Curso de Madureza – Matemática pela televisão Décadas de 1960 e 1970
O presente artigo é baseado na tese de doutorado defendida por mim em 2011, sob o mesmo título, que teve como objetivo estudar o Curso de Madureza, em específico a disciplina matemática. Esse curso foi elaborado para ser transmitido pela televisão, nas décadas de 60 e 70, com apoio da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, do Ministério da Educação e Cultura – MEC e com emissão da TV Cultura.
Neste período, o curso televisionado teve grande repercussão entre os membros da sociedade, governo e comunidade, fazendo diferença no ensino de Matemática e no desenvolvimento desta ciência. Uma vez que seguiu o direcionamento que o Governo do Estado de São Paulo implantou, mediante a regulamentação da Lei nº 9.849, de 26 de setembro de 1967, que determinava a promoção de atividades educativas e culturais, por meio do rádio e da televisão.
A finalidade deste estudo foi entender como um curso pela televisão, pode se caracterizar como escola com ou “sem” professor, proporcionando diplomas do Ensino Secundário a alunos que não frequentaram a escola no período regular a suas idades, o que corresponde atualmente ao segundo ciclo do Ensino Fundamental. Sendo que os primeiros cursos realizados a partir de 1965 contavam com uma equipe de professores que ministravam aulas em escolas tradicionais, estes desenvolviam o papel semelhante àquele da sala de aula, uma vez que os professores utilizavam os mesmos instrumentos: lousa e giz.
Para estabelecer a operação historiográfica, no sentido das interpretações e visões sobre os materiais a serem analisados, Geertz (1989, p. 13-14) ressalta que não possui uma teoria geral das culturas, mas sim uma teoria específica, própria de cada contexto cultural. Logo para construir a história do Curso de Madureza, pelo viés da história da Educação Matemática, foi necessário utilizar os procedimentos que Geertz (1989), Le Goff (1992), Chervel (1990), Chartier (1991) e Certeau (2005) recomendam.
A professora Marília Antunes Alves coordenadora do mesmo e representante Serviço de Educação e Formação pelo Rádio e Televisão – SEFORT conseguiu recursos para aprimorar este curso. E a partir de 1970, este apresentou um novo formato, com atores e equipe especializada em televisão. Dessa forma, os múltiplos recursos da televisão, como o uso de imagens, filmes, atores, a lousa verde e branca, sendo utilizada por vezes sem o apagador e sim com o recurso de aparecer ou não apenas o texto utilizado naquele determinado momento, num contexto diferenciado da sala de aula clássica, permitiria ao professor, a um conjunto de pessoas ou a uma equipe especializada, escolher e preparar cada item e as técnicas a serem proporcionados aos alunos que assistiriam e tentariam entender os conteúdos apenas pela televisão.
O apresentador da disciplina matemática foi o ator Antônio Carlos Zaratini, mais conhecido, como Carlos Zara, formado em engenharia pela Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo e professor de matemática do ensino básico. Talvez por toda essa formação que tenha sido escolhido para apresentar e ensinar matemática na televisão. Além disso, contou com uma rede de telepostos em vários municípios paulistas, ou seja, locais designados para atender às necessidades de diversas pessoas que não tinham acesso à escola ou não possuíam televisão. Os estabelecimentos comerciais como empresas e indústrias poderiam usar seus locais como telepostos, inclusive com monitores, o que permitia a seus funcionários e outras pessoas a assistirem aos cursos televisionados e completarem os estudos.
A professora Maria Lúcia Smith elaborou o conteúdo da disciplina de matemática, das teleaulas e dos fascículos disponibilizados aos alunos. Estes eram muito semelhantes, sendo que o material escrito representava o roteiro para o curso televisionado. Uma das diferenças entre esses scripts é a inclusão de exercícios nos materiais escritos, uma oportunidade para os alunos aplicarem o que tinham aprendido.
Os tópicos da disciplina de matemática do curso de Madureza se assemelham com as Sugestões para um Roteiro de Programa para a Cadeira de Matemática, publicado em 1965, no Diário Oficial, o que parece ser um exemplo a ser seguido pelas escolas da época. Os participantes do GEEM – Grupo de Estudos do Ensino de Matemática – elaboraram esta proposta, bem como os Assuntos Mínimos em 1962, outra indicação de conteúdos a serem ministrados no Ensino Secundário. O que demonstrou vestígios da influência da Matemática Moderna na configuração do Madureza. Outro sinal foi a participação dos professores Osvaldo Sangiorgi e Manhúcia Perelberg Liberman nos primeiros cursos televisionados, uma vez que eles lideraram o Movimento da Matemática Moderna no Brasil e também participaram dos primeiros cursos de Madureza televisionados. O que deixa rastros evidentes sobre o alcance da Matemática Moderna no Ensino Secundário e, ainda, conforme a Lei 5.692/1971, no denominado ensino ginasial, da 5ª a 8ª série.
A disciplina matemática configurada pela televisão teve métodos e regras próprias para trabalhar diferentes tópicos do conhecimento matemático. Dessa forma, se estabeleceu uma escola pela televisão, que existe até os dias atuais, conforme a modernidade exige.