DA CLÍNICA DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO À EXUBERÂNCIA PSICOPATOLÓGICA
O objetivo deste trabalho é ressaltar a exuberância psicopatológica na clínica de mulheres vítimas da violência de gênero. A escolha do tema Justifica-se na medida que o assunto é pouco estudado e minimizado pelas políticas públicas de saúde mental em nosso país. A partir da escuta clínica, em um serviço referência para mulheres violentadas, na cidade de Belo Horizonte (MG), a autora discute a exacerbação dos fenômenos psicopatológicos e a importância terapêutica das intervenções feitas por uma equipe multidisciplinar durante o acolhimento das pacientes.
As vivências traumáticas, nos casos de estupros postulam uma divisão do sujeito entre uma vida antes e uma vida depois do ato ocorrido. O medo é vivenciado não mais como uma possibilidade mas como uma sensação contínua e invasiva, capaz de paralisar, tensionar e amplificar sintomas pré existentes. A correspondência entre a intensidade das manifestações psicopatológicas e o impacto causado dependerá da organização psíquica de cada mulher violentada e da acurácia clínica do profissional responsável.
A representação traumática do agressor, seja ele de convivência familiar ou não, compromete a vida psíquica que permanece inundada pelo efeito da violência. A catalização dos fenômenos psicopatológicos ocorre pela rememoração do fato traumático e somente a transformação provocada pela palavra, além do alívio medicamentoso poderá elaborar a subjetivação necessária para a construção da saída do aprisionamento observado na clínica.
Em nosso país a violência mata mais que o câncer e a cada 11 minutos temos aproximadamente uma mulher sendo estuprada, além de ser o crime com a menor taxa de notificação no mundo. O impacto psicopatológico é devastador e infelizmente os recursos oferecidos para o acolhimento dos casos são insuficientes.
A correlação da violência e da psicopatologia torna-se não só oportuna mas fundamental.