Memória, além da mera função cognitiva
Este trabalho tem como objetivo levantar discussões sobre as definições de memória, não só através do viés psíquico ou como função cognitiva isolada, mas diante de uma perspectiva fenomenológica e dar ênfase a importância dessa análise.
Ícone na área da neurociência e memória, Ivan Izquierdo define memória como “aquisição de informações provenientes de dentro ou fora do indivíduo, conservações de informações ou eventuais evocações de informações”. São muitas suas contribuições e descobertas nessa área, porém em uma perspectiva fenomenológica não é possível analisar a memória como um único fenômeno isolado. Um prova clássica é a associação deste fenômeno e da forma como ele se dá conforme a afetividade do indivíduo. Merleau-Ponty já relatou a impossibilidade de se realizar uma époché completa, assim, inviabilizando a análise desses fenômenos separadamente.
Pode-se verificar a expressão da memória em animais primitivos no sentido de algo que possibilita a habitualidade e a aprendizagem de certos comportamentos. No entanto, a memória também contempla algo singular que é próprio do homem com espécie. A memória possibilita algo fundamental. Ela possibilita o encadeamento das estases temporais passado, presente e futuro. E, dessa forma, possibilita a construção de narrativas, de biografias.
A partir disso, pode-se hipotetizar o que ocorre em estados demências e nas amnésias dissociativos do histéricos. Pensar apenas em déficits de memória é insuficiente para compreender o que se passa psicopatologicamente.
Para Ricoeur narrativas são “histórias (ainda) não narradas”. Santo Agostinho também remete uma forte importância à memória e à expectativa criada em suas aporias.
Se levarmos em consideração a memória apenas como uma função cognitiva percebemos o quão raso ela se torna comparada a uma perspectiva fenomenológica / antropológica.