PERCEPÇÃO DE PROFESSORES E GESTORES DA EDUCAÇÃO INFANTIL SOBRE INCLUSÃO E ALFABETIZAÇÃO DE CRIANÇAS SURDAS

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I CIEDS 2026
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Resumo

1. Introdução e Justificativa 

A educação bilíngue de crianças surdas reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua e a língua portuguesa, na modalidade escrita, como segunda língua, invertendo a lógica grafofonêmica sobre a qual se assentam os processos convencionais de alfabetização. Enquanto o letramento de crianças ouvintes se apoia na correspondência entre fonemas e grafemas, crianças surdas mobilizam a experiência visuo-espacial como via privilegiada de acesso ao conhecimento de mundo e, posteriormente, à leitura e à escrita, o que impõe rupturas com a perspectiva grafocêntrica tradicionalmente empregada nas escolas. Essa especificidade linguística e cultural torna a mediação docente decisiva, sobretudo na primeira infância, período em que se constitui a base para o desenvolvimento simbólico da criança.

Ainda que o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, regulamentador da Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, torne obrigatória a oferta de Libras nos cursos de licenciatura e pedagogia, a literatura aponta que a carga horária destinada a essa formação permanece insuficiente, o que resulta em despreparo dos profissionais diante de estudantes surdos. Some-se a isso a centralidade da família como mediadora simbólica no processo de aquisição da linguagem, à luz da perspectiva histórico-cultural, e o impacto que o atraso na apropriação da Libras pode gerar sobre o desenvolvimento cognitivo, social e linguístico da criança surda.

A escassez de pesquisas voltadas especificamente à educação de crianças surdas de 0 a 3 anos evidencia uma lacuna relevante de produção científica, que se reflete também no plano empírico das instituições de Educação Infantil. A Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021, assegura o direito à educação bilíngue para pessoas surdas no Brasil, mas sua implementação nesta etapa da escolarização ainda enfrenta desafios estruturais e pedagógicos, o que justifica investigar como professores e gestores da Educação Infantil percebem e lidam com a inclusão dessas crianças, considerando seu conhecimento sobre Libras, sua formação e as metodologias empregadas.

2. Objetivo

O objetivo geral deste estudo foi investigar a percepção e a prática de professores e gestores escolares em relação à educação de crianças surdas na Educação Infantil, com foco na formação docente, no acesso à Libras e na implementação de estratégias inclusivas. Como objetivos específicos, buscou-se: identificar se os profissionais já tiveram alunos surdos e como avaliam essa experiência; analisar seu nível de conhecimento em Libras e o acesso a formações voltadas à surdez; examinar a existência de metodologias específicas empregadas no ensino dessas crianças; avaliar a presença de iniciativas de socialização entre estudantes surdos e ouvintes; e investigar o interesse dos profissionais em ampliar seu conhecimento sobre Libras e práticas inclusivas.

3. Fundamentação Teórica 

A Libras constitui uma língua de modalidade visuo-espacial que ultrapassa a função comunicativa, operando como instrumento de construção de sentido e de conhecimento de mundo para o sujeito surdo. A estrutura morfossintática da língua portuguesa, marcada por artigos, conjunções, flexões verbais e pluralização ausentes na gramática da Libras, associada ao apoio do letramento em português nas correspondências grafofonêmicas, coloca a criança surda diante de uma ruptura com a lógica grafocêntrica da escrita, o que a leva a mobilizar hipóteses visuais próprias no processo de aprendizagem.

A perspectiva histórico-cultural situa o adulto como mediador simbólico fundamental na aquisição da linguagem pela criança, papel exercido tanto pela família quanto pela escola. Pais ouvintes de crianças surdas frequentemente vivenciam um processo de luto diante do diagnóstico, o que pode comprometer as interações comunicativas iniciais. Quando esse luto é elaborado, a família passa a investir mais efetivamente no desenvolvimento linguístico e social da criança. No ambiente escolar, a interação entre crianças surdas em diferentes estágios de apropriação da Libras favorece a passagem da imitação para a internalização do uso dos sinais, sendo a fluência docente em Libras um elemento determinante para o avanço da criança em ambas as línguas.

A utilização de recursos multimodais, imagens, vídeos e materiais gráficos, associada à Libras como base, amplia o acesso da criança surda ao português escrito e à leitura, favorecendo uma experiência educacional mais contextualizada. Crianças que ingressam tardiamente em ambientes bilíngues, sem uma base linguística consolidada em Libras, tendem a recorrer a gestos não estruturados que, embora auxiliem a comunicação básica, mostram-se insuficientes para a expressão plena do pensamento verbal, o que reforça a urgência de intervenção pedagógica qualificada já na primeira infância.

4. Metodologia

Trata-se de pesquisa descritiva, de abordagem qualiquantitativa, que investigou a percepção de professores e gestores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I sobre a educação de crianças surdas no período da primeira infância (0 a 4 anos). O estudo foi conduzido em escola regular do município de Campinas (SP), após consulta e anuência da instituição. A amostra foi constituída por 8 professores participantes (P01 a P08).

A coleta de dados se baseou em questionário estruturado, elaborado com fundamento na literatura sobre educação de surdos e inclusão escolar, aplicado por meio de entrevistas presenciais individuais, em sala privada e horário previamente acordado, com gravação de áudio. Foram excluídos profissionais em licença médica, afastados de atividades pedagógicas diretas ou sob condição psicológica que impossibilitasse sua participação. O estudo foi conduzido em conformidade com as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas e formalização da participação por meio de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

As respostas fechadas foram submetidas à análise estatística descritiva, permitindo o cálculo de frequências e percentuais. As respostas abertas foram tratadas por meio da Análise de Conteúdo proposta por Bardin (1977), em suas três etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento/interpretação dos resultados, organizadas em oito eixos temáticos construídos a partir das categorias emergentes do material transcrito.

5. Resultados e Discussões 

A totalidade dos participantes (n = 8; 100%) nunca ter tido aluno surdo matriculado em suas turmas, associado à percepção de ausência de intérpretes formais na instituição (n = 4; 50%) e à ausência de Libras como componente curricular sistemático (n = 4; 50%). Esse achado dialoga com a constatação da escassez de estudos voltados ao trabalho com crianças surdas de 0 a 3 anos, sugerindo que a baixa experiência acumulada pelas instituições investigadas. Pode se relacionar tanto a fatores demográficos quanto a uma estrutura escolar pouco preparada para essa demanda, ainda incipiente diante da Lei nº 14.191/2021.

Quanto à percepção sobre a criança surda, predominaram referências à percepção visual (n = 3; 37,5%) e à mediação da interação por outras crianças (n = 2; 25%), com relato pontual de isolamento e frustração comunicativa (n = 1; 12,5%). A barreira comunicativa foi apontada como o principal desafio enfrentado pela criança surda (n = 5; 62,5%), e a maioria das participantes (n = 7; 87,5%) reconheceu que a surdez afeta dimensões emocionais e sociais além da comunicação. Essa sensibilidade, embora coerente com a centralidade da experiência visuo-espacial discutida na literatura, mostrou-se fundada na observação cotidiana, e não em conhecimento teórico consolidado sobre a especificidade linguística da Libras.

O preparo institucional foi percebido como insuficiente por parte relevante dos participantes (n = 3; 37,5% consideraram as escolas não preparadas), havendo consenso quanto à existência de desafios institucionais (n = 8; 100%), complementados pelo reconhecimento da dimensão individual pela maioria (n = 6; 75%). Em relação ao conhecimento de Libras, 75% (n = 6) relataram domínio apenas básico, adquirido na graduação, enquanto 75% (n = 6) afirmaram nunca ter utilizado a língua em contexto pedagógico. Houve unanimidade quanto ao reconhecimento da importância de aprender Libras para o trabalho com crianças surdas (n = 8; 100%).

A maioria dos participantes (n = 7; 87,5%) relatou nunca ter recebido formação específica para o trabalho com crianças surdas, e proporção idêntica declarou desconhecer metodologias de ensino voltadas a essa população. O conceito de bilinguismo no contexto da surdez era desconhecido por 75% (n = 6) dos entrevistados, parte dos quais o associou inicialmente ao bilinguismo entre línguas orais, evidenciando que a especificidade da educação bilíngue para surdos, Libras como primeira língua e português escrito como segunda língua, não está consolidada no repertório conceitual desses profissionais, com implicações diretas sobre o risco de reprodução de abordagens grafofonêmicas inadequadas à criança surda.

Em contrapartida, o uso de recursos visuais foi amplamente reconhecido como eficaz (n = 7; 87,5%), assim como os materiais bilíngues (n = 4; 50% associaram a eficácia à integração linguística), ainda que parte desse reconhecimento tenha emergido apenas após explicação do conceito pela pesquisadora, indício de que o conhecimento não está ausente por desinteresse, mas por lacuna formativa. A insegurança relatada por 62,5% dos entrevistados (n = 5) foi justificada exclusivamente pela falta de conhecimento ou formação específica, e não por resistência à inclusão, o que reforça a natureza formativa, e não atitudinal, do problema identificado. Houve unanimidade quanto à formação e capacitação docente como estratégia central para a melhoria da inclusão (n = 8; 100%), e interesse explícito em formações futuras manifestado por 87,5% (n = 7) dos participantes, com priorização da própria Libras como conteúdo mais desejado (n = 4; 50%).

Em conjunto, os achados indicam um descompasso entre a sensibilidade dos entrevistados quanto às necessidades da criança surda e sua capacidade efetiva de agir pedagogicamente sobre elas, confirmando a hipótese de que o nível de formação dos profissionais está aquém do desejável e compromete a efetividade das práticas voltadas à inclusão, apesar da obrigatoriedade legal de formação em Libras nas licenciaturas e nos cursos de pedagogia.

6. Considerações Finais 

Os resultados confirmam, no âmbito da instituição investigada, que o conhecimento e a formação dos profissionais da Educação Infantil sobre a surdez e o uso da Libras se encontram aquém do desejável, configurando um cenário em que a ausência de experiência prática com alunos surdos coexiste com lacunas formativas expressivas. O reconhecimento unânime da importância da Libras e o interesse expressivo em formação continuada indicam, contudo, que o problema identificado é de natureza formativa, e não atitudinal, deslocando o debate sobre a inclusão do plano do convencimento para o da garantia de acesso a processos de qualificação profissional consistentes.

O estudo contribui para a Fonoaudiologia e para a Educação ao evidenciar empiricamente o descompasso entre o reconhecimento da importância da inclusão e a capacidade efetiva de promovê-la, reforçando a necessidade de investimento formativo antecedente à demanda concreta de matrícula de crianças surdas na Educação Infantil. Trata-se de pesquisa piloto, cujos resultados são preliminares: a amostra reduzida e sua vinculação a uma única instituição do município de Campinas impõem prudência interpretativa, não permitindo generalizações para outros contextos educacionais. Está prevista a ampliação da coleta de dados a outras escolas, creches e instituições de Educação Infantil do município que atendam crianças de 0 a 4 anos, incluindo agentes de educação infantil e gestores escolares já contemplados no desenho amostral original, de modo a fortalecer a consistência das análises e subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas à formação docente e à efetivação da educação bilíngue de crianças surdas na primeira infância.

 

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Instituições
  • 1 Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
Eixo Temático
  • SC 3 – Alfabetização, letramento e aquisição tardia de linguagem
Palavras-chave
Educação Infantil
Libras
Surdez
Bilinguismo
Letramento