MEMÓRIAS PLATÔNICAS: TEORIA DO CONHECIMENTO, REMINISCÊNCIA E EDUCAÇÃO MATEMÁTICA EM “A REPÚBLICA”
Este trabalho procura compreender a teoria do conhecimento, reminiscência e Educação Matemática em A República de Platão (1949) utilizando como referencial teórico-metodológico os estudos de Memória. Percorrendo Nora (1993) temos a compreensão de que nos inquietamos em estudar memórias quando elas não mais existem. Quando o apogeu da sociedade industrial aniquila o passado e não mais nos reconhecemos neste é que começamos buscar a reconstrução de suas memórias. Neste sentido, é quando não mais nos reconhecemos em Platão e em suas concepções de Conhecimento Matemático/Educação Matemática que passamos a construir memórias platônicas. Percorrer as memórias platônicas é também percorrer as memórias gregas. Memórias que Platão re-significou. Memórias que como aborda Vernant (2002) se estabelecia a partir da teoria do rio do Lethes – o rio do esquecimento. Memória é assim entendida como lembrança, como não esquecimento daquele que pouco bebe das águas do Lethes. Contudo, Platão segundo Le Goff (2003), laiciza a Memória. Torna relativamente desprendida dos mitos de origem. Torna-a atemporal. Neste jogo de Memória Platão dá sentido à sua concepção de Matemática. Ao Elaborar sua Teoria do Conhecimento Matemático elabora também sua concepção de Educação Matemática. Concepção esta, definida por Jaeguer como propaidéia: As Matemáticas como estudos humanistas que conduzem o homem a alcançar a Verdade e o Ser próprio das coisas em si mesmo. Para Platão (1949), conhecer é lembrar e memória é reminiscência. As Matemáticas estão neste jogo da lembrança que conduzem o homem ao Ser das coisas. É um jogo de Memória. Se só o trabalho mnemônico da reminiscência faz com que o homem possa alcançar a Verdade, este não o consegue se não passar pelas Matemáticas. A concepção de Educação Matemática como propaidéia só se torna, de fato, viável à análise se passar pelos estudos das memórias platônicas. Estudos de memória que passamos a construí-la a partir do presente quando o passado já não mais nos liga diretamente. Quando já não mais nos reconhecemos em Platão e sua concepção de Educação Matemática. Analisar as Memórias Platônicas é adentrar no universo da História da Educação Matemática. Se nós olhamos Platão com suspeita hoje, porém, foi sobre ele que se estabeleceu uma concepção de Educação Matemática que perduraram séculos. Matemática que, como aborda Silva (2007), é entendida como realidade objetiva fora do mundo sensível e de qualquer realidade empírica. Portanto, idealizada, distante do mundo que nos rodeia. Neste trabalho utilizamos como fonte documental a obra A República de Platão (1949), considerada como a base do pensamento platônico, estabelecendo suas principais concepções de Teoria do Conhecimento, Reminiscência e Educação Matemática. Como recorte histórico nós fazemos uma breve introdução da concepção de memória entre os gregos antigos (memória entendida pelo mito do rio do Lethes no jogo de lembrança e esquecimento) e a laicização da Memória por Platão no século V (e sua teoria da reminiscência).