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Este trabalho dedica-se ao exame das relações entre a educação, o desenvolvimento afetivo e os sofrimentos psíquicos dos estudantes, um tema delicado que nos últimos anos parece ter se tornado uma das principais preocupações dos professores e das famílias, especialmente a partir da pandemia da Covid-19. Nas diferentes etapas da escolaridade tem sido observado o crescimento dos diagnósticos de transtornos e déficits associados a diferentes formas de sofrimento psíquico em estudantes de todas as idades. Ao mesmo tempo, em parte como uma tentativa minimizar os sofrimentos vividos na escola, busca-se cada vez mais reconhecer e valorizar a diversidade na escola, procurando-se ampliar as ações inclusivas. Como um movimento paralelo, assiste-se ao investimento em programas de desenvolvimento das competências socioemocionais dos alunos nas escolas. Embora não estejam necessariamente relacionados e seja possível identificar discordâncias importantes entre os especialistas diretamente envolvidos em cada um desses movimentos ou processos, pode-se dizer que eles se aproximam, não apenas por sua relação com a preocupação com o desenvolvimento emocional dos estudantes e com os sofrimentos psíquicos na escola, mas também na medida em que estabelecem uma série de demandas aos professores, solicitam a sua adesão e produzem interferências nos modos de organização dos currículos e das práticas escolares. Pensar sobre essas questões a partir da perspectiva da história dos saberes pedagógicos sobre a infância pode ser oportuno, na medida em que permite tomar uma certa distância das nossas preocupações mais prementes e dos processos em curso mencionados para, em vez disso, ver se e como os especialistas que nos antecederam em algumas décadas se ocuparam de questões análogas. Sendo assim, este texto pretende identificar como o tema das relações entre educação, desenvolvimento afetivo e sofrimentos psíquicos foi tratado no âmbito discurso da psicologia evolutiva, ou, nos termos atuais, psicologia do desenvolvimento, disseminado entre os professores em meados do século XX. Dedica-se a compreender de que modos esses temas se fizeram presentes nesse discurso num período em que já se considerava importante o estudo da psicologia da criança na formação dos professores, mas no qual ainda não havia emergido no campo educacional a preocupação com o desenvolvimento das competências socioemocionais e ainda não se falava em inclusão, embora já houvesse uma preocupação com a educação dos alunos que se afastavam do que se considerava como sendo o desenvolvimento normal. Para isso, examina especificamente alguns escritos sobre esses temas de Emilio Mira y López, psicólogo catalão que emigrou para o Brasil, onde permaneceu até o fim de sua vida. Emilio Mira y López nasceu em 1896, o mesmo ano em que vieram ao mundo Piaget, Vygotsky e Winnicott, três autores que permanecem como referências fundamentais nos estudos atuais sobre o desenvolvimento humano. Contudo, Mira y López é hoje um autor praticamente desconhecido nos currículos dos cursos de pedagogia, embora também tenha se dedicado ao estudo do desenvolvimento da criança e do adolescente, com um interesse especial pelo modo como se desenvolvem as emoções, a afetividade e a moralidade, razão pela qual merece ser revisitado em um trabalho sobre essas questões. O fato de o autor ter vindo ao Brasil em 1945 e aqui se estabelecido até o fim da vida, em 1964, ainda torna o seu pensamento sobre esses temas mais digno do nosso interesse, uma vez que ele teve a oportunidade de observar e trabalhar com as crianças brasileiras. Este texto se volta para o exame de textos de sua autoria, com destaque para Psicologia evolutiva da criança e do adolescente, publicado originalmente em 1941 na Argentina e traduzido para o português e publicado no Brasil em 1946. O livro Psicologia evolutiva da criança e do adolescente foi escrito em 1941 e carrega, portanto, as marcas culturais de seu tempo nos modos pelos quais o autor se refere às relações entre pais e filhos, às relações entre os sexos e as relações sociais em geral. Feita esta ponderação, merece destaque o fato de Mira y López, em suas considerações sobre a afetividade e as emoções na infância e na adolescência, evidenciar que essas são relações de poder que afetam o desenvolvimento humano em suas múltiplas dimensões. O autor chamou atenção para o fato de que a posição que a criança ou o adolescente ocupa num ambiente no qual as relações de poder estão instituídas de uma certa forma interfere no tipo de sentimento que ela/ele experimenta. Prazer, medo, raiva, timidez, desejo não são vividos em um campo neutro e não são produzidos apenas internamente, em razão de uma suposta constituição afetiva individual de cada pessoa. O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil Referências: HOFFMANN, Maria Helena; TORTOSA, Francisco; CARBONELL VAYÁ, Enrique. Emilio Mira y López y el desarrollo de la psicologia del transito: los casos de España y Brasil. Revista Latinoamericana de Psicologia, v. 26, n. 3, p. 495-516, 1994. JACÓ-VILELA, Ana Maria; RODRIGUES, Igor Teo. Emilio Mir y López: uma ciência para além da academia. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 66, n. 3, p. 148-159, 2014. LAFUENTE, E. Vida y Psicología em Emilio Mira y López. In: LAFUENTE, E.; MIRA, M. Psicología y medicina: últimas conferencias de Emilio Mira y López. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia: Universitat de Barcelona, 2000. p.13-27. MIRA, M. Emilio Mira y López: el investigador de la personalidade humana. Diputació de Barcelona, 2004. MIRA Y LÓPEZ, E. Exploración de la afectividad. Barcelona: Tipografia Santiago Vives, 1930. Ponencia presentada a la Reunión Anual de los Neuropsiquiatras Españoles en Zaragoza. MIRA Y LÓPEZ, E. Psicologia evolutiva da criança e do adolescente. Rio de Janeiro: Científica, 1954. MIRA Y LÓPEZ, E. Psicopedagogia de la sociabilitat. Revista de Psicologia i Pedagogia, Barcelona, v. 1, n. 4, 1933. Seminari de Pedagogia de la Universitat. MIRA Y LÓPEZ, E. Quatro gigantes da alma: o medo, a ira, o amor, o dever. 10. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972. ROSAS, P. Mira y López: 30 anos depois. São Paulo: Vetor, 1995.
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