64022

Lirismo, multidão e devir não humano

Favoritar este trabalho

Para Gilles Deleuze e Félix Guattari (2011) a subjetividade é sempre resultado de um agenciamento coletivo entre forças intensivas que engendram individuações, produzindo modos de vida. Toda criação enunciativa e semiótica seria antes de mais nada um conjunto polifônico, híbrido e heterogêneo, não podendo ser reduzido a uma mera fabricação egóica. Nessa perspectiva o lirismo nunca é uma entidade dotada de um “eu” mas sim de um “nós”. A composição lírica seria então uma criação de resistência micropolítica, infra e extrapessoal, como propõe Suely Rolnik (1996), que escapa as máquinas de captura e controle das instâncias normativas, produzindo sempre uma singularidade em devir, que promove o movimento para um sistema aberto, inorgânico e virtual, porém tão vital quanto a materialidade (atual), tal qual demonstrou Henri Bergson (2005). Buscamos aqui entender a afirmativa de Deleuze e Guattari (1993) de que o afecto, a composição artística, é sempre um “devir não humano do homem”, a fim de perceber como o lirismo pode ser pensado operando uma potência de multidão que escapa ao anthropos, pois não é uma imanência representável ou uma ontologia capturável, mas sim uma multiplicidade por vir, conduzindo a novas experiências políticas do comum dialogando com Antonio Negri (2007).