As percepções sobre a sexualidade da pessoa com Síndrome de Down
A discussão sobre a sexualidade não é mais hoje tratada com tanto pudor quanto já foi em outras épocas. Todavia, a sexualidade do indivíduo com Síndrome de Down (SD) é ainda pouco discutida e por vezes considerada como algo inexistente ou que deva ser reprimida (LUIZ; KUBO, 2007). Assim, as pessoas com a Síndrome, em sua maioria, acabam sendo tratadas dentro de um “padrão infantil de comportamento e como assexuadas” (VERÍSSIMO; COSTA, 2007), não encontrando ambientes favoráveis para explanar seus desejos e dúvidas.
O objetivo desse estudo é fazer uma análise sobre a percepção e o tratamento dispensando a cerca da sexualidade das pessoas com Síndrome de Down por pais, profissionais que o acompanham e pelo próprio indivíduo. Defende-se pela necessidade de ofertar a devida importância e de aumentar a educação em saúde e sexualidade tanto dos que apresentam a Síndrome como para toda a sociedade.
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura tendo como base a questão norteadora: “Como o indivíduo com Síndrome de Down e pessoas próximas percebem e interagem com sua sexualidade?”. A busca do acervo científico foi realizada através da combinação de descritores indexados no Desc com o modulador booleano AND. A base de dados utilizada foi a SciElo e os descritores foram “Síndrome de Down” e “Sexualidade”, pesquisados em inglês, português e espanhol.
Os artigos foram primeiramente selecionados a partir da leitura do título, em seguida pela leitura dos resumos e por fim, pela leitura na íntegra. Trabalhos repetidos e que não se adequaram ao tema foram excluídos. Um total de 07 artigos foi encontrado e após aplicação dos critérios de exclusão ficaram 05 para a produção desse estudo.
A puberdade, a maturação sexual e a sexualidade da pessoa com Síndrome de Down ocorrem de forma similar ao indivíduo sem a deficiência (LUIZ e KUBO, 2007) (MOREIRA; GUSMÃO, 2002) e assim sendo tem presente o desejo sexual e, portanto, tem o direito à saúde sexual (VERÍSSIMO; COSTA, 2007). Todavia, pais e profissionais possuem dificuldade em aceitar e discutirem esse assunto. Segundo Castelão, Schiavo e Jurberg (2003), em estudo realizado em várias cidades do Brasil, foi constatado que parte significativa dos entrevistados (pais e profissionais que acompanham pessoas com SD) não se acham capacitados para discutir assuntos de ordem sexual.
Por vezes, devido ao temor que haja uma gravidez e que se perpetue a mutação genética, os pais optam por um papel mais protetor. Entretanto, isso pode aumentar a vulnerabilidade das pessoas com SD em relação a abusos e a comportamentos de risco (VERÍSSIMO; COSTA, 2007). Tendo em vista que a sexualidade é regida por parâmetros sociais, é preciso que assim como qualquer outra pessoa em sociedade, o indivíduo com a Síndrome seja provido de educação sexual para que desenvolva, por exemplo, valores morais (MOREIRA; GUSMÃO, 2002).
Em contrapartida à parcela que trata com infantilização a pessoa com Síndrome de Down e nega sua sexualidade, há a que acredita na sexualidade incontrolada. Isso foi perceptível em estudo que contou com a entrevista de alguns professores. Neste trabalho foram relatados comportamentos (“masturbar-se, rir maliciosamente, dançar, agarrar, abraçar e beijar os colegas e verbalizar pensamentos fantasiosos, sentimentos de frustração e ansiedade em relação ao namoro”) que para alguns docentes eram julgados como inapropriados. Porém, quando adolescentes sem deficiência tinham comportamentos similares, eram considerados “indicadores de interesse ‘natural’ pelas questões sexuais” (LUIZ; KUBO, 2007). Sob essa perspectiva, a sociedade tende erroneamente a restringir a sexualidade do indivíduo.
Os tabus sobre esse assunto podem advir da dúvida quanto à intelectualidade e a capacidade da pessoa com SD em tomar decisões. Todavia, não é sempre que o indivíduo com a Síndrome apresenta retardo mental e são poucos os casos em que se encontra um retardo mental grave. As novas práticas utilizadas no acompanhamento e inclusão dessa população fazem com que haja maior desenvolvimento das habilidades de comunicação e interação social desse grupo (MOREIRA; GUSMÃO, 2002).
Estudo realizado no sul do país com alguns jovens com SD demonstrou que “de maneira geral, as percepções, desejos e outros comportamentos desses jovens não diferem daqueles característicos de jovens sem a Síndrome”. Nas suas falas os jovens demonstraram empatia e capacidade de entender os sentimentos do par amoroso. Eles verbalizaram com qualidade sobre características que o atraem no outro e houve também a citação da importância do uso de preservativo para se ter relação sexual. As diferenças encontradas na comunicação entre os entrevistados se deviam mais as formas como foram educados do que propriamente à SD (LUIZ; KUBO, 2007).
Infere-se assim, que o indivíduo com Síndrome de Down tal como qualquer outro ser humano é dotado de desejos e precisa ser provido de educação sexual para que mantenha uma vida saudável. Há a necessidade de maior instrução de pais, profissionais que o cercam e da população em geral, para que o tratem como seres capazes de se relacionarem de forma amorosa, se assim desejarem. A amostra científica sobre o tema é escassa e já data de alguns anos e isso influencia na perpetuação de conceitos errôneos sobre a sexualidade da pessoa com SD, havendo a necessidade de que mais trabalhos sejam realizados.