando!! Beijão <3
Autor

Maria Fernanda Moreira

Oi, professora Ana Josefina Ferrari! Em primeiro lugar, muito obrigada pelo aceite de meu trabalho neste simpósio que visa discutir enunciação, corporalidade e novas formas de protesto. Muitíssimo obrigada também pela escuta e pelo comentário! De fato, a figura do porta-voz é muito produtiva, né? Esse livro da Mónica me marca em diferentes partes: da rua à sacada, o objeto audiovisual como lugar de memória, os processos contraditórios de identificação e de diferenciação líder-povo, a palavra delegada e a palavra fundante... Espero conseguir dar conta de uma descrição à altura! Hahaha Sobre o texto de Mari: anotado!! Vou atrás. Sobre os lugares do qual essas falas surgem... De fato, as significações são muito diferentes e os lugares sociais que se imbricam são altamente dissimétricos. Por isso vale um esforço descritivo em relação ao lugar de enunciação dessas vozes e em como esse porta-voz se divide... o quanto o locutor se aproxima de quem é representado, das entrevistadas, das personagens que fizeram parte dessa história e o quanto o locutor se afasta e busca retratar a história de outras pessoas. Pessoas que precisam de alguém que lute por elas – e através do qual a condição de semelhante é agenciado como argumento para produção de efeitos de testemunhos qualificados, verdadeiros, éticos(?) ou sensíveis à causa. Neste percurso trabalhando com o discurso do Movimento das Trabalhadoras Sexuais vi que muito do que existe não se inscreve. Muitas situações dramáticas de violência ou de luta contra violência contra este grupo social deixa ainda mais sublinhado como esse é um discurso que se inscreve no campo do limite da resistência. O estigma existe e exerce forças. As condições de produção são marcadas por políticas de silenciamento, de execução e perseguição. As condições de emergência de circulação e a possibilidade de ser considerado verdadeiro, apto, autorizado enfrentaram e enfrentam muito antagonismo. E como se trata de um tema diacrônico, polêmico, controverso não vem aqui sem múltiplas conexões e contradições. Vou olhar com atenção para o viés católico latino-americano hispano falante... não sei quase nada sobre isso, vou me atentar. No Brasil sei que tivemos a Pastoral da Mulher Marginalizada gestando o movimento brasileiro de prostitutas no final dos anos 90. Época em que o embate representante de ONG x líder pertencente ao grupo das prostitutas se colocou e cindiu o grupo. Mesmo momento em que a Rede Brasileira de Prostitutas no Brasil e a RedTraSex na Argentina fundaram-se. De imediato consigo dizer que vejo efeitos de diferentes dominâncias em cada um deles, como você trouxe: geográfico, histórico, político... adicionaria: econômico... racial, etário, que resulta nessa visão [e nessa realidade] distinta entre o norte global e o sul global possibilitando inclusive a circulação de talvez pelo menos 2 conjuntos argumentativos: 1 liberal, assentada na ideia do sujeito livre dono de sua vontade que decide por si, e 1 conservador que em geral desqualifica o dizer do outro e o deslegitima, sendo este outro uma trabalhadora sexual ou algo que a represente. Não sei se só com este material poderíamos fazer esta generalização para a perspectiva do norte e do sul, mas acredito que podem nos dar pistas importantes para essa caracterização... Afinal, não deixam de ser pequenas amostras do que se formula e circula...   Muito obrigada pela interlocução, Ana! Beijão!!