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GÊNERO EM DEBATE: RAP INTERSECCIONAL NO ENSINO DE HISTÓRIA

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Desde as últimas décadas do século XX, a música tem sido utilizada pelos historiadores como fonte e objeto de análise, assim como tem sido considerada pelos professores um importante instrumento pedagógico no processo de ensino-aprendizagem. A “música popular” é a que mais atrai pesquisadores e professores brasileiros, especialmente as “músicas de protesto”, as quais, além de uma “temática política”, abordam “temas relacionados à vida dos trabalhadores ou a aspectos da vida cotidiana que expressam discriminações étnicas e de gênero” (BITTENCOURT, 2004: 378-379).
No âmbito das “músicas populares”, ressaltamos a importância do rap como recurso didático no ensino de história, especialmente para tratarmos das temáticas supracitadas. Isto porque, embora tenha surgido marcado “rigoroso discurso de classe e raça”, cada vez mais “‘minorias’ como mulheres, indígenas e homossexuais vêm encontrando espaço de expressão como rappers, inserindo novas reivindicações na pauta e propondo novas elaborações estéticas” (TEPERMAN, 2015: 10-11).
A importância do rap no âmbito do processo educativo já vem sendo destacada por alguns estudiosos, que enfatizam sua “força educativa e política” (ANDRADE, 1999: 7) e chegam a defender a “inclusão curricular do rap brasileiro”, pois “muito pode ser feito em sala de aula” a partir do uso de “produções musicais contemporâneas tidas como não canônicas, como o rap, que contemplam a complexidade da(s) realidade(s) brasileira(s) de modo crítico” (FONSECA, 2015: 95).
Haja vista essa relevância do rap, tanto do ponto de vista sociocultural quanto educacional, nosso objetivo neste trabalho é apresentar algumas reflexões sobre o seu uso nos cursos de Licenciatura em História, ressaltando sua importância na formação crítica dos futuros docentes da Educação Básica, sobretudo no que diz respeito a uma perspectiva crítica em relação à realidade social – elementar para a prática tanto da docência quanto da cidadania. Para tanto, propomos o uso de composições que abordam questões de gênero em uma perspectiva interseccional, isto é, relacionadas à raça e classe.
Infelizmente, os estudos das relações de gênero foram inseridos na historiografia brasileira de maneira morosa, causando grande atraso nos debates acadêmicos e, consequentemente, na formação de professores e na prática docente. Se as relações de gênero são pouco discutidas em sala de aula, imagine sua articulação com raça e classe social, ou seja, em uma perspectiva interseccional que permita a compreensão da situação da “mulher de cor” (LUGONES, 2008: 81-82).
Nos últimos anos, as atividades das feministas negras têm se intensificado e revelado a urgência de refletir e agir em relação às violências de gênero, de raça e de classe. Algumas composições de rap podem ser utilizadas como importante recurso didático para um debate nesse sentido. A música “Negras em marcha”, por exemplo, dialoga claramente com o feminismo negro. A rapper Luana Hansen se identifica como mulher, lésbica, negra, feminista e da periferia, ou seja, sua trajetória é marcada pela interseccionalidade e sua composição é lugar de expressão dessa vivência. A partir da letra da música é possível discutir questões específicas das mulheres negras e também ampliar o debate para situações que atingem os negros das periferias, de forma mais ampla, que são os assassinatos diários e a falta de políticas públicas que assegurem o mínimo para a sobrevivência da população. Além disso, vale notar que a resistência das mulheres negras é o elemento central do rap de Luana Hansen, que tirou do silêncio negras de vários períodos históricos, estabelecendo uma espécie de identificação na qual as mesmas aparecem como fundamentais para a sua própria constituição enquanto uma ‘negra em marcha’. Ao colocar em pauta tantas mulheres silenciadas pela historiografia, a música também permite refletir sobre a própria trajetória da historiografia e suas construções narrativas.
“Mulheres Negras” é outro exemplo de composição que pode possibilitar um profícuo debate sobre a temática das lutas contra o machismo e o racismo. Composta pelo rapper Eduardo Taddeo e interpretada pela rapper Yzalú, a música traz inúmeras articulações entre passado e presente, as quais podem propiciar reflexões sobre a história do Brasil, suas violências, preconceitos e referências eurocêntricas que ainda marcam nossa realidade. Além disso, assim como a composição de Luana Hansen, os versos de Eduardo Taddeo enfatizaram a resistência das mulheres negras, mesmo diante de um cenário de tanto sofrimento e obstáculos em suas vivências cotidianas.
Tendo em vista estas observações, consideramos que o uso do rap como recurso didático nos cursos de Licenciatura em História pode contribuir para o debate sobre temáticas fundamentais para uma formação crítica de docentes e cidadãos.

ANDRADE, Elaine Nunes de (Org.). Rap e educação, rap é educação. São Paulo: Summus, 1999.
BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004.
FONSECA, Ana Silvia Andreu da. Com que currículo eu vou pro rap que você me convidou? Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n.62, p.91-111, set/dez, 2015.
HANSEN, Luana. Negras em marcha. São Paulo, 2015. Disponível em: https://soundcloud.com/luanahansen/negras-em-marcha-luana-hansen. Acessado em 14 de julho de 2018.
LUGONES, María. Colonialidad y género. Tabula Rasa, Bogotá, Colômbia, n. 9, p. 73-101, jul.-dic./2008.
TADDEO, Eduardo (Interpretação de Yzalú). Mulheres Negras. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=122kwdWN-v0. Acessado em 14 de julho de 2018.
TEPERMAN, Ricardo. Se liga no som: as transformações do rap no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015.