Estudos de complexos mimeticos em cobras corais em uma área de Cerrado da região de Chapada dos Guimarães, MT
O mimetismo é um fenômeno de destaque em biologia evolutiva, que pode ocorrer não só entre organismos, mas também no nível molecular. Um complexo mimético envolve três elementos fundamentais: um modelo, que emite o sinal; um mímico, que replica o sinal emitido pelo modelo, e um receptor sensível a este sinal. Um dos complexos miméticos defensivos mais investigados entre os vertebrados envolve as cobras corais, que incluem formas venenosas (potenciais modelos da família Elapidae), medianamente tóxicas e inofensivas (falsas corais, em sua maioria da família Dipsadidae). Este estudo testou a pressão de predação sobre serpentes de coloração aposemática, bem como a capacidade de discernimento de padrões de cor de cobras corais por predadores visualmente orientados numa área de Cerrado em Chapada dos Guimarães – MT. Utilizando réplicas de massa de plasticina inodora reproduzindo padrões de coloração de cobras corais falsas (mímicos) e verdadeiras (modelos), além do controle monocromático (marrom liso), foram quantificadas tentativas de predação/inspeção por diferentes grupos animais (i.e., mamíferos e aves) através das impressões deixadas nas réplicas por dentes ou bicos. As réplicas foram distribuídas ao longo de uma trilha cruzando áreas de mata e de cerrado aberto, sendo dispostas diretamente sobre o solo (teste de aposematismo) e também sobre um fundo branco, para minimizar um possível efeito de camuflagem. Foi registrada a frequência de eventos de predação/inspeção sobre as réplicas nas fitofisionomias de cerrado aberto e mata semidecidual. Os eventos de predação/inspeção foram atribuídos a roedores, marsupiais e aves, com amplo predomínio dos primeiros. A maioria dos eventos ocorreu nas réplicas de Oxyrhopus rhombifer (mímico inofensivo) e a menor incidência nas réplicas de Micrurus frontalis (modelo tóxico). A maioria dos eventos de predação/inspeção concentrou-se na mata semidecidual, predominando roedores e marsupiais, devido à baixa distinção do vermelho em mamíferos e luminosidade reduzida neste ambiente.