Baixas evidências, alta relevância: protocolo do Instituto Nacional de Câncer para controle das feridas neoplásicas malignas
Introdução: Percebe-se empiricamente que, no cenário assistencial brasileiro, os avanços nas pesquisas nacionais e internacionais não têm sido incorporados na prática assistencial diária. A falta de preparo dos profissionais assistenciais a respeito do melhor cuidado amparado por pesquisas é um dos fatores que incorre na falta de diretrizes clínicas com recomendações geradas a partir da literatura1. De outra forma a falta de pesquisas para o controle tópico de sinais e sintomas das feridas neoplásicas malignas (FNM) é um dos principais desafios clínicos da enfermagem de cuidados paliativos em todas as Américas2-4. As feridas neoplásicas malignas (FNM) são decorrentes do avanço do câncer sobre as camadas da pele até o rompimento do epitélio tegumentar. E evoluem para processo de degeneração ocasionando dor, sangramento, secreção e odor da parte do corpo onde o tumor maligno se tornou exposto3. Sucessivas revisões de literatura desenvolvidas por pesquisadores brasileiros mostram que a falta de evidências para o controle dos sinais e sintomas dessas feridas constituem o principal desafio para os profissionais de saúde, destacando a equipe de enfermagem. No inicio desse novo século essa problemática foi uma das preocupações assistenciais da equipe de profissionais de saúde da unidade de cuidados paliativos do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A enfermagem liderou a elaboração e implantação de um protocolo clínico baseado em evidências científicas disponíveis, porém de fraca consistência5. Essa experiência exemplifica a importância da organização do cuidado amparado no consenso clínico quando há falta de fortes evidências para a sustentação das práticas de saúde instituídas.
Objetivo: apresentar relato de experiência da elaboração e implantação de um protocolo de assistência aos pacientes acometidos por FNM destacando o debate clínico como agente modulador da incorporação das baixas evidências de pesquisas.
Metodologia: relato de experiência que dividiu as ações executadas em 10 passos considerando as estratégias para a obtenção das evidências científicas até a implementação das práticas decorrentes da pesquisa e do debate clínico.
Resultados: a revisão de literatura identificou: denominação e conceitos, algoritmo clínico, medidas de controle tópico, porém de baixa evidência, com fraca recomendação. O debate clínico permitiu: elaboração de escala de odor, definição das formas de controle tópico dos sinais e sintomas, definição da responsabilidade da enfermeira; ações de cuidados básicos e específicos, fluxo de encaminhamento dos pacientes aos demais profissionais da equipe, inclusão do ensino e educação de pacientes e seus familiares/cuidadores. Em 2009 a implantação do protocolo implicou na criação de indicadores institucionais, publicação de diretrizes clínicas e atualmente encontra-se em fase de atualização de conteúdo técnico-científico.
Conclusões: o trabalho da enfermeira como líder na síntese e transferência de evidências é desgastante e requer forte resiliência frente à falta de evidências robustas. O debate e o consenso clínico institucional são essenciais para modular a incorporação dos resultados das pesquisas e a implementação de práticas oriundas de pesquisas de baixa evidência, mas de alta relevância na prática clínica quando há ausência ou escassez de pesquisas que forneçam evidências mais robustas.