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A Aritmética de Lourenço Filho

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Este trabalho se insere em um Projeto maior desenvolvido pelo professor Wagner Rodrigues Valente intitulado “Lourenço Filho e a Matemática da Escola Nova”. Tem por objetivo analisar a produção, circulação e apropriação dos livros de aritmética de Lourenço Filho, no período de 1930 a 1960, quando o ideário escolanovista permeava os discursos educacionais.
Como informa Valente (2012), a produção de Manoel Bergström Lourenço Filho e a quantidade de referências sobre esse educador é bastante extensa. Livros, capítulos de livros, dissertações, teses e relatórios de pesquisas, artigos em periódicos, verbetes de dicionários, depoimentos, dentre muitas outras referências foram inventariados na obra “Por Lourenço Filho: uma biobibliografia”, organizada por Carlos Monarcha e Ruy Lourenço Filho, com a colaboração de vários autores de história da educação brasileira. Essa imensa produção, no entanto, não mostra a existência de textos que tenham analisado as propostas para ensino de matemática, elaboradas por Lourenço Filho.
No âmbito das pesquisas sobre história da educação matemática Valente (2009) tratou do tema em dois estudos. O primeiro constituiu capítulo da obra “O curso de Lourenço Filho na Escola Normal do Ceará” intitulado “A Metodologia da Aritmética nas Anotações de Aulas de Lourenço Filho”, publicado em 2009, e organizado pelas historiadoras da educação Maria Helena Camara Bastos e Maria Juraci Maia Cavalcante, onde foram analisadas as anotações de alunas e das aulas de aritmética que tiveram com o educador paulista, em meados da década de 1920, em Fortaleza. Como síntese da análise realizada, chegou-se à conclusão de que a metodologia da Aritmética de Lourenço Filho, àquela altura, constituiu uma orientação para o ensino intuitivo, com materiais pedagógicos a auxiliar a tentativa de ruptura com um dos pontos-chave da cultura escolar do ler, escrever e contar: a centenária tradição de cantar de cor a tabuada (VALENTE, 2009, p. 205).
O segundo estudo realizado levou em conta o papel de Lourenço Filho na educação matemática e constituiu trabalho mais aprofundado sobre a formação matemática do professor primário em perspectiva histórica. O texto, publicado em livro, aborda no capítulo final o embate das concepções intuitivas e escolanovistas para o ensino de matemática no curso primário e tem como conclusão que as referências paulistas perdem força em âmbito nacional no final dos anos 1920, sob a influência do movimento da Escola Nova. No entanto, Valente (2010) aponta que no ensino de matemática não houve mudanças significativas rumo ao método ativo.
A partir desses dois estudos, outras questões precisam ainda ser respondidas, motivando a necessidade de realizar um estudo mais acurado sobre a produção de Lourenço Filho em termos da educação matemática. Em meio a tempos de escolanovismo, Lourenço Filho, um dos grandes educadores representantes do movimento da Escola Nova no Brasil, tem por tarefa apresentar o novo tratamento dado às matérias escolares diferentemente do modo elaborado pela vaga pedagógica anterior – o ensino intuitivo, as lições de coisas. Como sua aritmética caracterizou uma matemática escolar escolanovista? Como métodos e conteúdos relacionados aos seus textos produziram propostas para o ensino de matemática na chamada escola ativa?
A realização da pesquisa lança mão de base teórico-metodológica referenciada na História Cultural. Para o tratamento dado ao termo cultura é considerada a concepção de Roger Chartier (2007) referente às práticas ordinárias através das quais uma sociedade ou um indivíduo vivem e refletem sobre sua relação com o mundo, com os outros ou consigo mesmo, onde a noção de cultura é relacionada a um grupo e à sua vida comum de existência. Estão sendo investigadas neste trabalho questões relativas à vida cotidiana das escolas e aos significados construídos no meio escolar, ou seja, a cultura escolar, mais especificamente, a matemática escolar, com base em André Chervel, referência fundamental para o estudo das disciplinas escolares. Ao conceito de cultura escolar, conjuntamente, serão utilizadas categorias como apropriação, estratégias e táticas, vindas de teóricos como Roger Chartier e Michel de Certeau.
O desenvolvimento da pesquisa irá orientar-se, sobretudo, pelo uso de dois tipos de documentos: aqueles do Arquivo Pessoal Lourenço Filho (CPDOC-FGV) e as obras didático-pedagógicas para o ensino de matemática de autoria de Lourenço Filho, encontradas em todas as suas diferentes edições no Acervo da Editora Melhoramentos.