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Odradek e espantalho: o duplo da noite e a escrita como dispersão

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Na História abreviada da literatura portátil ([1985] 2011), Vila-Matas retoma o odradek de Kafka, "ser-objeto-criatura", descrito de forma precisa, mas "justamente desta precisão [...] decorre a nebulosidade da figura de Odradek" (CINTRA, 2005, s/p), que abala o mundo de um pai de família com sua inutilidade. Em Vila-Matas, odradek nomeia o duplo negro (ou da noite sem dia de Blanchot) que habita os membros da sociedade da literatura portátil e parece ser a origem dessa literatura sem lugar, voltada para si mesma. Mas, em Praga, essa figura se complexifica, ganha corpo e se exila do escritor. Cidade de Kafka e, anacronicamente, um dos cenários do terror nazista, Praga torna a literatura portátil impossível, o que remete a Deleuze e Guattari sobre a literatura menor, eminentemente política e experimental, não portátil. Em A rainha dos cárceres da Grécia (1976), Osman Lins escreve um espantalho múltiplo e fragmentado, criado pela personagem Maria de França a partir do abandono e do terror, e que se identifica como duplo do narrador do romance, fazendo-o dispersar-se na leitura e na escrita, desconstituído de um eu inteiriço. Com esses objetos, intentamos pensar a escrita não mais como fixadora de interpretações (YUNES, 2002), mas dispersora da subjetividade.