Rumo a uma práxis terapêutica fenomenológica
Embora a psicopatologia fenomenológica seja considerada um campo científico básico para a psiquiatria, as consequências específicas práticas de suas contribuições ainda permanecem vastamente inexploradas. A clínica psiquiátrica ainda se fundamenta prioritariamente em categorias diagnósticas semiológicas, cuja fundamentação epistemológica não leva em conta os avanços da psicopatologia fenomenológica. O objetivo deste trabalho é apresentar as diretrizes de uma práxis psiquiátrica fundamentada em princípios antropofenomenológicos. O autor considera que tal práxis é capaz de absorver todos os aportes tecnológicos das neurociências e das terapias interpessoais, sintetizando-os na construção e execução de um projeto terapêutico existencial singular, que é o objetivo último de todo tratamento.
Os princípios antropofenomenológicos são três: a transformação contínua da personalidade, a proporcionalidade das condições de possibilidade das vivências e a singularidade da inserção da essência de cada fenômeno na consciência. Três consequências diretas da assunção desses princípios podem ser observadas na práxis. Em primeiro lugar, a terapêutica deve levar em conta o sentido existencial temporal de uma patologia ou fenômeno patológico. A mesma experiência patológica apresenta sentido existencial diverso, de acordo com o momento da temporalidade biográfica na qual ocorre e, por isso, exige medidas terapêuticas distintas. Em segundo lugar, deve-se levar em consideração que todo fenômeno patológico origina-se do enrijecimento da vida em um estado de desproporção antropológica. Portanto, toda terapêutica deve ser orientada para a retomada, por meio de estratégias terapêuticas psicológicas e biológicas, de um movimento dialético entre proporção e desproporção antropológica. O desafio para o psiquiatra consiste em encontrar a proporção e a pertinência de cada estratégia terapêutica.
Por fim, é imprescindível que as essências das categorias diagnósticas utilizadas pelo psicopatologista - ou seja, seus a priori científicos - sejam identificadas em sua expressão a posteriori em cada consciência individual. O diagnóstico de uma patologia que não leve em conta a totalidade da experiência deforma-se em uma abstração puramente nominal. Uma terapêutica fenomenológica deve levar em consideração o sentido global da experiência patológica e procurar identificar, a partir disso, o modo pelo qual a patologia deve ser enfrentada. Exemplos clínicos serão dados para ilustrar as teses do trabalho.