RECONTANDO CONVERSAS: A TEMÁTICA ÉTNICO-RACIAL E AFRODESCENDENCIA NA FORMAÇÃO E IDENTIDADE DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA
A sociedade brasileira em que vivemos conta com o contexto multicultural acerca das contribuições do povo negro nos diferentes segmentos sociais, culturais e educacionais
Instituída em 2003, a Lei 10.639 tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica, em estabelecimentos públicos e particulares de ensino (BRASIL, 2003). Em 2008, a Lei 11.645 agregou à Lei 10.639 a temática indígena.
A aprendizagem é um tesouro que vai além das paredes da escola, para o nosso educando, representa ressignificação, descoberta e novos caminhos, com isso nós professores sempre temos novas experiências e novos conhecimentos
Se refletirmos sobre as questões de identidade e de etnia entre os educandos, como exemplifica bem a frase de Bob Marley - Enquanto a cor da pele do ser humano significar mais do que o brilho dos olhos sempre “haverá guerra”, veremos que as histórias de vida dos educandos, no discurso por vezes verbalizado em sala de aula traz para o contexto um dado importante de ressiginificação de sua identidade que está presente no convívio social dentro e fora da escola.
Penso na escola pública como um espaço destinado também a formação dos educandos, favorecendo sua inserção nas questões sociais presentes em nosso cotidiano. O universo de aprendizagem de língua estrangeira pode ser um fio condutor para esta formação, pois oferece uma gama de conhecimentos e interlocuções de um universo cultural maior.
Segundo Munanga (2000/2001) o conceito de identidade está relacionado à diversidade étnico-racial e social. Daí a necessidade de se discutir essa diversidade no âmbito escolar, para que os alunos possam ter consciência da importância e da riqueza que essa diversidade pode trazer a nossa cultura e a nossa identidade nacional, considerando que nossas escolas possuem alunos de diferentes ascendências étnico-raciais e sociais.
Tendo por base tais fatos, o intuito desta apresentação é compartilhar a experiência a respeito da discussão da temática étnico-racial na formação de professores da educação básica, uma vez que penso a escola como um espaço destinado também a formação dos educandos, favorecendo sua inserção nas questões sociais presentes em nosso cotidiano. Como foco teremos o universo do ensino-aprendizagem de língua estrangeira, fio condutor para esta formação e que oferece uma gama de conhecimentos e interlocuções com um universo cultural maior. Por meio do recontar conversas, veremos que as histórias de vida dos educandos, no discurso por vezes verbalizado em sala de aula traz para o contexto um dado importante de ressignificação de sua identidade no convívio social dentro e fora da escola, uma vez que a aprendizagem é um tesouro que vai além das paredes da escola e, para o nosso educando, representa ressignificação, descoberta e novos caminhos.
A escola precisa colocar os alunos em contato com os elementos que formam cada grupo étnico brasileiro, para que eles sejam capazes de compreender a complexidade dessas identidades e, assim, se afirmar não apenas pela cor da pele ou do cabelo, mas também por outros elementos. Apesar de os conteúdos das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana contemplarem esse esforço, ações específicas sobre a afirmação de cada identidade devem ser empreendidas nas escolas.
Abdias Nascimento (1980) partindo do modelo de organização quilombola formula uma espécie de “práxis afro-brasileira – o quilombismo”, que pode ser reconhecida nos vários tipos de organizações coletivas negras. Essa práxis afro-brasileira nascida nos quilombos, pontos de resistência ao sistema escravagista, de certa forma vai estar presente em “outros focos de resistência física e cultural” ao longo da história do negro brasileiro, como nas irmandades religiosas, clubes, terreiros, escolas de samba etc.25, desempenhando um papel relevante na sustentação da continuidade africana” (p.225). Há uma mística quilombola latente ou patente, como forma defensiva e afirmativa do negro, na sociedade brasileira. A retomada do nome Quilombo e/ou Palmares em várias organizações do passado, e ainda no presente, aponta para o significado da ação quilombola como um paradigma de organização social entre os negros brasileiros. Abdias Nascimento acrescenta ainda:
“Com efeito, o quilombismo tem se revelado fator capaz de mobilizar disciplinarmente as massas negras por causa do profundo apelo psicossocial cujas raízes estão entranhadas na história, na cultura e na vivência dos afro-brasileiros.”2 6