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Literatura e figurações utópicas

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Há pouco mais de 500 anos, o termo utopia foi cunhado pelo estadista e escritor britânico Thomas More para designar, em sua narrativa ficcional, uma estrutura social considerada modelar. A denominação dessa figuração idealística não apenas fundou um gênero literário, reconhecido inclusive diacronicamente, mas também uma forma de reflexão crítica de ordem sociológica, que pode ser apreendida em diferentes formas de expressão artística ao longo dos séculos. Obviamente, as transformações socioculturais influenciaram diretamente as configurações do utopismo e a própria noção de aperfeiçoamento social. Assim, se as utopias medievais reconheciam o paraíso cristão como a única possibilidade de perfeição a ser alcançada pelo homem no pós-vida; os utopistas do Renascimento exortaram, ao reconhecerem os indivíduos como agentes históricos capazes de interferir no seu meio, a reforma das sociedades no tempo presente, tendo como parâmetro o seu contraste com um modelo ficcional. Se, por um lado, esse impulso renovador assume caráter revolucionário ao longo do século das Luzes; por outro lado, muitos românticos da segunda metade do Oitocentos produziram utopias reacionárias que problematizavam a consolidação do chamado racionalismo capitalista. A frustração com a subversão de diferentes idealizações sociais convertidas em regimes centralizadores e autoritários motivou, já na virada do século XX, o surgimento das distopias. Esses textos não apenas criticavam a realidade sincrônica de suas respectivas escrituras, mas também denunciavam a essência totalitária e normalizadora das utopias tradicionais. Além disso, é preciso reconhecer o advento de novas linguagens e novos suportes textuais, nos quais o signo do utopismo também pode ser reconhecido, como, por exemplo, o cinema e os quadrinhos. Dessa forma, o presente simpósio objetiva congregar pesquisadores interessados nas relações entre literatura e utopia, tanto em sua configuração genérica quanto em sua inserção temática em textos de diferentes categorias. Estimula-se a apresentação de trabalhos que discutam obras de diferentes épocas, arcabouços culturais e identidades nacionais, de forma comparativa ou não. Finalmente, aceita-se a submissão de análises de produções textuais de diferentes matrizes semióticas ou multissemióticas, que integrem a imaginação utópica em suas dimensões estéticas e retóricas.