"Qualquer" como operador semântico
Este trabalho pretende mostrar as várias facetas do operador "qualquer" em língua portuguesa. Ele pode se comportar como operador de indefinitude (“Qualquer cachorro é fofo, mesmo um velho”), tanto para massivos quanto para itens discretos; como item de livre escolha (“Pegue qualquer brinquedo, eu pago”) (como apresentado em Vendler, 1967; Kadmon e Landman, 1993;), em distribuições sintáticas diferentes (“um N qualquer” e “qualquer N”) e suas implicações semânticas (notadamente, a interpretação de falta de qualidade presente nessas expressões) bem como apresentar uma proposta de regularização para sentenças cuja leitura, a princípio, é vista ou como dependente de contexto, ou como sendo um item de polaridade negativa (“Eu não como qualquer comida”). Nossa proposta é a de que essa interpretação é regularizável justamente levando-se em consideração todos os outros comportamentos anteriores apresentados que também são sistematizáveis e, portanto, não são originários de implicaturas ou outro tipo de informação que emerge do contexto, mas de traços que observamos no funcionamento deste item lexical. Advogamos, portanto, que este operador possui características que vão além das tratadas, até então, pela literatura, mas ampliando ligeiramente o modo de entendê-lo, podemos deixar mais completa a análise semântica feita a respeito dele.