CINEMA E NARRATIVAS SENSÍVEIS DO COTIDIANO
O enquadramento da imagem cinematográfica é recorte de experiências de um mundo vivido, de narrativas reconhecíveis, capazes de construir sensações, apropriações afetivas e acesso as subjetividades daquele que mergulha na tela do cinema, compreendida como um “espaçam
ento tramado do olhante e do olhado, do olhante pelo olhado” (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 147). Jacques Rancière, em As distâncias do cinema, observa que “todo fragmento visual é equivalente a um segmento de linguagem que, por sua vez, é um segmento de narração” (2012, p. 66) e que sugere experiências estéticas, por meio de estratégias da ordem do sensível. Neste contexto, o cineasta transpõe para tela a história de uma sociedade, de uma época, de um indivíduo ou de um povo, onde nada é desprezível e tudo fala: “A grande regra freudiana de que não existem “detalhes” desprezíveis, de que, ao contrário, são esses detalhes que nos colocam no caminho da verdade, se inscreve na continuidade direta da revolução estética” (RANCIÈRE, 2009, p. 37). Desse modo, o simpósio pretende olhar para as narrativas cinematográficas de personagens comuns, solitárias e anônimas, que das relações com temas do cotidiano trazem questões referentes a memória, ao pertencimento, a apropriação e ao habitar da paisagem fílmica que constrói reconhecimento e identificação ao olhar e ser olhado para e pelo espectador. Pensando o cinema enquanto potência de experiências estéticas, observam-se as experiências sensíveis do sujeito, que imerso no mundo, nos afetos, nas emoções, nas relações do interno e do entorno, reconhece na tela da sala escura a manifestação de um tempo, determinado pelo seu passado, presente e, talvez, pelo desejo de futuro. Os trabalhos apresentados, neste espaço de reflexões, deverão levantar debates concernentes aos modos de olhar para as narrativas sensíveis do cotidiano, representadas na tela do cinema, proporcionando o reconhecimento e identificação daquilo que é visto/sentido aquém e além da tela, onde os resultados das políticas públicas, dos modos sensíveis de viver no mundo, são sugeridos e percebidos nos enquadramentos do cidadão anônimo, das personagens comuns, no que tange a memória, o (des) pertencimento e os afetos na produção cinematográfica, pensando nas estratégias fílmicas, no plano da expressão e do conteúdo, como forças ideológicas de identificações e disputas.