EDUCAÇÃO E CATEQUESE DO AVÁ EM MAÍRA
EDUCAÇÃO E CATEQUESE DO AVÁ EM MAÍRA
Profa. Dra. Aurora Cardoso de Quadros; Profa. da Unimontes; membro da Cátedra Darcy Ribeiro; ([email protected])
Profa.; Cláudia Regina Santos de Almeida; especialista;
Coordenadora da Cátedra Darcy Ribeiro ([email protected])
Me. Mônica Nogueira Camargo; membro da Cátedra Darcy Ribeiro;
([email protected])
Ao representar os problemas da educação religiosa por que passa o personagem Avá, na obra Maíra (RIBEIRO, 1976), o autor Darcy Ribeiro cria um posicionamento que se contrapõe à catequese ocorrida no Brasil, ao mesmo tempo em que delineia o dilema da perda de identidade do protagonista, após a experiência com a doutrinação católica. A formação do personagem envolve uma etapa em Roma, de onde estava previsto seu regresso, quando ele seria o instrumento para difusão, junto à tribo mairum, dos conhecimentos adquiridos. Contudo, ao contrário do esperado, o índio, que volta com o novo nome de Isaías, apresenta uma profunda confusão psíquica. O personagem incorpora a questão do primitivo brasileiro, remetendo à ideia inicial de que, por meio da doutrina católica, o primitivo seria salvo da escuridão. Este estudo, sob o eixo temático Educação e Regimes de Conhecimento Indígena, tem o objetivo de investigar a ambiguidade de Isaías, após a assimilação dos preceitos católicos, e entender os sentidos da sua confusão mental. Para tanto, percorre algumas teorias que auxiliam na análise do mal que acomete o índio.
A metodologia, por meio da leitura e análise do enredo, além da pesquisa bibliográfica, utiliza fontes teóricas como subsídio da pesquisa sobre o condicionamento ao qual o primitivo brasileiro foi submetido, a começar por Pero Vaz de Caminha, na sua Carta ao rei (CAMINHA, s/d), e seu diagnóstico de necessidade de “salvação daquela gente” pela educação religiosa. O estudo passa pelos registros dos portugueses na nova terra, onde as missões acreditavam atuar de modo a corrigir os vícios da cultura indígena pela aplicação dos métodos considerados corretos. Na investigação dos registros de tais ações, que eram comunicadas em cartas e crônicas, este estudo encontra apoio em teorias que fundamentam a compreensão do lugar que hoje o índio ocupa na sociedade. E, embora vistas por alguns estudiosos como indiferentes no conjunto da produção literária brasileira, Alfredo Bosi (1974) considera que tais crônicas do período colonial valem como reflexo da visão do mundo dos nossos primeiros observadores, acrescentando que “graças a essas observações diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar como o fenômeno da palavra-arte”. (BOSI, 1974, p. 15). Entende-se, com isso, que esses documentos possibilitam o regresso de poetas e escritores às raízes primitivas. Do ponto de vista pedagógico, Ribeiro revela uma oposição à proposta formadora do protagonista. Como parâmetro, este estudo toma a pedagogia do Padre José de Anchieta, que usou os autos para educar os índios no Brasil Colônia. Um exemplo que se toma para cotejamento é o Auto de São Lourenço (ANCHIETA, 1997a), onde o protagonista Guaixará faz o papel do primitivo e possui os costumes deste, representando-os como vícios e rudezas. O objetivo dos autos era doutrinar por meio da arte teatral, estratégia que uniria o Dulce e utili horaciano. Como contraponto à educação que modifica a paz do elemento autóctone, toma-se a elaboração sobre uma educação libertadora de Paulo Freire (2014).
Assim, pontuando fatos, ideias e propriedades a respeito da educação que o homem dito civilizado empreende junto ao índio brasileiro, este estudo, inicialmente propondo reflexões a respeito dos acontecimentos iniciais em Pindorama até os fatos que envolvem o protagonista de Maíra, aproxima-se do entendimento das causas que perpetuam o imaginário do brasileiro sobre os primeiros habitantes da sua terra e que ainda predomina a respeito do índio brasileiro. E o índio, como se pode constatar na obra O Povo Brasileiro (RIBEIRO, 1996), consiste no principal eixo de identidade quando se trata da construção da brasilidade. E sua representação pelos projetos literários, torna-se também exemplar de reflexões a respeito da educação.
Maíra, desse modo, emerge como um instrumento de polêmica sobre formas de educação, sobre pressupostos, verdades e julgamentos a respeito da essência humana. A obra faz vir à tona o debate em torno da pedagogia que oprime e da pedagogia libertadora. A que emite juízo de valor sobre premissas unívocas e a que busca dar flexibilidade aos ângulos de visão. Entende-se que, na obra de Darcy Ribeiro, a palavra literária revela a arte e as ideias do autor, mas revela também suas concepções e valores, o que se associa à elaboração de Afrânio Coutinho quando esse diz que “a forma está correlacionada à visão de mundo” (COUTINHO, 2004, p. 307). Enfim, avançar no entendimento dos fatos que concorrem para a intervenção do ser e provoca sua ambiguidade essencial apresenta-se como o maior resultado do estudo. Os conhecimentos oferecem ao leitor um olhar sensível e mais apto a promover a justiça que o nosso índio até hoje não alcançou.
Referências Bibliográficas:
ANCHIETA, José de. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Belo Horizonte / São Paulo: Itatiaia / Edusp, 1988.
_________. Auto de São Lourenço. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997a.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Cultrix,1974.
CAMINHA, Pero Vaz de. A Carta do descobrimento. Correio da Bahia, s/d.
COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Vol. 2. São Paulo. Editora Global, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
MEYER, Augusto. Vieira. In: _______ Textos críticos. São Paulo: Perspectiva, 1986, p. 283-287.
RIBEIRO, Darcy. Maíra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
__________. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.