Flutuações climáticas afetam a demografia de Ameiva ameiva (Squamata, Teiidae) em diferentes hábitats do Cerrado
A história de vida de répteis é influenciada por fatores ambientais podendo sofrer com mudanças climáticas. Estudos demográficos revelam: necessidades das espécies, tolerâncias aos recursos do hábitat e fatores microclimáticos. O lagarto Ameiva ameiva é heliófilo possuindo ampla distribuição geográfica; portanto, um excelente modelo para investigar a interação entre clima, ambiente e demografia. Baseados em um estudo de marcação e recaptura de longo prazo, em áreas de mata de galeria e cerrado sensu stricto na Reserva Ecológica do IBGE e na Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília, investigamos respostas demográficas das populações de A. ameiva às variações climáticas e estrutura do hábitat. Empregando Modelos Lineares Generalizados de Efeitos Mistos, modelamos a variação no número de capturas e no tamanho corporal em função do tempo, tipo de fisionomia e microclima. As capturas foram mais frequentes no cerrado, provavelmente devido a temperaturas mais elevadas e menor cobertura vegetal em relação à mata. O tamanho médio dos lagartos é maior na mata, que são áreas mais sombreadas com temperaturas mais amenas. A diferença do tamanho corporal e da frequência de captura entre fitofisionomias sugere variação ontogenética no uso do habitat, onde indivíduos maiores com maior inércia térmica teriam mais capacidade de explorar ambientes sombreados de forma transitória. A classe etária varia igualmente ao longo do ano nas fitofisionomias, ditada pela sazonalidade reprodutiva da espécie, com recrutamento durante a seca e começo da chuva (maio-dezembro). Embora heliófila, A. ameiva também utiliza as matas, e apesar de preferida por indivíduos maiores, também podem ser frequentadas por jovens. Contudo, embora faça uso marginal da mata, a habilidade diferencial de ocupar este habitat pode ser adaptativo considerando os cenários projetados de mudança climática para o Cerrado. Estudos ecofisiológicos e monitoramento contínuo das populações são fundamentais para compreender respostas a estes cenários.