VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A FORMAÇÃO MÉDICA
A violência contra a mulher, também conceituada como violência de gênero, é caracterizada como qualquer ato que produza dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher. (VICENTE; VIEIRA, 2009) Segundo Rodrigues et al. (2016), esse tipo de violência tem sua ocorrência e manutenção pautadas na cultura patriarcal, a qual estabelece através de uma ideologia machista e sexista, uma hierarquia entre os gêneros.
A violência de gênero é um fenômeno com alta incidência e representa grande impacto negativo na vida e na saúde das mulheres. (Almeida, Machado e Silva 2013) Machado et al., (2016) constatou que profissionais de saúde, em especial o médico, não estão preparados para detectar e conduzir os casos de violência de gênero.
O objetivo deste estudo é apresentar uma pesquisa com análise crítico-reflexiva sobre a relação entre a violência de gênero e o ensino médico. Justificou-se para essa investigação o fato de que a abordagem do conteúdo “violência contra a mulher” na formação médica poderia resultar em um olhar ampliado por parte do futuro profissional, capacitando-o para lidar com o tema de forma eficiente e resolutiva.
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura que busca responder a seguinte questão: “Durante o processo de formação do médico lhe é ensinado a lidar com a violência contra a mulher?”. A procura por estudos nesta revisão foi feita na base de dados Scielo, mediante a combinação dos descritores, indexados no Decs, “violência contra a mulher AND educação em saúde”.
Os critérios de inclusão foram artigos em português, espanhol e inglês com textos disponíveis na íntegra e de livre acesso, publicados entre os anos de 2008 e 2018. Foram excluídos os artigos repetidos e os com temática destoante do objetivo pretendido. Foram encontrados 43 artigos dos quais 15 foram selecionados a partir da leitura do título. Após a leitura dos resumos, 9 artigos foram filtrados, e após a leitura do artigo na íntegra, a amostra final foi constituída de 5 estudos.
Mulheres submetidas à violência apresentam maiores índices de suicídio, abuso de drogas, distúrbios gastrointestinais, cefaleia, mialgia, dor pélvica, sofrimento psíquico dentre outros sinais e sintomas. (MACHADO et al.; 2016; e VICENTE; VIEIRA, 2009) Devido a persistência de sintomas, que não se encaixam na definição de um quadro clínico específico e a busca frequente por assistência à saúde, Machado et al. (2016) identificou que a população feminina sujeita a violência, em geral, é rotulada pelo médico como poliqueixosa e histérica, fato que inviabiliza a busca pela real causa do problema e consequente detecção da violência sofrida.
O médico tem dificuldade de abordar essa temática com a paciente devido ao fato de não saber lidar de forma adequada com o assunto, além de referir sentimento de impotência quanto a resolução da situação de violência. (Vicente e Vieira 2009) Esses fatores justificam a baixa identificação da violência contra a mulher na prática clínica.
O despreparo do médico para lidar com as questões referentes à violência de gênero se deve à falta de capacitação na sua formação acadêmica. (MACHADO et al., 2016) Pedrosa e Spink (2011) identificaram que o tema violência contra a mulher não é efetivamente abordado na graduação de medicina.
O desconhecimento sobre a violência de gênero pelos estudantes de medicina inviabiliza que estes, como profissionais, identifiquem os casos bem como realizem ações de enfretamento do casos detectados. Pedrosa e Spink (2011), identificou que as ações acerca dessa temática são heterogêneas, já que os médicos aprendem na prática a lidar com as situações de violência de gênero, e assim, cada profissional cria sua própria maneira de atendimento; alguns se solidarizam, outros não percebem a violência sofrida e alguns até acabam maltratando essas mulheres.
Ressalta-se a necessidade de capacitar acadêmicos de medicina e profissionais médicos para atuarem no atendimento das mulheres vítimas de violência, tornando-os capazes de detectar e conduzir de forma eficaz e resolutiva os casos de violência de gênero. Para isso, é necessário adicionar essa temática na matriz curricular do curso médico, seja por meio de palestras, discussões tutoriais, entrevistas padronizadas, oficinas, dentre outras.
Palavras-chave: violência de gênero; violência contra a mulher; educação em saúde; saúde da mulher.
Referências
ALMEIDA, Luana Rodrigues; SILVA, Ana Tereza Medeiros Cavalcanti; MACHADO, Liliane dos Santos. Jogos para capacitação de profissionais de saúde na atenção à violência de gênero. Revista brasileira de educação médica, Rio de Janeiro, v. 37, n. 1, p. 110-119,2013.
MACHADO, Dinair Ferreira et al. Abordagem da violência contra a mulher no ensino médico: um Relato de Experiência. Revista brasileira de educação médica, Rio de Janeiro, v. 40, n. 3, p. 511-520, 2016.
PEDROSA, Claudia Mara; SPINK, Mary Jane Paris. A violência contra mulher no cotidiano dos serviços de saúde: desafios para a formação médica. Saúde sociedade, São Paulo, v. 20, n. 1, p. 124-135, mar. 2011.
RODRIGUES, Vanda Palmarella et al. Relações familiares no contexto da violência de gênero. Texto & contexto enfermagem, Florianópolis, v. 25, n. 3, e2530015, 2016.
VICENTE, Luciana de Morais; VIEIRA, Elisabeth Meloni. O conhecimento sobre a violência de gênero entre estudantes de Medicina e médicos residentes. Revista brasileira de educação médica, Rio de Janeiro, v. 33, n. 1, p. 63-71, 2009.